#AFORISMO 740/ VORAGEM DE IMAGENS UNIVERSAIS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
O sino da igreja badala. Meio-dia. Revisto-me, com olhar furtivo.
Sentimento de paz invade-me. À noite, recolhido ao leito, deslizo-me por
sombras.
Águas entre mortais conhecidas. Somos para elas coisa estagnada, ficamos
para aqui exilados, banidos, excomungados. Olho-as fascinado, olho-as sempre e
uma interrogação milenar na minha garganta, por sempre vivo silêncio perpassado
o ouvido.
Águas entre-cortadas. O milagre está em ti. Tu abristes os olhos num
grande susto e deitastes fora a tristeza toda. Diante de ti pensava em fugir.
Tu não me vias. Olho-te e sei que está longe.
O que a mim é havido - proximidade com a fluidez universal. Sensações. O
que a mim é havido - silêncio dos sons presentes. O que a mim é havido -
uni-versalidade do verbo trans-crito de regências de sin-estésicos sentimentos.
O que a mim há - vida.
O desespero enfraquecido. A angústia fracassada. A agonia frustrada. O
que a mim é havido - linguagem separada, a língua reunida. A civilização
abandonada a esperar o reencontro. O que a mim é havido - ritmo alterável.
(Imagem instável e desordenada do nada). Revelando a lucidez sem memória.
Vou esgoelar. Confessar que o silêncio foi um incenso. Um enigma a par.
Além das águas, vou criar nome. Aquém do silêncio, re-criar palavras a lavrarem
invisíveis imagens. Asas do condor. Claridade. O que me foi - distanciamento da
frieza. Loucura domina quem sou.
Emocionado. O badalar dos sinos. Reveste de lisura o universal. O
passado diverte-me. O rio silencia-se, caindo a noite. Espectro, abismo.
Retenho as poeiras de ser quem sou. Exausto. De ser banido. De ser expulso. De
ser companheiro. De ser cassado. Exausto. De silenciar-me. Calar-me.
Emudecer-me.
O que a mim é havido - canteiro de flores secas ao longo espalhadas,
terra seca, por onde o olhar fitasse tudo destituído de vida, vazia a mente de
pensamentos, a boca tragando e expelindo fumaça de cigarro - ao menos a
angústia, tristeza, amanhãs apenas como aparições do tempo?! Destino
inexistente, rumo sem horizontes.
O que a mim é havido - cenas do amor seguinte. Vou tricotar linhas e
desvendar o mar. Vou tecer cores e tintas e desvelar os mistérios, enigmas de
compor ventos que passam solitários, acompanhando-os nem mesmo brisas,
orvalhos, neves, neblinas. Desaparece. Liquefaz. Abisma. Desgoverna. Cai o
manto da preguiça.
O que a mim é havido - galhos naufragados, espumas abismando águas. O
que a mim é havido - folhas conflituosas, veículos desgovernando estradas. O
que a mim é havido - baladas entristecidas, pingos de orvalho caindo
rechaçados.
O que a mim é havido - sibilos desconstituídos, fumaças liquefazendo
maquiagens. Há as ondas, mas há, para além, os passos de quem locomove e traz
às vezes o ritmo nas docas, no cais, vozes. Nas margens de uma estranha nuvem,
a linha de um eucalipto esfuzia até ao indizível.
O que a mim é havido - ventos insubstanciados, véus desaparecendo
desorganizados. Águas entre(mentes) estendidas. Abundantes, imitam as
evidências todas. Alguma coisa assusta-se e fico à escuta. Tenho medo de
mover-me. Alguém me chama? Respondo. Aguardo uma...
O que a mim é havido - períodos in-subordinados ad-verbiais de lugar,
temporais e causais, orações a priori de princípio, meio e fim pro-jectadas,
quiçá, não me re-corda a mim, aos gerúndios do espaço, e sem vozes acusando o
envio, re-colher-me na alcova insone e silenciosa.
O que a mim é havido - estrelas da madrugada piscando, passos deixados
ao longo das alamedas, o peito arfando de ilusões frívolas, indefiníveis.
Tristes trópicos. Manhã submersa. Estrela polar. Alegria breve. Huis-clos.
O que a mim é havido - cem anos de solidão. Por que clamar presenças?
(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE MAIO DE 2018)

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