**CARÊNCIA DA LÍNGUA - TRIBUTO A TODAS AS LÍNGUAS DO MUNDO** GRAÇA FONTIS: FOTO Manoel Ferreira Neto: PROSA




Epígrafe:


Eis aqui uma gratidão a todas as críticas literárias pelo reconhecimento, incentivo, impulso através dos comentários, ensaios de minha obra, Graça Fontis, Ana Júlia Machado, Sonia Gonçalves, e também uma mensagem, convite a pensarem o pensamento que pensa a Língua, no meu ponto de vista mister e sine qua non a um crítico literário. Beijos a todas, especialmente à minha Esposa e Companheira das Artes, Graça Fontis, com quem venho aprendendo que a língua da pintura são as cores. (Manoel Ferreira Neto)


Acordei hoje com a língua... Não me refiro aqui àquela língua pastosa pela manhã, ao acordar, não há alternativa senão escová-la literalmente, escova e dentifrício de tão desagradável que é. Há quem acorde com a macaca - quê coisa desagradável: dá vontade de mandar a pessoa pentear macaco de tanto que ela se torna pentelha, fala pelos cotovelos, canta pelos joelhos, discursa pelos testículos.


Ao longo dos anos, séculos, milênios, no decorrer dos tempos, todos os homens se assemelham, tornam-se semelhantes, todavia é diferente a ordem de seu desenvolvimento, progresso.


Agora sou quem me manda pentear a língua, como acontece com a mão, nascem-lhe pelos, após o hábito assíduo de certa ação, noutras situações na ponta do dedo indicador direito, dizem as línguas populares, não aconteceu de nascer cabelo na ponta de minha língua, também não é mania desvairada certa ação, sim por prazer mesmo, nada mais gostoso. Entrei num abismo sem fundo. Sei não, mas me parece bem hilário pentear a língua no fundo do abismo, sob clima meredional.


Nos climas meredionais, onde a natureza é pródiga, aliás, tudo é pródigo nos climas meredionais, as necessidades nascem das paixões, questão que deixa dúvidas insofismáveis no concernente a saber se é bom ou se é péssimo isto; nas regiões frias, onde a natureza é avara, as paixões nascem das necessidades, e as línguas, tristes filhas das necessidades as mais contundentes e punjantes, ressentem-se de sua áspera origem.


Ainda que o homem se habitue com as intempéries, com as penúrias, com as macacas da náusea, com o frio, e até com a fome, fome e frio como há tantos homens no mundo passando, há, porém, um ponto em que a natureza sucumbe - nas garras dessas provações cruéis, insensíveis, tudo que é débil perece e tudo mais se fortalece. Não há um ponto inter-mediário entre o vigor e a morte.


As línguas valem mais escritas do que faladas; leem-nos com mais prazer do que nos escutam. Quem sabe para o leitor o sentido só em parte está nas palavras, toda a sua força reside nos acentos. Julgar os autores que conseguem essa façanha de o sentido só em parte está nas palavras é querer pintar um homem tendo por modelo seu cadáver, o que é hilário, e quem discorda deixo-lhe a pastosa língua como gratidão.


Levantei com a língua, mas, engraçado, está mais parecendo que acordei com a macaca. As características assemelham-se: estou muito pentelho. Então, para não conceder primazia a um em detrimento do outro, acordei com a macaca na língua ou com a língua da macaca.


Foram em verso as primeiras histórias, as primeiras arengas, as primeiras leis, as primeiras fofocas. Encontrou-se a poesia antes da prosa, e haveria de assim suceder, pois que as paixões falaram antes da razão.


Paixões... Paixões... Paixões... E lá vem a língua cantar nos meus ouvidos que isto de ela estar sempre conubiada com as paixões é que estou carente, numa carência de dar dó, pena, digno de comiseração, estou à cata de outra língua para a minha brincar com ela nas nossas bocas unidas. E as paixões falam nos meus ouvidos que há outro modo de saciar a carência, mas é com a ponta da língua, sacia qualquer carência.


#riodejaneiro#, 11 de julho de 2019#

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