#UMA COMPARAÇÃO: RACINE E DOSTOIÉVSKI# GRAÇA FONTIS: FOTO Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO
A vinculação
entre diversidade e caráter indica algo como um fio condutor, não completamente
visível ao longo da narrativa, para a compreensão da história do narrador: a
história de uma vocação ou “A vocação de que esta obra é a história”; história
de uma vocação e busca da verdade são duas maneiras de nomear o reencontro do
tempo.
A História,
que modernamente se afigura como a entidade determinadora das significações e
dos valores do homem, acaso não será a herdeira da transfiguração da angústia
perante a impermanência? Diz Gaston Berger que “a paixão pela história cresce
em relação inversa da consciência que temos da eternidade”.
A História,
ilustração do tempo manejado pelo grupo social, objetiva asseverar a identidade
do grupo e garantir a sua existência. “A história”, escreve ainda Gaston
Berger, “é feita de não-ser”.
O tempo,
antes definido como dimensão significativa do ser, vê então a sua origem
revelada: o tempo é criação do homem, não apenas na forma de parâmetro que
facilita a ordenação das ações humanas, mas sobretudo como tentativa de negar a
morte. “A construção do tempo aparece”, diz Gaston Berger, “como resultado de
uma fuga perante a realidade. O tempo não é símbolo da eternidade: é a sua
paródia”.
A
possibilidade de coexistência simultânea, a possibilidade de contigüidade ou
oposição é para Dostoïévski uma espécie de critério de separação do essencial
do secundário. Só o que pode ser assimilado é dado simultaneamente, o que pode
ser assimilado é conexo em um momento, só o que é essencial integra o seu
universo; esse essencial pode transferir-se para a eternidade, pois acha ele
que na eternidade tudo é simultâneo, tudo coexiste.
Aquilo que
tem sentido apenas como “antes” ou “depois”, que satisfaz ao seu momento, que
se justifica apenas como passado ou como futuro, ou como presente em relação ao
passado e ao futuro é secundário para ele e não lhe integra o mundo.
Permanência,
liberdade, identidade são intuitivamente colocadas como problemas inerentes ao
horizonte temporal.
Os paradoxos
do tempo são os paradoxos do homem.
A
subjetividade narrativa sustenta a diversidade dos eventos e compreende a
variação da experiência porque há uma teleologia peculiar governando a
trajetória do narrador/herói. A travessia da transitoriedade é pontilhada de
lampejos reflexivos que pré-anunciam a revelação final.
Só no
Classicismo, só em Racine ainda podemos encontrar uma coincidência tão profunda
e plena da forma da personagem como a forma do homem, do dominante da
construção da imagem com o dominante do caráter. Mas essa comparação com Racine
soa como um paradoxo, pois é, efetivamente, demasiado diverso o material em
que, num caso e noutro, concretiza-se essa plenitude da adequação artística.
A personagem
de Racine é toda uma existência estável e rígida como uma estátua plástica. A
personagem de Dostoiévski é toda uma autoconsciência. A personagem de Racine é
uma substância estática e finita, a personagem de Dostoiévski é uma função
infinita. A personagem de Racine é igual a si mesma, a personagem de
Dostoiévski em nenhum momento coincide consigo mesma – vale lembrar e ressaltar
estas palavras de Dostoievski: “O homem não coincide consigo mesmo”. Mas, em
termos artísticos, a personagem de Dostoiévski é tão precisa quanto a
personagem de Racine.
A
subjetividade narrativa é uma instância e não se confunde com o subjetivismo: a
elucidação do sentido da história do narrador tem o alcance do desvelamento da
gênese da obra e de seu fundamento. Na arte, a mediação da subjetividade é
criação e pode-se medir o alcance criador da subjetividade dando-se conta de
que o encontro do tempo é o encontro de si e que desta identificação surge, por
criação, o mundo romanesco.
Neste
aspecto, “o encontro do tempo é o encontro de si”, a experiência de
de-monstração da vida e obra de Dostoievski, desde o seu início, não imaginando
que tomaria tais rumos, chegaríamos a essa profundidade, através das leituras
das obras e de toda a bibliografia aqui presente, dúvidas, medos, receios, este
encontro com Dostoievski nestes longos anos de leitura, de pesquisa e
interpretação de sua obra e vida, efetivou-se sim, tornou-se um encontro, a
partir de um mergulho, com o nosso pensamento, nossas idéias, desejos e
vontades.
Enquanto
dominante artístico na construção do modelo da personagem, a autoconsciência já
se basta por si mesma para decompor a unidade monológica do mundo artístico,
desde que a personagem seja realmente representada e não expressa enquanto
autoconsciência, ou melhor, não se funda com o autor nem se torne veículo para
a sua voz, desde que, conseqüentemente, os acertos da autoconsciência da
personagem estejam realmente objetificados e a própria obra estabeleça a
distância entre a personagem e o autor. Se não estiver cortado o cordão
umbilical que une a personagem ao seu criador, então não estaremos diante de
uma obra de arte, mas de um documento pessoal.
#RIODEJANEIRO#,
07 DE ABRIL DE 2019#


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