#BALZAC ENTRE A PROSA ESTÉTICA E A PROSA RACIONAL# GRAÇA FONTIS: FOTO Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO
A exemplo de
Homero ou Ésquilo, Dante ou Shakespeare, Balzac foi o espelho móbil e profundo
onde vieram refletir-se, infrenes e ululantes, todas as fatalidades humanas.
Ele não pretendeu reformar os homens senão reproduzi-los, transmitindo-nos, sem
retoques infiéis, as suas diferentes máscaras. Não há nos seus tipos uma
filosofia preconcebida, um sistema de idéias formado no raciocínio puro de
Balzac. Há unicamente exemplares humanos em face das contingências.
Desejoso de
produzir efeito impressionante pela evocação da realidade concreta, não teria
obtido esse resultado senão por meios abstratos, articulando todas as partes
dessa realidade com uma armadura e ligações conceptuais. Disso resultaria uma
constante confusão entre a prosa estética e a prova racional, de sorte que o
leitor nunca saberia precisamente o sentimento que tem da realidade de uma
cena, afinal, não é apenas uma ilusão devida à verdade do comentário abstrato
que a enquadra.
Na posição e
dedução abstrata dos casos psicológicos, Balzac gasta tesouros de inteligência
que lhe asseguram incontestável soberania sobre todos os moralistas presentes,
passados e, sem dúvida, futuros. Ninguém conheceu melhor que ele a vida média e
os mil aspectos que pode revestir uma idéia social posta em contato com a
experiência: vale a pena reler estas admiráveis análises em que Balzac definiu
as relações entre os noivos e os esposos: Memórias de duas jovens esposas, Uma
dupla família, O contrato de casamento, Uma filha de Eva, etc.
O retrato de
Natália Evangelista, por exemplo, é uma obra-prima, e a atitude de Félix de
Vandenesse em face de sua mulher representa uma das situações mais profundas,
mais delicadamente naturais já concebidas. Mas, do ponto de vista que nos
interessa, é essencial observar que o acento, nessas narrativas, está na
análise abstrata, concebida e executada à margem da ação e antes dela; e que a
ação representa aí apenas um papel complementar.
A luta
contemporânea entre as classes é a luta do egoísmo, dos que não têm contra o
egoísmo dos que têm; dos interesses materiais do proletariado contra os
interesses materiais das classes proprietárias: a aristocracia e a burguesia.
Que coisa melhor para a sociedade como entidade, para seu desenvolvimento
normal e feliz, a vitória do egoísmo do proletariado sobre o egoísmo das
classes proprietárias ou do egoísmo destas sobre o egoísmo do proletariado?
Este é o problema.
Que
aconteceria se o proletariado se apossasse do poder? Segundo a opinião de
Balzac, isto seria um dos piores desastres para a humanidade e não só para as
esferas superiores, mas para as próprias massas. O poder estaria nas mãos dos
rancorosos, de uma plebe vulgar e morta de fome, sedenta de vingança e de
sangue.
#RIODEJANEIRO#,
06 DE ABRIL DE 2019#

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