#CRIME E CASTIGO - DOSTOIÉVSKI# Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO
Crime e
castigo concentra-se na solução de um enigma: o mistério dos motivos do
assassino. É que o próprio Raskólnikov, como se fica sabendo, descobre que não
entende por que matou; ou, em termos mais precisos, toma consciência de que o
propósito moral que supostamente o inspirou não pode explicar sua conduta.
Dostoïévski
internaliza e psicologiza a costumeira busca do assassino na trama da história
de detetive e transfere essa busca para a própria personagem. É Raskolnikov
quem procura sua própria motivação. Essa procura envolve o romance num suspense
que é semelhante à busca convencional do criminoso, porém evidentemente muito
mais profundo e mais complexo em termos morais.
A história
de detetive sempre contém pistas, algumas das quais apontam para o verdadeiro
criminoso, outras para personagens totalmente inocentes que passam a ser falsos
suspeitos e que são introduzidas para enganar o leitor durante algum tempo.
Visto que o
mistério central é a motivação de Raskolnikov, o autor usa também esses enganos
para plantar pistas nesse enigma, pistas que ao mesmo tempo orientam e
desorientam o leitor. As pistas de orientação, tramadas com muito cuidado desde
o início no pano de fundo da ação (mas de modo tão discreto que são facilmente
desprezadas, sobretudo numa primeira leitura), apontam para aquilo que
Raskólnikov acabará por descobrir sobre si mesmo – que matou, não pelos motivos
altruístas e humanitários que, na sua crença, estavam agindo sobre ele, mas
unicamente por uma necessidade puramente egoísta de testar sua força.
Dentro da
narrativa de Crime e Castigo está inserida uma idéia de como o romance deve ser
lido, uma hermenêutica de interpretação, que é parte integrante de seu tema
anti-radical e expressa a crença na importância das idéias e em seu poder de
influenciar o comportamento humano, crença que Dostoïévski manifestou muitas
vezes.
É muito
característico em Dostoïévski também a plenitude da autoconsciência do “homem
ridículo”: ele mesmo sabe melhor que ninguém que é ridículo: “se houve na terra
um indivíduo que soube mais do que todos que eu sou ridículo, então esse
indivíduo fui eu mesmo”.
#RIODEJANEIRO#,
05 DE ABRIL DE 2019#

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