UM INTELECTUAL PARA OS NOVOS TEMPOS – IN MEMORIAM Manoel Ferreira Neto: HOMENAGEM PÓSTUMA A ANTÔNIO CARLOS FERNANDES
Post-Scriptum:
Aos 11 de
abril de 2010, Antônio Carlos Fernandes e Wander Conceição terminaram a revisão
completa da obra histórica A TERRA, O PÃO, A JUSTIÇA SOCIAL - A IMPORTANTE
PARTICIPAÇÃO DA IGREJA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DO BRASIL.
Estava ele
com os pés muito inchados, e sua esponia Sonia insistiu bastante com ele para
ir ao Hospital, seria muitíssimo bem cuidado pelos médicos por ser ele na época
Gerente do Instituto Nacional de Serviço Social (INSS). Não adiantou a
insistência de Sonia, dizendo ele nada ser grave, apenas que havia trabalho
muito a semana inteira. Como ele só ouvia a irmã, Aparecida, Sonia a chamou
para conversar com Toninho Fernandes. Nada adiantou. Aos 12 de abril de 2010,
às seis e meia da manhã, caiu morto no banheiro de sua residência, vítima de
enfarto fulminante.
A obra
escrita por ele foi enviada à editora para edição. Cinco meses depois, 12 de
setembro de 2010, a obra foi lançada no Auditorium da Escola de Odontologia de
Diamantina, tendo sido eu convidado para discursar a respeito de meu
inestimável e tão querido amigo, quando li esta homenagem a ele dedicada.
Manoel
Ferreira Neto
Tristeza e
alegria se confundem neste instante em que me proponho a escrever comentário
sobre obra das mais importantes de nossa atualidade. Acabo de receber das mãos
de Sônia Frois Fernandes, viúva de meu amigo e companheiro da vida e dos
caminhos da intelectualidade Antônio Carlos Fernandes, “Toninho Fernandes”, a
sua última obra histórica A TERRA, O PÃO, A JUSTIÇA SOCIAL – A IMPORTANTE
PARTICIPAÇÃO DA IGREJA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DO BRASIL, em parceria com Anísia
de Paulo Figueiredo (org.), Antônio Carlos Fernandes, Wander José da Conceição,
que não teve oportunidade de vê-la publicada, faleceu dia depois de havê-la
concluído. Tristeza por haver “perdido” grande amigo e companheiro, homem
responsável com os sonhos e utopias de História que reflita os conflitos
sociais, culturais, artísticos, individuais, econômicos e políticos, resgate
mesmo da verdade da História, das tensões e interesses ideológicos na sua
“feitura” ao longo dos tempos, homem compromissado com os ideais de povo, cujo
“pão” é a História, Diamantina, Patrimônio Histórico da Humanidade, homem que
dedicou a vida ao engrandecimento e desenvolvimento da História, homem cuja
maior preocupação era a Justiça Social, como professor, mestre em História da
Igreja, doutorando no mesmo, não chegou a concluir, defenderia no final deste
ano de 2010 a sua tese, diretor regional do INSS; como homem, filho, irmão,
marido e pai exemplares, amigo sincero e leal, de quem recebi lições intelectuais
básicas de compromisso e responsabilidade com a cultura, artes.
Difícil é
expressar o que penso e sinto com a leitura desta obra, os sentimentos que me
perpassam por sua ausência são demasiados fortes e presentes, subjetividade e
objetividades se amalgamam, mas creio ser o caminho perfeito para mostrar o que
deixou em mim disto que é a responsabilidade com o homem e justiça social.
Não
intenciono ensaio a critério e rigor de seu Ensaio, FIDELIDADE E IDEAL DA
MISSÃO EM NOVOS TEMPOS, cujos objetivos específicos foram a análise das obras
sociais do 1º Arcebispo de Diamantina, Dom Joaquim Silvério de Souza, quem
“vislumbrou um futuro de prosperidade para uma das regiões mais carentes do
Brasil, além de ser um grande intelectual”, membro fundador da Academia Mineira
de Letras e patrono da cadeira nº 75 do Instituto Geográfico Histórico do qual
fez parte” (cf. Introd. de A terra, o pão, a justiça social, pág. 16). O
interesse sine qua non aqui é o “homem e o intelectual” Toninho Fernandes: sem conhecer
o homem, o autor, impossível compreender a obra, objetivo específico de seu
pensamento e idéias em compor o ensaio sobre D. Joaquim Silvério de Souza.
O primeiro
pressuposto da história humana é a existência de indivíduos vivos, ação e
condições materiais de existência. O homem se diferencia da determinação
puramente natural, superando-a, por sua atividade produtiva. Conforme Karl
Marx, os homens começam a se distinguir quando iniciam a produção dos meios de
vida, passo em frente que é consequência de sua organização corporal. Ao
produzirem os meios de existência, os homens indiretamente produzem a sua
própria vida material.
O trabalho,
a atividade vital, a vida produtiva mesma aparece ao homem só como meio para
satisfazer uma necessidade, a de manutenção física. Mas a vida produtiva é a do
gênero. É a vida engendradora de vida. No tipo de atividade vital jaz o caráter
inteiro de uma spécies, seu caráter genérico, e a atividade consciente livre é
o caráter genérico do homem. Quando, no Capítulo 7, subcapítulo 7.2, A Escola
Profissional Irmã Luiza – EPIL, Toninho Fernandes comenta a instituição da
Associação das Senhoras da Caridade, cuja solene autoridade era do Arcebispo
Dom Joaquim, entre aspas, identificando os objetivos dessa instituição, escreve
“para alargar a esfera de sua ação em prol da pobreza”, à página 36,
vislumbramos o intelectual Toninho Fernandes, sua vida e obra.
Sua produção
intelectual, caminhos em prol da História, Justiça Social, compromissos e
responsabilidades, se fundamentam in totum na consciência histórica, dimensão
em nossa modernidade, especialmente em nossa atualidade, esquecida, perdida ao
longo dos tempos, sistema capitalista, ideologias e interesses di-versos de
poder e bens materiais. Sem o conhecimento da História, a consciência do homem
de seus caminhos, direitos vitais de conhecimento, nada haverá de mudanças e
transformações sociais, individuais, políticas, econômicas e artísticas, não
haverá nem história, o homem apenas está no mundo.
Entregando-se
por inteiro em busca de transformações sociais, políticas, ao caráter
in-vestigativo dos processos históricos, a mostrar a continuidade histórica nas
manifestações artísticas, culturais, ao conhecimento delas em sua integridade,
indiretamente a produção intelectual volta-se exclusivamente para o homem
mesmo, isto é, o resgate da consciência de produtor de vida, artífice da
dignidade histórica, construtor de responsabilidade e compromisso com o destino
dos homens. A consciência, estabelecida e instituída com a consciência dos
valores humanos e humanitários advém do conhecimento, este se insere nos
processos sociais, políticos, artísticos, gerando lutas, gerando buscas de
novos horizontes, gerando justiça.
A atividade
intelectual de Toninho Fernandes se coloca para o seu povo, para nós, os
homens, como objeto para sua determinação consciente. Isto é, Toninho Fernandes
tomou a atividade produtiva como objeto de pro-jeção e reflexão espiritual –
daí, o específico interesse pela História da Igreja, caminhos da vida eclesial
diamantinense -, consciente e ativo, que se liberta dos estreitos limites da
reprodução cega das formas biológicas, intervindo e transformando o meio, as
condições materiais e espirituais da existência.
O grande
mérito intelectual de Toninho Fernandes na jornada de consciência histórica,
interagindo história política, social, espiritual, religiosa, é precisamente o
fato de ter vislumbrado a legalidade essencial do processo autoconstitutivo de
seu povo, dos homens, da humanidade, através da consciência, que gera a busca
de justiça social. Este grande mérito experienciado, não apenas em elucubrações
teóricas, solipsismos, mas através de lutas e trabalho verdadeiros, consiste em
que o povo compreenda a autocriação do homem como processo historiológico, onto-histórico,
historicidade e historialidade, a objetivação como perda do objeto, alienação e
superação dessa alienação; nós, os homens, compreendamos a essência do trabalho
e concebamos o homem objetivo – verdadeiro, pois é o homem real – como o
resultado de nosso próprio trabalho.
Ainda no que
tange ao mérito intelectual é o comportamento real e ativo de homem para
consigo mesmo como ser genérico, ou manifestação como ser genérico real (isto
é, como ser humano), somente possível porque efetivamente exterioriza todas as
forças genéricas – o que só é possível através da ação cooperativa de toda a
humanidade, somente como resultado da história. Toninho Fernandes tomou a
própria atividade intelectual como objeto de construção de uma consciência
histórica e espiritual, como bem explicitou Lukács num capitulo de Ontologia do
Ser Social, a prévia ideação do objeto da ação e a escolha adequada de meios. A
efetivação do trabalho requer a apropriação consciente da realidade, tanto da
natureza externa quanto da própria natureza dos indivíduos humanos; além disso,
sempre impulsiona à crítica prática, que pode modificar todo o processo por
inter-médio de novas aquisições a respeito da realidade objetiva ad-vindas da
própria realização do trabalho.
Nestas
páginas, deixou Toninho Fernandes registrado o seu pensamento, idéias de
intelectual para os novos tempos, em tempos de “mudança de época, mais que em
época de mudanças”, em tempos em que a intelectualidade não é objeto de
ad-mirações, de orgulhos e lisonjas individuais – ele que jamais fora
intelectual de plantão -, mas de compromisso e responsabilidade com os destinos
históricos e espirituais dos homens.
Uma carreira
tão exemplar, tão profunda, tão consciente de seus objetivos, ser tão
precocemente interrompida, é de derramar lágrimas pujantes, como dissera nosso
amigo em comum, Juscelino Braziliano Roque, em nosso encontro no velório de
Toninho Fernandes, “a história diamantinense pára com a morte deste grande
intelectual, deste homem exemplar em todos os níveis; nós que convivemos com
ele, que estivemos com ele em sua caminhada, sabemos disso”, o que lhe respondi
eu, “nem daqui a quinhentos anos haverá outro Toninho Fernandes em Diamantina,
talvez jamais haja outro”.
Mas as obras
que deixou, a luta por toda a vida em prol da verdade histórica, da justiça
social, continuarão vivas por todos os séculos e milênios, até a consumação dos
tempos.
#RIODEJANEIRO#,
08 DE ABRIL DE 2019#

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