#LÚCIO CARDOSO: O DOSTOIÉVSKI BRASILEIRO# Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO




Post-Scriptum:

Joaquim Lúcio Cardoso foi nascido em Curvelo, 14 de agosto de 1912, Centro Norte de Minas, falecido no Rio de Janeiro aos 28 de setembro de 1968. Pouco tempo lá morou, indo para Belo Horizonte continuar seus estudos, e de lá participou sua mudança para o Rio de Janeiro. Já escritor renomado, louvado pela crítica por sua obra-prima CRÔNICA DA CASA ASSINADA, considerado o Dostoiévski Brasileiro, voltara a Curvelo. Fora a um baile no Clube Recreativo Curvelo, não lhe sendo permitida a entrada por ser homossexual. Sentou-se na calça na Rua Zuzu Angel, chorando muito, jurou que jamais retornaria a Curvelo, jura que fora cumprida a rigor e critério. Curvelo jamais reconheceu os seus artistas e intelectuais, a penúria cultural de lá é impressionante. (Manoel Ferreira Neto)

Entre os curvelanos, um escritor recebeu o título de o Dostoïévski Brasileiro pela crítica, Lúcio Cardoso, que em Crônica da casa assassinada revelou com engenhosidade e genialidade o que a criatura humana possui de mais íntimo. Ninguém soube como Dostoïévski, Lúcio, Lima Barreto mostrar os complexos e variados lados da natureza humana, a sua capacidade quase infinita de grandeza, de sordidez, o segredo de suas paixões, e o motivo de seus impulsos.

Ah, que sabemos nós do coração humano – no fundo, nesse insondável lugar onde se representa a última cena de uma comédia sem espectadores, talvez estivesse apenas reagindo contra a sanha dos Meneses, sua opressiva e constante tirania .

O universo dos romances de Lúcio Cardoso é a solidão crepuscular, em que os sentimentos se libertam e vivem, mal definidos em seu contorno, no obsessivo desespero dos caminhos fechados, na dilacerante angústia do “para-sempre”. A solidão, Solidão que é da alma, que não tem a existência condicionada a presenças nem ausências, solidão criadora, em clima de pesadelo, gerando a angústia, libertando o medo e o ódio que oprimem e trituram o homem. Nas alegorias os sentimentos se personalizam e falam, sem mostrar o seu núcleo emocional, ao passo que, em Lúcio Cardoso, eles se personalizam, não pela palavra, mas pela presença opressiva e obsessiva, na meia-luz das consciências em crise, nas emoções e sentimentos dilacerados e multifacetados da sensibilidade à busca do sublime, da eternidade, nos olhares perdidos, cristalizados, em busca de alguma visão diferente da que se apresenta e revela a aridez da vida e do mundo.

Meu desespero, se bem que intenso, era atenuado por duas circunstâncias preponderantes: primeiro, tinha certeza de que ela (Nina) não se achava distante de mim – segundo, era impossível deixar de compreender que aquela ausência não dependia de sua vontade.(CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA)

Tanto nas obras de Dostoïévski quanto em Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, como parece estranha a qualquer olhar exterior a paisagem russa sem caminhos, a paisagem curvelana sem veredas, como as planícies da pátria daquele, dos prados, sertão curvelanos, e tão diferente do nosso mundo. Nada de interessante detém o olhar; raramente uma hora tranqüila convida ao repouso.

#RIODEJANEIRO#, 05 DE ABRIL DE 2019#

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