#KIERKEGAARD: PRINCÍPIO FUNDAMENTAL DO HOMEM ESTÉTICO# GRAÇA FONTIS: FOTO Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO
O jovem
Kierkegaard, obcecado pelo sentimento do pecado e pela angústia da sensualidade
que o assaltavam nessa época, tornou-se então um “filósofo solitário”, no dizer
de Jean Wahl, e abandonou a religião.
Entregou-se
a uma vida desregrada de prazeres, gastando altas somas em roupas, comidas e
bebidas. Esse período crítico de sua juventude iniciou-se no mesmo ano da morte
de seu pai (1838) e teve relações com a sua crise.
Com o
rompimento do noivado, Regine Olsen sentiu-se ferida em seu orgulho de mulher e
casou-se com Fritz Schlegel, posteriormente governador das Índias Ocidentais
Holandesas.
A
consciência e o amor são, de fato, personalizantes. O homem personaliza-se à
medida que se dirige a um Tu. O instinto despersonaliza e, por conseqüência,
coisifica o outro. Não se reconhece, neste caso, a alteridade de quem está
diante de nós, mas somente sua sexualidade como aspiração do instinto. Isto
significa contradizer a própria humanidade, encontrar-se na esfera do
impessoal. Talvez na esfera do meramente somático.
O erótico em
Kierkegaard se define com outro predicado: o erótico aqui é a sedução. É
curioso: a idéia de um sedutor falta totalmente no mundo helênico. Por isso, de
modo algum é nossa intenção querer falar no helenismo, pois tanto os deuses
como os homens eram, como todos sabem, negligentes em questões de amor; nem
tampouco censurar o Cristianismo, pois somente ele tem a idéia fora de si.
A
sensualidade é igualmente o erótico sensual como princípio, unicamente tem
cabido dentro do Cristianismo. Das palavras de Kierkegaard claramente se deduz
que a música é uma arte tipicamente cristã, representativo do que ele próprio
Cristianismo exclui de si e, por tanto, afirma, isto é o que chamamos o
demoníaco. Assim, na genialidade sensual erótica tem a música seu objeto
absoluto, a representação-expressão há-de se fazer sempre de modo direto.
O homem
religioso kierkegaardiano está também, como o Zaratustra de Nietzsche, além do
bem e do mal porque transcende quaisquer valores morais em nome de uma
categoria sobrehumana.
O estado
estético valoriza o gozo e a temporalidade e é próprio do hedonista ou do
romântico, que obedecem totalmente a imperativos do instante, a desejos e
prazeres que se multiplicam indefinidamente sem outra alternativa que a função
da imediatez. Carpe diem, carpe horam, eis aqui um princípio fundamental do
homem estético, sejam quais sejam suas atitudes e inclinações sensuais. Este
homem vive por inteiro no presente, submergindo-se nele, mas sem aprofundar
nele; ou melhor, perdendo-se a si mesmo nas sucessivas sensações do momentâneo,
que o pervertem como indivíduo.
Para
Kierkegaard, Don Juan e Mozart se interpenetram profundamente até o ponto em
que Don Juan converte Mozart em um compositor clássico e imortal, pela
transfiguração que opera do mito erótico e dos materiais musicais que se
encontravam a seu alcance. Nenhum compositor – diz-nos Kierkegaard – poderia
competir com o gênio de Mozart, porquanto que a idéia e o médio de que se valeu
para a expressão de seu Don Juan, são absolutos e enormemente abstratos. E
acrescenta: “Fausto, de Goethe, é verdadeiramente uma obra clássica, mas
responde a uma idéia histórica, e por isso cada tempo apreciável tem seu
Fausto. Fausto se serve do veículo da linguagem, e como este é um meio muito
mais concreto, se pode concebir por esta razão várias obras da mesma classe
[...]”.
Conforme
Gregor Malantschuk, Introdução à obra de Kierkegaard:
É
característico em K. o fato de que, para elucidar os estádios estético e ético,
ele escolhe de preferência a relação do homem com o sexual e o erótico. K.,
porém, sabe que o sexual e o erótico constituem o domínio inferior do estético,
do qual a ligação do homem ao temporal surge mais fortemente. O sexual, segundo
a definição de K., é um “extremo exterior da síntese”, ou, ainda, “o mais
exterior do sensível”. Isso importa, também, em que se se quiser descrever o
seguimento o mais inferior do estádio estético, deve-se começar com o
representante extremo do sensível. Este, encontra-o K. na história de D. Juan,
que modifica tendo em vista esse objetivo. Sob um ponto de vista exterior, D.
Juan é o gênio máximo do sensível e é de ressaltar-se que sua aparição só foi
possível depois do advento do cristianismo... D. Juan é o protesto do sensível
contra a exigência do cristianismo, de uma subordinação do sensível ao
espiritual. Surge, ao mesmo tempo, na exposição a afirmativa de que a figura de
D. Juan, como um poder demoníaco, pode ser reproduzida da melhor maneira na
música...” .
Para
Kierkegaard, o amor romântico encontra na eternidade presumida que o enobrece e
salva da pura sensualidade uma analogia com o ético. Pois, o que tem relação
com os sentidos é momentâneo e busca a satisfação imediata. Quanto mais o
físico for refinado tanto mais saberá fazer o momento do gozo uma pequena
eternidade. A verdadeira eternidade no amor, que é a verdade ética, salva-o por
isso, real e prontamente, da sensualidade. Porém, para criar esta verdadeira
eternidade é necessária uma determinação da vontade.
O amor
romântico permanece sempre abstrato nele mesmo e quando não pode assumir uma
história exterior é porque já a morte o aguarda porque sua eternidade é
ilusória. O amor conjugal começa com a posse e assume uma história interior. É
fiel como o amor romântico, mas com esta diferença: o amante romântico e fiel
espera, por exemplo, quinze anos e, então, chega o momento da recompensa.
Para poder
encontrar alguém como Tu, é necessário que minha opção seja ditada pelo amor,
por Eros, não pelo instinto. Por esse motivo, segundo Viktor Frankl:
Enquanto
minha escolha amorosa for determinada por algo assim como um modelo
inconsciente, uma imagem fora do eu, ´coisificada´, não pode se tratar em
absoluto de amor (...). Enquanto um eu for ´impulsionado´ para um tu por um
isso, não é possível falar de amor. No amor nenhum eu é impulsionado por um
isso: o eu é quem se ´decide´por um tu .
Também no
amor, e principalmente nele, o homem se manifesta como “ser-que-se-decide”. São
próprios do amor uma função intuitiva; um conhecimento não especificamente
racional, mas nem por isso menos cognoscivo. Na verdade, quem ama conhece
“razões que a razão não conhece”, como afirmava Pascal. A intuição que
caracteriza as operações de Eros é suficiente para falar de conhecimento, ou
melhor dizendo, de uma “significativa função cognosciva”.
No nosso
mundo, o amor é uma experiência quase inacessível. Tudo se opõe a ele: moral,
classes, leis, raças e os próprios apaixonados. A mulher sempre foi para o
homem “o outro”, seu contrário e complemento. Se uma parte do nosso ser deseja
fundir-se nela, outra, não menos imperiosamente, a separa e exclui. A mulher é
um objeto, alternadamente precioso e nocivo, mas sempre diferente.
Ao
transformá-la em objeto, em ser aparte e ao submetê-la a todas as deformações
que seu interesse, sua vaidade, sua angústia e até mesmo seu amor lhe ditam, o
homem transforma-a em instrumento. Meio para obter o conhecimento e o prazer,
via para atingir a sobrevivência, a mulher é ídolo, deusa, mãe, feiticeira ou
musa, conforme aponta Simone de Beauvoir, mas nunca pode ser ela mesma. Daí que
nossas relações eróticas estejam viciadas na origem, maculadas desde a raiz.
O amor não é
um ato natural. É uma coisa humana e, por definição, a mais humana, isto é, uma
criação, alguma coisa que nós fizemos e que não ocorre na natureza. O amor é
escolha. Livre escolha, talvez, da nossa fatalidade, súbita descoberta da parte
mais secreta e fatal do nosso ser. Mas a escolha amorosa é impossível na nossa
sociedade.
#RIODEJANEIRO#,
08 DE ABRIL DE 2019#

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