#DOSTOIÉVSKI: A COSMOVISÃO CARNAVALESCA# GRAÇA FONTIS: FOTO Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO




No romance O idiota, a carnavalização se manifesta simultaneamente a uma grande evidência externa e a uma imensa profundidade interna da cosmovisão carnavalesca (em parte, graças mesmo à influência direta de Dom Quixote de Cervantes).

As obras de Dostoiévski são de temática psicológica – embora ele próprio haja dito que não era um psicólogo, apenas um “conhecedor da alma humana” -, é à temática psicológica que, aqui, nos entregamos a partir de sua leitura à busca de nosso conhecimento, a nossa origem psicológica. Nietzsche afirmara que o único que lhe ensinou psicologia fora Dostoïévski.
A multiplicidade de vozes que há na estória funciona sempre numa alternância de sério e cômico; nos momentos mais sérios, mais trágicos surge um trocadilho involuntário, a própria solenidade de certos nomes – Okeanov, de okeán, oceano - frisa este jogo duplo.

[...] o trágico e o grotesco da própria vida russa, sob um controle policial rígido: era este controle que obrigava cada habitante a ter um passaporte, e não uma simples carteira de identidade .

Na Idade Média, a vastíssima literatura do riso e da paródia nas línguas populares e no latim estava, de um modo ou de outro, relacionada com os festejos de tipo carnavalesco, com o carnaval propriamente dito, com a “festa dos bobos”, com o livre “risus pachalis”, etc. Na Idade Média, quase toda festa religiosa tinha, em essência, aspecto carnavalesco público-popular (sobretudo festejos como o Corpus Christi). Muitas festividades nacionais como as touradas tinham nítido caráter carnavalesco. A atmosfera carnavalesca dominava os dias de feira, as festas da colheita da uva, os dias das representações dos milagres, mistérios, da sota, etc; toda a vida do teatro e do espetáculo tinha caráter carnavalesco. Pode-se dizer que o homem medieval levava mais ou menos duas vidas: uma oficial, monoliticamente séria e sombria, subordinada à rigorosa ordem hierárquica, impregnada de medo, dogmatismo, devoção e piedade, e outra público-carnavalesca, livre, cheia de riso ambivalente, profanações de tudo o que é sagrado, descidas e indecências do contato familiar com tudo e com todos.

Apesar da forma literária complexificada e da profundidade filosófica do “diálogo socrático”, seu fundamento carnavalesco não suscita qualquer dúvida. Os “debates” carnavalesco-populares da morte e da vida, da sombra e da luz, do inverno e do verão, etc., debates eivados daquela ênfase das mudanças e da alegre relatividade que não permite ao pensamento parar e imobilizar-se na seriedade unilateral, na definição precária e na univocidade, serviram de base ao núcleo primário desse gênero.

É isto que difere o “diálogo socrático” tanto do diálogo meramente retórico quanto do diálogo trágico, mas a base carnavalesca o aproxima, em certo sentido, dos propósitos agônicos da comédia Ática antiga e dos mimos de Sófron.
A imagem de Sócrates (veja-se a sua caracterização dada por Alcibíades em O banquete, de Platão) tem caráter ambivalente – combinação do belo e do feio – assim como o espírito dos aviltamentos carnavalescos serviu de base à construção da autodenominação de Sócrates como “alcoviteiro” e “parteira”. A própria vida pessoal de Sócrates esteve cercada de lendas carnavalescas.

Em termos gerais, as lendas carnavalescas diferem profundamente das lendas heróicas épicas: fazem o herói descer e aterrissar, familiarizam-no, aproximam-no e humanizam-no. O riso carnavalesco ambivalente destrói tudo o que é empolado e estagnado, mas em hipótese alguma destrói o núcleo autenticamente heróico da imagem.
A carnavalização penetra no profundo núcleo filosófico-dialógico da menipéia . Esse gênero se caracteriza por uma colocação manifesta das últimas questões da vida e da morte e por uma extrema universalidade. O pensamento carnavalesco também se faz presente no campo das últimas questões, não apresentando para estas, porém, nítida solução filosófica abstrata ou dogmático-religiosa, mas interpretando-as na forma concreto sensorial das ações e imagens carnavalescas. Assim, a carnavalização permitiu, através da cosmovisão carnavalesca, transferir as últimas questões do plano filosófico abstrato para o plano concreto-sensorial das imagens e acontecimentos, carnavalescamente dinâmicos, diversos e vivos.

#RIODEJANEIRO#, 07 DE ABRIL DE 2019#

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