#O SEGREDO GRITA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Ah,
palavras, permiti-me dirigir-vos sentimentos e emoções eivados de humildade e
simplicidade, inda que isto sejam farsa e falsidade, pois que tais dimensões me
não habitam. Rogo esta permissão, por sentir haveis concedido-me privilégios
jamais imaginaria ou imaginara ser capaz de intuí-los, percebê-los, e sem os
quais o abismo de minh´alma e de suas coisas me não seria nem ao menos
provável.
Seja dito
que o segredo grita, frágil, para a insolência da meiguice, nas sementes dos
sonhos do verbo; é isto que deve ser dito, qualquer mistério é liame do
silêncio o tempo amarra na eternidade.
A brisa
antes dos oceanos desliza-se em palavras a desejar de si fluírem sons eternos e
solitários, nada mais posso esperar que sejam ouvidas sem talentos ou dons;
apanho pedra no chão e, mãos em concha, distribuo olhares em direções outras do
horizonte.
Neste
instante, que talvez esteja servindo para algo, esteja a fazer-me bem, (se não
bem, mal espero não fazer!) deixe a verdade iluminar-me. E neste instante,
lembra-me há longínquos anos, sublinhando uma frase num texto, o risco embaixo
de vós mostrou-me haver o pé da palavra, que as linhas da página encobrem,
perguntando-me se este pé é que mostrava o inter-dito, os mistérios e enigmas
de vós - fantasiava, obviamente, mas esta fantasia desbravou-me tantas
dimensões, e vós neste decurso e percurso do tempo ajudastes-me a aprofundar as
coisas: Pergunto-vos: "Por que concedestes-me, consentistes-me,
permitis-me tantas dádivas?" Só vós podeis responder-me!...
A beleza encontra-se
suspensa. A suspensão encantoa e borrifica os segundos e minutos, esboroa o
deslizamento das horas.
Músicas.
Fácil.
Vejo-me andando por uma praça pública, iguabando grandezas do tempo nesta manhã
de clima suave, ondas marítimas esparramando-se na praia.
Incrível a
força para as evasões. Apanho o cachimbo. Dou puxadas. Fumaça não sai. Tiro do
bolso caixinha redonda, preta, onde está colocado o tabaco. Ponho. Acendo o
isqueiro. Abaixo, invertendo a posição da mão. Entupido.
Dilação
indefinida – desde que tomei consciência desta expressão, tenho sobremodo
pensado nela; talvez seja categoria. Consiste em manter o processo em uma das
fases iniciais. Para conseguir tal coisa é preciso que o acusado e colaborador,
certamente este último, mantenham ininterrupto contato pessoal com a justiça.
As horas
acham-se encantoadas. Os minutos, presos no pêndulo, entorpecidos. Os segundos,
parados nos ponteiros. É à tarde, quando o dia penetra no abismo do tempo, que
a existência é quotidiana. Há ansiedade vã na noite, céu sem luminosidade. Até
neste torpor sem limites, cada ação e gesto revelam-me.
Tenho essa
vida para viver, e seria quase traição faltar à entrevista – entrevista
endossada desde a eternidade. Por isso, procuro-a ao amor, em toda a parte onde
sei esperar-me vós.
Tenho fumos
de insigne nas horas de pachorrice. Quem não é de todo pachorra? Releva
observar não recorrer à idéia de antes da melancolia estes fumos de insigne
servirem de máscara, que não admito, sendo mais aconselhável perecer; serviram
de fuga, para não estar de frente com a indigência.
Creio na
harmonia entre os desejos e as relações, dizendo haver superado as
expectativas.
Devia ter
percebido para que porto o coração selvagem se dirigia, e, selvagem, os
sentimentos puros se revelariam, apesar de a sombra ombrear os passos. De que
me valeria a selvajaria, não fosse a presença da sombra a ombrear-me os passos.
Não sei elucidar os contrários e adversidades. Quem sabe o caminho da
consciência seja itinerário a ser seguido para vencer as dificuldades!...
Falo com
paixão. Paixão louca pode justificar quimeras e fantasias deléveis. Não
justifica o mais importante: o erro. Sendo este incontestável, fatos não podem
trapacear. Muitos, não olhando de soslaio e se afastando, fá-lo de longe
indecisos, com hospitalidade de sorriso mesclado de dúvidas e medos.
Quem sabe
realizo algo esperáveis vós veemente, apesar de ser pudico nalguns valores e
virtudes de homens célebres!...
Sei a minha
arte: ininteligível seria supor e desejar não a soubesse, sem ela ser-me-ia
impossível estar falando neste estilo, às avessas, portador de veneno sem
precedentes, os encômios satisfazem a todos os paladares, dependendo dos
achaques e pitis. Não me esqueço do outro lado da moeda.
Melhor haver
menos sentimento nestes colóquios, navegar mais junto às pedras das montanhas,
ao invés de lançar-me a vós cujas condutas são ilibadas. Mas, enfim, posso
afiançar, não apenas com palavras medíocres, ser questão de estilo.
De outro
modo, pareceria entregar-me por curiosidade, talvez por costumes; seria
enfadonha esta dúvida traidora sobre nuvens que cobrem os céus da humanidade,
experiências que edificam as realizações, embora revezes e antemãos. Não me ando
a seduzir há muito. Além de outras coisas...
Não sou
homem quem afasta experiências vividas em detrimento de única, isto movido por
interesses mesquinhos, sentir-me confortável no meio dos homens. Creio a
consciência que se me revelou da profundidade de não me andar a seduzir há
muito explica o passar ontem deprimido, e para conseguir não me entregar ao
torpor, pus-me a jogar paciência com velho baralho encontrado numa das gavetas
na biblioteca do quarto, pequeno móvel em que guardo vinte e sete livros. Seja
então início de outros risos e ouros ao longo do caminho decidi-me trilhar.
Parece-me melhor que paixão desinteressada; aliás, poderia ser internado
nalguma Casa Verde, não acredito.
Seria
ininteligível não revelar o sonho que tive esta noite, ficar-se-ia a criar
hipóteses sobre algo que tenha gerado este conhecimento, e que, em verdade,
tenha dele dúvidas atrozes da veracidade por se encontrar envolvido em
hipocrisias.
Sonhara que
no interior de mim lia algo. As palavras reconheci-as como se constituíssem
canção. Aliás, surpreendi-me, dizendo: “Há uma canção nestas palavras. Há
ritmo, melodia, arranjo”. Não me admira que desta lembrança, difícil de não
perceber e perscrutar perturbações, primeiro clarão da aurora, atravessando os
vidros da janela da alcova, alumiasse o rosto, grave e plácido anterior à calma
antes da tempestade.
Seria até
não assumir o que digo, enquanto cofio o bigode, hábito que adquiri. Não me
admira não tenha dúvidas acerca da veracidade, o que escondem palavras às
avessas, inclusive desde o início, quando poderia haver dito “selvageria”,
dizendo “selvajaria”, e compreendo haver verniz de celebridade no uso.
Fecho os
olhos, e, se o verniz de celebridade torna-me inoportuno, devendo continuar a
falar em voz inaudível com absoluta atenção se alguém não percebe esteja
conversando convosco em minha solidão, amanhã não haverá quem não saiba
converso sozinho, e todas as galhofas far-se-ão notórias, não o deve à vontade,
mas à situação, porque nem todo o engenho de Voltaire pode fazer homem
interessante. Enfim, jamais fui quem haja negligenciado o homem trabalhar sem
raciocinar, é o único modo de tornar a vida suportável.
Sou propenso
que esta fala se fundamenta no lema adotado, desde a mocidade, idade em que os
espíritos jovens são extraordinária vocação para o tabernáculo de imbecis. Por
que me arriscaria a vida insuportável, esquisita? À parte todos os senões,
desde o de que é preciso coragem para ser feliz, e não sou homem corajoso,
aventureiro; aliás, muitas vezes até me pergunto sobre a veracidade da
selvajaria não ser imaginação; desde o de fuga, conduta de má-fé, mais
precisamente falta de responsabilidade com quem represento.
Pareço-me
indiferente aos sentimentos que inspiro – não haveria modo de não sê-lo, pois
que as dúvidas sobre esta fala são traidoras. Se não indiferente, não seriam
dúvidas, mas distúrbio de personalidade - palavras dizem algo, sou diferente
delas. Sendo indiferente aos sentimentos que inspiro, obedeço ao lema não menos
que a disposição do espírito. Sei a fundo a retórica da paixão, não a emprego
sem parcimônia.
Nada
dissimulo, não revelo os desígnios. Deixo transparecer no rosto o que sinto no
coração. Poder-se-ia dizer seja espírito compulsivo, não negligencio. O senão
está justamente que me aproveitei dele com sapiência, sublimei-o. Mas jogo
cartas na mesa sem previsão. Expansivo e discreto, possuo estes contrastes
aparentes, não sendo mais que harmonias de caráter.
Haveria quem
não pensasse, se me estivesse ouvindo, uma consciência assim não daria o troco,
o retorno não seria depressão, momento de fazer inventário, saber o porto a que
me destino. Defeitos nascem de qualidades. Sou crédulo à força de ser
confiante, ríspido com tudo o que me parece fútil. Tenho a imaginação
quimérica, às vezes – a inteligência austera, mas compenso estes defeitos, se o
são, por qualidades sedutoras e raras.
Os olhos
estranhos buscam esconder o segredo. Afianço nada dissimular, não sabia de que
segredo se tratar, visto neste monólogo a distância entre vós e os sentimentos
ser considerável. Acho-me perfeito demais. Que razão haveria para esconder-me
dos olhos dos outros? Não revelar algo não tardaria a ser público? Pode ser que
me engane, mas creio haver imaginação criativa.
Olho-vos,
digamo-lo assim, por baixo das pálpebras.
#RIODEJANEIRO#,
08 DE ABRIL DE 2019#

Comentários
Postar um comentário