#SARTRE, A TOTALIDADE E A MORAL# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: MINI-ENSAIO



Sartre deseja sacudir-nos, e encontra modos de atingir a meta, ainda que, no fim, seja condenado como alguém sempre em busca de escândalos, polêmicas. Os escândalos não são vistos pelos olhos do outro? Um olho manda o outro à merda, a tensão é necessária. É sempre mais simples tachar alguém – digamos, menor esforço – de escandaloso, polêmico, etc., etc., do que pensar com seriedade sobre o que está sendo dito e os propósitos da fala.


O outro ponto, a preocupação com a totalidade é igualmente importante. Sartre insiste em que a beleza da literatura está em seu desejo de ser tudo, de açambarcar o mundo e as coisas, ser testemunho da realidade, das contradições e dialéticas – e não numa busca estéril da beleza. Apenas um todo pode ser belo: os que não conseguem compreender isso – o que quer que tenham dito – não o atacaram em nome da arte, mas em nome de seu compromisso particular.


O modo por que Sartre se torna filósofo moral “malgré lui” fundamenta-se na caracterização do presente como totalidade inerte: um mundo morrendo de velhice, uma época de “revoluções impossíveis”, disseminando e intensificando o sentido de paralisia até mesmo pela consciência de “cataclisma” como única forma viável de mudança.


Como pode a proposição abstrata “um futuro bloqueado continua sendo um futuro” negar efetivamente tal tipo de depressão e de destruição? Apenas se dele se fizer um absoluto categórico que necessariamente transcenda toda temporalidade dada, por mais sufocantemente real que seja. Quem é o sujeito desse “futuro bloqueado”?


Se é o indivíduo, a proposição é óbvio falsa: o futuro bloqueado para o indivíduo está inexoravelmente bloqueado. Por outro lado, se o sujeito é a humanidade, a proposição é absurda: a humanidade não pode ter um “futuro bloqueado”, a não ser bloqueando-o para si sob a forma de suicídio coletivo, caso em que não há futuro, bloqueado ou não – e, neste caso, de fato, nem a humanidade.


Paradoxalmente, o significado existencial (não-tautológico) da proposição produz-se pela fusão do indivíduo com o sujeito coletivo. Seu significado não é, assim, o que literalmente sugere (uma tautologia ou, quando muito, uma banalidade, idiotice), mas o significado funcional de uma negação radical que não pode apontar para forças históricas palpáveis como portadoras de sua verdade e, por isso, deve assumir a forma de imperativo categórico: o dever moral.


Interessante observar é que a tradição histórica da moral é constituída ao longo do processo histórico da humanidade. A partir da pedra basilar do existencialismo, “a existência precede a essência”, o pro-jeto projeta o futuro, a moral.


A filosofia moral está implícita em todos os seus estudos, como ponto de vista positivo do futuro, que assume a forma de negação radical, embora incapaz de identificar-se com um sujeito histórico. Este conceito leva-nos de imediato à pedra angular da filosofia sartreana: a existência preceder a essência, fundamentando-a.


No sentido de expressar sua filosofia moral latente de forma plenamente desenvolvida, coisa que procura fazer seguidas vezes, teria de modificar substancialmente a estrutura de sua filosofia como um todo, inclusive a função, dentro dela, do dever moral categórico. Essa modificação, porém, deslocaria exatamente o dever moral na estrutura de seu pensamento.

#RIODEJANEIRO#, 07 DE ABRIL DE 2019#

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