**UM RIO DE ÁGUAS LÍMPIDAS - COMENTÁRIO DO LIVRO /**GRITO ANTIGO**/, DE PAULO URSINE KRETTLI, 1983 - Manoel Ferreira
Sento-me à beira de um rio. A água desce suave e
levemente. Para onde irá esta água? Corre infinitamente rumo ao mar, onde
encontrará o seu azul, chocará com as docas; deixará, nalguns buraquinhos,
águas. Que, do lado de cá, olhar para o mar, lembrar-se-á deste rio, de sua
água passando meiga e docilmente, deixando, no seu coração, a gênese de todo
mistério e enigma, o amor. Verá o mar encontrando com o céu, o infinito azul do
céu. Lembrar-se-á deste rio que se angustiou, desesperou-se nas suas noites claras
e/ou infinitamente escuras, a tecer ou crochetear o seu único anseio logo ao
chegar da manhã; deixar nos corações, de quem se propõe a sentar-se à sua
beira, os eidos do entendimento e compreensão dos homens e do mundo,
incluindo-se aí o amor e a profunda afeição por uma descoberta juntos. O rio
segue a sua trajetória rumo ao mar, ao pleno, ao absoluto, ao infinito. Uma
trajetória imensamente solitária; de noites claras, em que a angústia do tecer
e do crochetear coloca-lhe frente a frente com o brilho destilado e engolfado
dos homens solitários e tristes, que flanam pelas ruas não menos solitárias e
tristes; o asfalto dorme o seu sono irrequieto.
As janelas abertas. A noite, áspera em sua
superfície, mergulha no abismo de um “Grito Antigo”. Mas este rio nunca cessa a
sua trajetória solitária. Alguns homens já se levantaram de sua beirada. Ao
sentar-me aqui, trouxe comigo a humanidade. Não tinha a intenção de nada lhe
dizer. Tive a intenção de mostrar-lhe este rio que corre em direção ao mar. Os
que se levantaram, prosseguindo a sua caminhada, compreenderam todo o mistério
da existência. O rio deixou, no âmago de seus corações, o amor. O rio segue de
cabeça baixa e feliz, uma felicidade enorme no peito. Conseguiu a sua intenção.
Muitos homens permanecerão um longo tempo à beira deste rio. Um tempo
incomensurável.
Suas águas são límpidas e claras. Há pedrinhas
brilhantes em seu fundo. Peixinhos perambulam e nada na limpidez e claridade
destas águas serenas. O estilo... Que belo estilo o destas águas e são águas
que não entrechocam e contradizem! Deslizam humanamente à retina de meus olhos
castanhos e sofridos. A humanidade, no peito, aflora espontaneamente. Sofreu,
angustiou-se, desesperou-se. Nenhuma esperança para ela após as guerras.
Futuro-presente-passado. O mundo engolfou-se em si mesmo. A humanidade, nua.
Quer sentir agora o estilo destas águas límpidas, retirar de seu fundo o amor e
a esperança, elementos fundamentais para o prosseguimento da sensibilidade,
prosseguimento da existência. As mãos do rio são vazias. Estarão, para a
eternidade, a segurar e apoiar as suas mãos frágeis, que, nalgum sítio, estarão
mais limpas e não serão mais vazias.
Os meus olhos piscam. Alguns dedos seguraram, mas
as emoções foram imensas. Uma lágrima escorre em meu rosto. A lágrima do
conteúdo consciente. A consciência aflora. Sofro. Um sofrimento de um sibilo de
vento entre serras: a humanidade sofre. O homem é a síntese: indivíduo e
humanidade. O indivíduo caminha solitário. A humanidade segue seus passos.
Nalgum sítio estaremos todos juntos, após “Grito Antigo”. Diremos todos: sou
eu. E ninguém mais se angustiará com a peremptória perquirição: “Quem sou Eu?”
O céu será de todos. Na terra, nenhum exílio. Caminharemos rumo ao mar, ao
pleno, ao absoluto.
E quem é este rio de águas límpidas? É Paulo Ursine
Krettli. E o amor, quem é? É “Grito Antigo”. Um amor que atravessa a existência
de um extremo ao outro. Uma consciência que a claridade destilada do mundo não
esquecerá por toda a eternidade.
Levanto-me da beira deste rio de águas límpidas.
Sigo em direção ao pleno.
Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 02 de dezembro de 2016)

Fique registrado. Em 1979, entre-laçamos as mãos, Paulo Ursine Krettli, amigo e colega da Faculdade de letras, publicando uma Antologia de Contos, intitulada, CONT.ANDO, cada um de nós publicou seus cinco primeiros contos. Em 1983, quatro anos após, Paulo Ursine Krettli encontrou-me numa cantina de lanches ao lado da Faculdade de História e Economia da Universidade Católica de Minas Gerais, com o seu livro GRITO ANTIGO, original, pedindo que fizesse um comentário. Disse-lhe: "Não tenho nenhuma veia de crítico literário. Procure alguém que tenha veia e faça comentário à sua altura". Não aceitou, insistiu demais para eu realizar o pedido. Aceitei a empreitada por diplomacia. Li alguns poemas e escrevi, sentado na mesa do lado de fora da cantina, era por volta das dez horas da manhã, o tempo estava nublado. Entregara ao Paulo Ursine Krettli o original escrito numa agenda, copiasse-a, retornou-me a agenda no outro dia. O projeto da publicação neste ano de 1983 não dera certo, mas em 1988 Paulo Ursine Krettli publicou o livro. Lendo, hoje, este comentário de GRITO ANTIGO, o primeiro comentário crítico meu publicado em livro, dado continuidade ao trabalho crítico, já comentei livros de contos, de poesias, comentário de livro de teologia de braços dados com a psicologia, prefácios de obras memorialísticas, os dois primeiros livros de Maria Fernandes foram prefaciados por mim. Tem muito valor para mim este Comentário, e fora muito bem escrito para aquela época, prenunciou a minha carreira de crítico.
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