**CARTA À HUMANIDADE - ÚLTIMA PARTE** - Manoel Ferreira


Pedra Branca, 18 de julho...



À humanidade,
Rua do Desterro, s/nº
Mundo Inteiro



A missiva é isso também: tempo do aparente não ser e do ser aparecer. As palavras atuam nesse sentido, têm essa função, a de des-velamento, se assim podeis compreender com distinção e engenhosidade.
Se a intenção primordial é sermos único, vos sois eu e eu sou vós, creio não haver problema se comungarmos o silêncio, e daí se anunciando as letras de paixão e desejos.
Poderia iniciar a sua missiva com essas coisas que lhe surgiram na mente, um bom início, seria preciso apenas saber colocar na folha de papel branca, de modo a identificar o que lhe perpassa o íntimo, o que enfim necessita dizer para que seja possível a libertação de seus estados de espírito. Não é suficiente ter a idéia, é necessário saber trabalhá-la, e é isso que não sabe.
Posso garantir que ficará por longos minutos à cata de única palavra que inicie, e só depois de enervar-se é que escreve a primeira. Continuar. No máximo, conseguirá dois parágrafos. Assim mesmo terá sérias dúvidas se há correção gramatical nas suas frases pequenas, há muito que não pesquisa a gramática para aprender alguma coisa, na escola em termos de Língua Portuguesa só tirava o mínimo para ser aprovado. Por que não sabe escrever? Não. Porque não sabe exteriorizar suas dores e sofrimentos.
Quem não conhece o que lhe habita o silêncio, na profundeza das águas, não saberá escrever para ninguém senão o trivial. E de trivialidades estamos mesmo preenchidos até a alma, e dela não saímos. Se conhecer poucochinho que seja, será capaz de mostrar a poesia de seus desejos e vontades, e aí haver interesse em ler o que está realmente escrito, apesar de que a linguagem e estilo importam e muito.
Não diria finalizando, por estar iniciando, mas chegando ao ponto exclusivo disso, haver-me decidido escrever-vos essa missiva, fora importante descobrir que a intenção verdadeira seria: escrevendo, sou-vos e vós sois eu. Difícil... Dirigir-me à humanidade, essa é a reunião de todos os homens, é uma idéia sobremodo abstrata; dirigir-me aos homens, e todos, cada um por si, às vezes ao mesmo tempo, discutindo, opondo, não concordando, endossando. Nossa... Difícil. Inda mais que o desejo é dirigir-me a vós, em primeira instância, e só depois aos homens, vice-versa, até quando não puder distinguir mais ninguém, ouvindo as vozes de todos nos meus ouvidos, aquela conversa agradável, eu no centro, sou eu a dirigir-vos, sois vós a dirigir-me. As luzes da ribalta incidindo sobre mim. Que espetáculo glamoroso!...
Sim... Já havia pensado que haverá momentos que, se alguém lesse, os leitores, iria sentir que não estava sendo você a dizer as coisas, sim nós, e você, com certeza, estivera pensando que não poderia haver isso a todo momento. As nossas vozes se confundem no corpo da missiva, e quem ler terá de estar muito atento para construir a mensagem aos homens que desejamos passar. Aliás, Ilíade Adriano, você admira bastante a linguagem e estilo dúbios, gerando ambigüidade nas idéias e pensamentos, e muitos leitores irão ter certas dificuldades de leitura, o que mesmo queria você dizer. Estamos lhe lembrando isso para que se conscientiza e seja feliz nas suas visões, idéias que nos quer dirigir, deixando-nos pensativos. “Quem sabe não tenha sido Ilíade Adriano quem recebera a missiva da humanidade? É possível”. Uma viagem...
Que ousadia! Meu Deus, que ousadia!...
Devo confessar-vos que uma espada de dor trespassou meu coração – creio que devido a imaginar se não soubesse exteriorizar os meus, nas entrelinhas e além-linhas reconhecer de que posso me servir para atingir essa ou aquela realidade na vida, posso ver nelas a felicidade que as habita, e que são frutos de minhas experiências e vivências. Foi terrível, nunca imaginei que fosse possível sentir algo assim; terrível, terrível... Eu, que sempre ri do profeta Galileu, de repente, entendi tudo o que ele quis dizer e tudo se resume a única frase: minha alma está triste até a morte. Sim, a dor que senti foi assim, como a morte, foi a morte.
Se é difícil, por que pensar em fazê-lo? Pensar assim interfere na espontaneidade da anunciação e revelação do que deseja sentir e expressar. Não acha que seria melhor levar as palavras, as letras ao som do ritmo de “blues”, especialmente cantado e interpretado por B. B. King? Levar os sons, os símbolos no ritmo do Jazz.
Pode ser que, se deixar amadurecerem as idéias, sentimentos e emoções que lhe perpassam a alma, o que deseja tanto dizer-nos, não seja mais tão difícil quanto está a dizer-nos. Isso é porque não está preparado, necessita de algumas outras experiências que revelem as verdadeiras intenções e propósitos. Aconselhamo-lo a esperar um pouco mais. Sua missiva será escrita num só fôlego – e, ao chegar ao final, assustar-se-á, dizendo: “Não acredito que fora tão fácil; consegui o que almejava”. Terá a convicção de que estivera escrita fazia longo tempo, só restava registrá-la. A missiva nasceu pronta e acabada.
Conhecendo-lhe como o fazemos, sabemos que não irá esperar o tempo revelar as coisas para você, prefere escrever diante de todas as dificuldades, assim se sentirá orgulhoso pela luta e tentativa, a persistência e insistência são a chave-mestra das grandes realizações. Admiramos isso em você. Continue. Ao longo dos dias, irá percebendo os obstáculos serem vencidos.
Há uma lenda de um jornalista e um escritor. O primeiro lera certa obra e de repente tornou-lhe escritor renomado. Todas as vezes que o escritor lhe colocava o livro em mãos, tendo lido, perguntava-lhe: “É obra-prima...”. O outro respondia: “Já disse... Vou ficar como um crítico sem crédito. Se eu digo que é, você escreve outro e supera, como eu vou ficar nessa história...”. Risível. É uma lenda apenas: para mostrar-lhe o que é isso o desejo, vontade, perseverança de estar sempre superando as dificuldades, problemas, caminhando rumo à sublimidade. Isso é o mais importante.
Sim... Conversar é uma coisa, escrever é outra. Não estou interessado em escrever uma obra artística, romance, novela, crônica, etc., etc. Contudo, é intenção primordial que me expresse, diga o que me perpassa a alma, o espírito, o que me transcende, identificar-me sem peias, algemas, correntes, amarras, quem sou e represento no mundo, na existência.
Em verdade, estou deprimido e só vós podeis compreender o que se passa comigo, dizendo-vos as razões de o estado de espírito se encontrar desse modo. Apesar de que saiba que, deprimido, angustiado, triste, magoado, e tantos outros estados de espírito, toda a tentativa de ser cínico e irônico torna-se vã, sai pela “culatra”, como se tem costume dizer. Não posso deixar de lado isso do cinismo e ironia por serem características primordiais de minha alma sedenta da verdade, da sublimidade. Se não vos dissesse, seria que podíeis sabê-lo melhor que eu? – nesse futuro do pretérito “seria” há sim uma dúvida de que sejais capaz de responder-me, em verdade, nada saberia disso. É bom real-izar, ninguém melhor que eu para me conhecer, se é que estou disposto a ouvir os silêncios sinuosos, a trilha de ansiedades, medos, angústias, desejos e vontades, encontros e desencontros, e poder dizer a alguém: “Importa é que vivi tudo aquilo; não o fosse, quem seria eu agora e aqui?”.
Os recursos de que disponho para vos escreverdes voltam-se todos para as lutas de sentimentos, para as paixões que destroem e aniquilam, para as revoltas que sufocam e transbordam, para os amores, os ódios, as invejas, os ciúmes que parecem captar e conter a essência mesma da vida.
Complicado explicar isso; contudo, digo-vos que penso a liberdade aí habitar: quando o homem toma a sua vida em mãos, isto é, assume o passado e o presente, projetando o futuro – fez o que pôde para evitar certos problemas, solucionar outros, não tendo sido possível, mas o que seria do homem, de mim, de toda gente, se não fossem as coisas passadas. Cumpre sabê-las primeiro, caso contrário, não se é possível mergulhar fundo na liberdade e arrancá-la de dentro, sê-la – se é que podeis compreender e entender isso em profundidade. Não perderá por esperar:
“Vim aqui só pra dizer/Ninguém há de me calar/Se alguém tem que morrer/Que seja pra melhorar/Tanta vida pra viver/Tanta vida se acabar/Com tanto pra se fazer/Com tanto pra se salvar/Você que não me entendeu/Não perde por esperar... Lá-rá-lá-lá-rá-lá”.



Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 05 de dezembro de 2016)


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