**NINHO DE BEIJA-FLOR** - Manoel Ferreira
Dona Margaridinha apareceu depois de uns quarenta e
cinco minutos.
- Bom dia, doutor! – voz baixa, suave e serena.
- Bom dia, D. Margaridinha!
- Demoro para tomar banho e me arrumar, doutor! Fiz
o senhor esperar. Desculpe.
- Não tem problema, dona Margaridinha.
Magrinha, magrinha.
A pele seca, enrugada e sem brilho. As pernas com
hematomas, não podia encostá-las no que quer que fosse. A cabeça parecia um
ninho de beija-flor. Branca, muito branca. O porte mostrava acentuada
curvatura. Pudera! Noventa anos! Os últimos anos haviam sido bem monótonos; já
não saia, não ia à missa, alguém levava a sua comunhão todos os domingos às
sete horas, não caminhava pelo quintal, ficava sentada à mesa da área da
cozinha, tricotando, fazendo crochê, consertando alguma roupa de sua filha de
criação, Corina, único filho, Lucas Tadeu, por quem tinha amor, carinho,
dedicação ilimitados. As duas filhas legítimas já haviam falecido, os netos
residiam na capital, muito dificilmente visitavam a avó. Dona Margaridinha se
desinteressara pela vida.
- A senhora precisa sair lá fora um pouco. Dizem
que não quer mais sair. É preciso tomar um solzinho, ver o céu aberto – às
vezes, ficava sentada no banquinho à porta da casa, esperando o leiteiro
chegar, rezando o terço, nos seus livrinhos de orações.
- Não vale a pena, seu doutor! – suspirou ela – Vou
morrer aqui dentro.
- Dona Margaridinha, vou enfaixar as pernas da
senhora para não se machucar, encostando-se às coisas. A senhora vai fazer uns
exames de urina.
As obras da “AVENIDA INTEGRAÇÃO” prosseguiam com
rapidez alucinante. Várias máquinas e caminhões trabalhando num redemoinho de
terra e pó, dia e noite. Deixava-se entrever, no rastro dos tratores, a pista,
o canteiro central. Apenas uma casinha rodeada de árvores como um oásis no meio
da terra vermelha revolvida. Ali uma família resistia ao progresso: Dona
Josefina, noventa anos, sua filha de criação e neto.
Todas tinham vindo para ali, havia mais de
cinqüenta anos, quando aquilo era um fim-de-mundo, a estrada de ferro passava à
porta da casa, não parecia ser centro da cidade. Compraram a casa por quarenta
e cinco mil réis, um amigo, seu Siloca, emprestara a quantia. Dona Margaridinha,
a mãe, três irmãs. Mariinha e Matilde eram costureiras, Dona Margaridinha e
Marília eram tecelãs. Veio a família para que Dona Margaridinha e Marília
trabalhassem na fábrica têxtil. Quando o comboio passava, sacudia as paredes e
o teto, fazendo tremer as telhas francesas. “A princípio foi penoso acordar no
meio da noite, com a passagem do trem. Depois a gente se acostumou. Era até
divertido (diziam as irmãs); marcava a hora ritmando a vida da gente: ´- íamos
trabalhar na fábrica às quatro horas, depois do trem passar; voltávamos à uma e
meia, depois de o “Expresso” do meio dia passar. E assim a vida da gente
emparelhou com a vida do trem. Antigamente a “maria-fumaça” era mais divertida:
apitava estridente, cuspia fogo e vomitava vapor, colorindo o ar de branco, às
vezes de negro: tcha! tchá! tchá!... Café com pão, manteiga não!...”
Dona Margaridinha recordava com emoção os tempos
idos da “maria-fumaça”, do Expresso. Agradecia a Deus por nada haver acontecido
com elas. Todas antes de morrer ficaram quase surdas, todos os dias
atravessavam a linha para irem fazer compras na Praça do Mercado. Dona
Margaridinha ouve muito pouco. Depois de muitos anos e desejos de toda a
comunidade de ser tirada a linha do centro da cidade, o sonho está se
realizando. A avenida vai ligar o bairro Maria Amália e a Vila de Lourdes, uns
dez quilômetro de extensão.
Depois, comprimiu a testa com os dedos,
considerando: “Agora vão nos tomar a casa, o quintal e tudo. Não vou sair
daqui, vivi aqui quase a vida inteira, sessenta e cinco anos”.
- Não, dona Margaridinha... Não vão tomar a casa da
senhora. A casa da senhora é do lado. Não prejudica em nada a construção da
avenida. Aliás, construída, vai ficar uma maravilha. Serão plantadas árvores no
canteiro. A casa da senhora vai valer muito. Uma casa muito boa.
- O senhor tem certeza, doutor?
- Tenho sim, dona Margaridinha! Não se preocupe com
isso.
- O triste é que não temos para onde ir. Esta casa
compramos com sacrifício. O quintal era enorme. Vendemos um lote. Matilde dera
outro para a sua afilhada de batismo. Antes, era enorme, todo arborizado. Foram
prestações e mais prestações, todo mês levadas na mão do seu Siloca. A gente é
pobre, não entende, só confia.
Fora a última conversa que tivera com o doutor.
Dois dias depois de sua visita, o problema renal piorou, foi internada para
fazer exames. Estava triste, desconsolada, deprimida. Muito velhinha, os netos
não a visitavam com freqüência, a filha de criação não tinha tantos cuidados
com ela, passava muitas dificuldades, faltava-lhe alimentação adequada. Uma
sobrinha, filha de seu único irmão, é que, vindo à cidade, reside na capital,
comprava-lhe banana, maça, laranja, cocada e pé-de-moleque de que tanto
gostava. Certa vez, Amália ligou para saber como estava passando, teve mais um
problema renal, Margaridinha pediu-lhe que trouxesse para ela bolo, biscoito,
algum doce, estava com tanta vontade de comer estas coisas. Era aposentada, um
salário apenas dava para comprar os seus remédios, pagar a pensão à filha de
criação. Os netos não ajudavam em nada.
Três dias depois, falecera às quatro horas da
manhã, dormindo. Às seis, quando a enfermeira foi ao seu leito para cuidar
dela, estava morta. O coração de Dona Margaridinha já não se emociona com a
idéia de sair do seu chão. A sete palmos da terra, os tratores já não perturbam
o seu sono. Já não sente mais a falta de suas irmãs, já não tem mais desejos de
comer isto e aquilo.
A sua filha de criação, que tinha problemas de
coração, pressão muito alta, não agüentou a saudade. Amuou dia após dia,
apanhou uma tosse que não teve jeito. Só parou numa madrugada de chuva muito
forte, quando partiu para fazer companhia à sua mãe embaixo do chão.
Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 01 de novembro de 2016)

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