Graça Fontis ARTISTA-PLÁSTICA(PINTORA) E POETISA COMENTA /**CARTA À HUMANIDADE**/


Maravilhoso texto. .. de tirar o fôlego e transcendem emoções a... imaginação, que bom estar aqui fazendo parte da humanidade por quanto receber com orgulho essa missiva!!! Aplausos sempre...



Graça Fontis



Em verdade, em verdade, este texto fora escrito na noite de Natal de 2013, sozinho na Biblioteca, angustiado, aborrecido, entristecido. Imaginei naquela noite todas as pessoas, a humanidade, comemorando o Natal, alegrias, risos, sorrisos, felicidades, abraços, ceando. Escrevi a Carta à Humanidade. Aliás, no momento que escrevemos, realizamos alguma Arte, pintamos, sentimos ao nosso redor a humanidade, por isto sempre penso que nada escrevo, a humanidade se serve de mim para se expressar. Estivemos juntos, bem juntos. A noite de Natal passou esplendida. A manhã chegou. Senti-me bem. Beijos, meu amorzinho amado.



**CARTA À HUMANIDADE**



Pedra Branca, 18 de julho...



À humanidade,
Rua do Desterro, s/nº
Mundo Inteiro



Dirigir-vos a palavra: não é tão fácil quanto alguém possa imaginar!... Se imaginar, só fazê-lo: verbalmente, sentir-se-á falando com o vento, se escrito, haverá o instante em que as palavras não se re-velarão.
Quem não gostaria de vos dirigir as palavras, confessando pecados e pecadilhos, tramóias e sandices, tripúdios e culpas, chantagens e remorsos, ter vendido a alma a Mefistófeles, saído da Igreja Católica, enchafurdado num templo crente, orado com fervor para ganhar um caldeirão no inferno, os momentos felizes e tristes que tivera em vida, até o momento que começou de desejar essa conversa? Muitas vezes para se sentir importante, tentou dirigir-vos a palavra numa cartinha. Olhe que alguns, apesar dos pesares, souberam dizer qualquer coisa, os prazeres e alegrias que sentiram com amigos íntimos, pessoais, quem realmente amaram na vida, desejaram estar ao seu lado. Não há quem não tenha imaginado, desejado, tentado, conseguido. Servindo-se da fala – sozinho no seu canto, o medo do sentimento de vergonha de ser tachado louco, doido, varrido. Servindo-se das letras, através de missiva, sem dúvida escondida dos familiares, o maior amigo não sabendo; através de romances, novelas, contos, poemas... Todos nós os homens desejamos nos dirigir à humanidade.
Os caminhos foram muito diferentes?!
Posso garantir-vos que muitos tentaram dizer-vos algo, as palavras faltaram ou começaram a dizer-vos, mas sentiram que era inútil, não sentia ninguém ouvindo senão ele(ela). Acharam fácil, mais fácil até que se aproximar de alguém, mas não conseguiram fazê-lo. Estava falando consigo mesmo e era o que menos desejava, queria ver-se o mais distante de si, não queria ouvir a própria palavra. Pensastes o que é isto alguém não querer mais ouvir a própria palavra? Meu Deus! O que é isto, a humanidade? Tinham de deixar disso de vos dizer algo, se houver quem o saiba serão objetos de chacota, conversar com a humanidade, só mesmo na cabeça de insano isso é possível. Rides. Mas não é verdade? Ou não? Não estou sabendo de muitas transformações e mudanças. São considerados, os que vos dirige a palavra, gênios, homens de grandes virtudes, os monstros sagrados. Realmente está diferente hoje, na minha época não era assim.
Desistiram do desejo, perguntando para que isso de conversar com a humanidade, dirigir-vos a palavra, o que poderá ganhar com isso é nada. Não se vive de nada. O maior sofrimento se anuncia: será que tenho algo a dizer? Será que serei ouvido, aclamado, reconhecido por isso? Nada. Isso é o que não queria se tornar.
Deus meu!... É muito difícil dizer-vos qualquer palavra, aproximar-me de vós, diria até ser complexo e complicado olhar-vos de esguelha – rides, olhar-vos de esguelha, o que vem nessas letras, não é mesmo? -, e eu, extasiado com a anunciação de uma luz no subterrâneo das almas, dirijo-vos essas palavras, registradas na folha branca de papel, o que diria senão um dedo de prosa nascido de nossas conversas, nossos diálogos ao longo de tantos anos.
Alguns acreditaram que lhes fosse possível dirigir-vos algumas palavras, não iniciando com aqueles patrimônios da humanidade, “Como vai? Tudo bem?”, e entrando no assunto que é o mais importante, sem devaneios. “A minha vida está uma coisa de louco. Queria conversar com todos os homens, ver o que pensam de tudo. Peço que todos se unam e rezem por mim, quem sabe Deus possa ouvir”. Escreve muito bem até. O que de imediato disse na “lata”, revelou, anunciou, manifestou? Está angustiado, desesperado, fracassado, triste, abandonado, exilado, ressentido, magoado... – meu Deus, a relação não teria fim; está nas últimas de sua vida, quer que alguém o salve, que a humanidade lhe dê a mão para se levantar. E só. Não continuam, e se continuam são os primeiros a reconhecer que foram asnices que escreveram na folha branca de papel.
Não terei tanta pré-ocupação de saber se, em verdade, estais entendendo as trilhas por onde ando, passo a passo, em busca da vida. Aliás, isso é importante, pois que posso desenvolver o que intenciono fazer com mais espontaneidade – sabeis daquelas situações em que alguém gasta mais o tempo em explicar do que consegue dizer realmente? Compreendestes com perfeição, cabe-me ir além de vossa perfeição, preenchendo os desejos e vontades de expressão, revelar-me, por que decido, noutras dimensões do espírito, escrever-vos essa missiva.
Admito, então, que seja fácil escrever-vos, dirigir-vos a palavra. O alguém seja eu próprio, que resolvera fazê-lo, embora a experiência de conversarmos desde a infância. No fundo, reconheço os limites, e quero transcendê-los, quero sentir-me-sendo as palavras. Desde a tenra infância, ouvi de todos que o homem para ser homem tinha de plantar uma árvore, ter um filho, escrever um livro, de preferência poesia. Se me perguntasse o que é preciso para se tornar homem, diria com empáfia: transcender tudo isso. Não estais errada nesse aspecto, e desde já vos parabenizo pela intuição e percepção de meus desejos mais escondidos.
Imaginemos alguém, num sábado, à hora do crepúsculo, após o banho, no seu quarto, sentindo-se sozinho, angustiado, triste, aborrecido, deprimido, resolve escrever para alguém de suas relações, não residente em sua cidade – se residisse na mesma, mais fácil seria ir à casa dele ou dela, abrindo-se, confessando-se; ouviria alguns conselhos a serem colocados em prática, caber-lhe-ia apenas selecionar os que dariam maiores e melhores resultados no restabelecimento da angústia e depressão -, falando de sua vida, seus temores e sonhos...
Pigarreia. Olha em volta de si, examina seu quarto onde não há livros nem quadros. Levanta-se com um gemido, caminha até a cama, deita-se sob as cobertas, que, apesar de muito velhas, estão limpinhas e cheiram bem. Uma paz sem medidas. Laços frágeis que pareciam correntes eternas soltaram-se.
Há vinte anos ele havia escrito no alto daquela folha: O QUARTO e nunca mais conseguira escrever uma só palavra. Ele olha pela janela, da cama mesmo, deitado. Há neblina no céu, há neblina nos seus olhos. Duas escamas caem de seus olhos, a neblina do céu se esgarça e ele vê a estrela. Ah, esperou por ela tanto tempo!... Desejou-a com toda a força do espírito. Ela aproxima-se cada vez mais. É linda, linda, com os seus olhos de fogo. Deita-se ao seu lado, nua, quentinha, sorriso que só especialista pode ver. Agora ele está nela e ela está nele e nenhum dos dois nunca mais vai morrer.
Pura poesia. Estar deitado na cama, janela aberta, a lua se projetando no peito, a claridade, a noite. E usei dessa poesia – a poiesis me habita, digo-vos desde já para que vos inteireis de mim por inteiro, e, ademais, se não sabeis o que é isso “poiesis”, é tempo de vos inteirar, pesquisando a arte grega, os filósofos gregos. Então, aquilo de se conselho fosse bom não seria dado, e sim vendido, é real: aconselhar-vos a ler e pesquisar a arte grega não é bom, só mesmo o pior inimigo pode fazer isso. Os tempos mudaram e a noite custa a passar.
Sim... Mostrais com engenhosidade que estais atenta a todas as dimensões da vida, estejam presentes e fortes na alma e no espírito, e desejais mesmo saber o que nesses longos anos de nossas relações consegui acolher e recolher no íntimo, abrindo-me à plenitude, à amplitude, se é que vós podeis traduzir essas palavras, pois que eu fui tomado por um alvoroço no íntimo que precisava afastar-lhe para continuar a vos dirigir as palavras, devido a isso o disse com tanta ansiedade, num fluxo de inconsciência e consciência exacerbado, e no meio do pensamento senti que havia perdido o chão sob os pés, mergulhando, saindo, ofegante, as palavras na ponta da língua, conseguindo segurar-lhes pelas tangentes. O que isso importa?!
Escrevendo-vos essa missiva sentir-me-ia estar em vós e vós estais em mim, e nenhum de nós dois nunca mais vai ser esquecido na história, falar de vós suscita a minha lembrança, falar de mim exige a vossa presença que é quem pode com categoria apresentar-me como mereço. A sede e fome de eternidade poderiam ser realizadas a partir do instante em que tomasse da pena e vos escrevêsseis uma missiva; sirvo-me de vós para realizar os sonhos que acreditei não ser possível caso assim não fosse? Por que não assumir isso?
Contudo, creio ser-vos imprescindível considerar que não pensara em nada disso que estais a questionar-me; escrever-vos, desde que iniciei, não é outra coisa senão registrar o que aprendi, des-aprendi, o que segui ou não com os ensinamentos que recebi, e sobretudo ter o testemunho em termos de experiência e vivência de haver mantido colóquios convosco desde a infância. O que estais apresentando como questionamento e indagações, percucientes, não tenho dúvidas, mas são considerações que pretendia ir trabalhando nessa missiva, mas vós já o adiantais, deixando eu como um intróito à margem.
Quem sabe um artista quem sente o que é isto intróito à margem possa revelar que nessa missiva que vos dirijo, neste início palavras que prometem, o importante é o que transcendem a esse momento e instante, dão asas à emoção. O artista seria se realmente reconhecesse os seus dons, talentos, privilégios a si doados gratuitamente, e que ele tornou isso uma busca de entender e compreender os caminhos do homem, do eu, da humanidade...



Manoel Ferreira Neto
(**RIO DE JANEIRO**, 05 de dezembro de 2016)


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