**ONDAS DA IMAGINAÇÃO DES-VAIRADA** -TÍTULO: Graça Fontis/Manoel Ferreira Neto/AFORISMO: Manoel Ferreira Neto
A paz do coração posta em desvio
O gosto em desenganos sufocado,
Lágrimas com lembranças desafio,
E pela tarda Morte às vezes brado:
Tão maviosos são meus ais mesquinhos,
Tanto pode a paixão que em mim suspira,
Que se esquecem das mães os cordeirinhos:
O vento não se mexe, nem respira;
Deixam de namorar-se os passarinhos,
Para me ouvir chorar ao som da lira.
Quantas vezes o olhar implacável do artista se detém, subitamente
desarmado, numa criança suja ou papoula tola, no ápice gelado de uma
elucubração absolutamente cética, o pensamento se corporifica como nó na
garganta e transborda, liquefeito em lágrimas. A história de meu corpo é de
afetos represados. Sepulto vivo, quem é a outrem dado, e quem ao outrem que há
em si, sepulto, não poderei Senhor, alguma vez, qualquer rumorejo de vento no
arvoredo, brilho incerto sobre o rio, acordar de repente o “sentimento-raiz”,
recalcado, mas formidavelmente vivo: “Quem me entalou estas lágrimas nos
interstícios do coração?!”
Do antiqüíssimo de mim, onde têm raiz todas as rosas de maravilha, cujos
odores são esperanças que amo, porque as sei fora de relação com o que há na
vida, uma vontade estranha, oculta, e deliberada de verter lágrimas quentes e
fáceis, talvez porque a alma é infinita e a vida, finita.
A compaixão surge na existência contínua, cíclica, com grandes fontes de
alegria como a misericórdia, o que desejo é que iluminai a todos como tendes
iluminado a mim, e deito tranqüilo e sereno, sabendo que vós estais a meu lado
a todo instante.
Esta antiga angústia que trago há milênios no coração, transbordou da
taça em lágrimas, imaginações férteis, desejos de mostrar o íntimo, mesmo com
todas as dificuldades, carências. E, no entanto, na lua que esplende no céu, no
sol que incide sobre o vale, um indício fala no limiar das origens.
Ainda que o perdão não seja a resposta, é possível encontrar paz.
(**RIO DE JANEIRO**, 06 de dezembro de 2016)

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