SONHA O HOMEM O VALE DO HOMEM# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
O mundo, valer não vale. O valor se constitui,
institui, é artificiado através das lutas, decisões, ações, atitudes no
decorrer do tempo, sobretudo na liberdade de in-vestigações e criações.
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A sombra no vale baixa, a vida baixa. Se sobe algum
som deste declive, habitando-lhe ritmo, melodia, acorde, não é grito de
vaqueiro reunindo no entardecer o gado, a fim de levar-lhe ao curral. Não é
gaita harmônica, não é cântico de sensível des-encontro. Não é canto de coruja,
voz noturna de querença de saber, sabedoria, conhecimento. Não é ganido de
cadelas esquecidas de morder como abstratas ao brilho da lua, cintilância das
estrelas. Não é isto, nem nada.
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O som precede a música, o que resta das decepções,
das frustrações, dos fracassos, o que sobe dos des-encontros e dos encontros
furtivos, das miragens que se condensam, das visões que se acumulam ou que se
eterizam na pres-ent-ificação do efêmero, noutros nonsenses absurdos,
figurações destituídas de sentidos, significados.
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O mundo não tem sentido. O mundo e suas baladas
estão emudecidos de sinal, e a fala que ouvimos de uma sala de visita à
biblioteca, ouvimos num instante, num só instante, em certo momento é silêncio
que faz eco, que ecoa, e que no recolhimento que recolhe volta a ser silêncio
na escuridão circundante, no negrume ad-jacente. Silêncio: que quer dizer?
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Usemos palavras. Façamos idéias. Que desejam as
palavras? Que querem a balada, a canção? Erguerem-se em imagens sobre os
abismos, nascerem-se em a-nunciações nos bosques. E de que tem vontade o homem?
Salvar-se ao emudecimento, mergulhar-se no silêncio que fala, ser a fala do
silêncio, abrir-se às re-velações das travessias do nada à solidão do ser, do
vazio ao verbo do "Eu", fundir-se à passagem do tempo, engolir o mar
que lhe engole, comer as coisas com os olhos que lhe comem, brotar a folha que
se brota.
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Sonha o homem o vale do homem.
#riodejaneiro#, 15 de outubro de 2019#

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