O POETA E OS VAZIOS - A ESTÉTICA DO MÚLTIPLO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: FILOSOFIA
A viagem ec-siste, mas se efetua, efetiva de modo
sofrido, des-gastando o próprio veículo que trans-porta e é trans-portado.
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Vimos anteriormente a viagem do nada ao vazio. A
crítica literária, Ana Júlia Machado, diz-nos "é preciso aconselhar toda
uma criação a transitar os rastos mais longínquos da linguagem, daquela
linguagem que, em distintos tempos, era unívoca de bem reputar-se..."
Considerando este excerto, mister e sine qua non toda intuição e inspiração para
descer ao nada, captando, re-colhendo dimensões sensíveis que lhe habita, os
efêmeros conciliados esvaecem-se, não apenas no tempo, o que resta a ser
vivido, vivenciado, dimensões que na subida do nada ao mundo das algazarras,
falácias, sente as a-nunciações do vazio, e eis o mundo a ser preenchido,
analisando, só o vazio pode acolher o múltiplo. O Nada e a Arte Literária. O
tempo é uma viagem em vida e a vida é uma viagem através do tempo. A criação
necessita transitar os rastos mais longínguos da travessia do nada ao vazio,
investigar-lhe a realidade própria da narrativa, à parte da realidade externa
de quem sente o instante-limite desta trans-formação...
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Vida-viagem-tempo trazem em sua algibeira uma
contraparte, que des-velada, des-vendada, integram de modo inda mais o sentido
real que trans-portam. É trans-curso que, se fazendo por um caminho,
elaborando-se e constituindo-se, com o caminho vai-se entrelaçando,
confundindo. A viagem do nada ao vazio é o caminho, conforme diz a crítica
literária Ana Júlia Machado, "ela se ampara precisamente naquilo que de
algum modo é sabido – o que se institui como âmbito normal da percepção – para
anuir a outras áreas de sentido. Na realidade, a causa para a escrita
inspiradora é a anuência que o escritor dá a si mesmo para superar o raciocínio
usual e ofertar um trajecto interpolado para acercar mais além, em outra
significação do recitar", o caminhante e a direção mesclados numa mesma
continuidade. É uma aspiração à luz, mas se gera no nada. O vazio é uma forma
de ressurreição, uma alma inaugurando verbos do tempo e ventos. O tempo
devora-se a si próprio e, como Chronos, se alimenta do que gera, numa
inestimável empresa, que sendo e deixando de ser, o movimento dialético,
difícil se torna perceber o que no tempo é tempo e antitempo. Ser é começar a
não ser. A vida apresenta-se como um cultivar de antíteses: o crescimento para
baixo, essa viagem que se nega, esse tempo que se destrói. Ser é estar no
princípio do fim.
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Na verdade, o ser chega ao fim irrealizado e, além
disso, des-integrado e in totum consumido. O poeta vive um projectum que soma
todas as contradições, nonsenses, dialéticas, ideologias, mas nem por isso vai
ser arrebatado num carro de fogo e realizar uma passagem perfeita ou sem atrito
de um estádio ao outro.
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"O NADA é um instante do SER; O VAZIO é o
fascínio por re-colher e a-colher o múltiplo. A busca do verbo do eterno"
O poema é um texto, o texto literário é uma textura, uma tecitura. Esta
tecitura é um tecido e, como todo tecido, quando posto sob um microscópio, tal
tecido mostra-se como uma rede. Toda rede é constituída por uma série de fios -
o equivalente ao "dito", ao explicável por métodos positivistas de
análise - e por uma série de vazios, o equivalente ao não-dito, ao indeterminável
do poema. Uma rede não é constituída apenas pelos fios com que ela é tecida.
Essencial à rede são os vazios que existem entre um fio e outros, os vazios
constituídos e organizados pelos fios.
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O poeta procura essencializar a sua vida a partir
da memória da música primeira ouvida no mundo, a sua continuidade, sons,
ritmos, melodias, acordes, arranjos que os vazios que lhe habitam re-colhera. A
poesia como edificação, do nada ao vazio, do silêncio às vozes, das vozes à
música que habita o Ser, imenso trabalho carece de música.
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Nestes vazios é que estarão os peixes - a
finalidade da rede.
Diz Trakl: "A obra do poeta é apenas um ouvir.
O afastamento capta primeiro o ouvir em sua música, de modo que esta música
possa soar no poema em que vai ressoar." As palavras ditas no poema
protegem o dito poético como algo que, por sua natureza essencial, permanece
não dito.
#riodejaneiro#, 17 de outubro de 2019#

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