POR QUE DES-LOCAR E DES-COLAR O POETA DO "EU-POÉTICO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferrreira Neto: FILOSOFIA
Por que des-locar e des-colar o poeta do "eu
poético"? O poeta é o escrevinhador, quem empreende a longa viagem pela
paisagem da linguagem intencionando um ser espiritual divinizado, viagem
intros-pectiva, o conhecer o que habita as entranhas da alma a partir das
situações e circunstâncias vivenciais e vivenciárias, dores e sofrimentos
ocasionados pelo efêmeros existenciais, felicidade, prazeres, realizações,
fracassos, glórias e frustrações, verdades e in-verdades, projetos e intenções,
utopias e sonhos, o artista é a origem da obra.
----
Nenhum caminho está dis-ponível para se in-vestir
nele, se o poeta não se conhece, sabe de suas con-ting-ências in-conscientes e
conscientes, sua autenticidade e suas mentiras, suas condutas e posturas
irresponsáveis e responsáveis, mauvaises-foi e manques-d´êtres. Assim o
"eu poético" se a-nuncia, iniciando a viagem para o seu conhecimento
que só acontece com o exercício da prática poética, o escrevinhar poesias em
harmonia com o quotidiano das con-tingências.
----
Ao invés da re-velaçao do ser e dos entes na
linguagem, tem-se buscado a adequação instrumental da semântica aos pers das
esperanças do verbo e do espírito, do signo à sua designação, a linguística às
pectivas do verbo que des-vela os mistérios da busca do ser espiritual
divin-izado. A concepção do ser essencial da linguagem enquanto um dizer como
mostrar guarda uma predominância implícita da visão como o sentido intelectual
por excelência.
----
O dizer não é algo meramente adicionado aos
fenômenos, mas sim a aparição radiante deles. O pensamento não é um a priori
nem um a posteriori da linguagem mas ambos estão intrinsecamente ligados, um
sendo a condição necessária de existência do outro. É a linguagem, enquanto #casa
do ser# e moradia do homem, tendo por guardiães o pensador e o poeta - outra
razão por deslocar o poeta do "eu poético", estabelecer um diálogo
entre o pensador(o poeta) e o "eu poético"(o ser que busca a
espiritualizada divinidade -, que possibilita e torna necessário o encontro do
pensamento teórico com o texto poético.
----
Aquela érita questão de saber se a crítica (por
pensar o pensado, transcendendo-o e, portanto, colocando-se num estágio
superior da evolução do espírito) tem uma dignidade maior que o próprio texto,
ou se a literatura e o escritor são superiores à critica e ao crítico (pelo
fato destes serem parasitários, vivendo da vida e da morte do texto) acaba por
tornar-se ridícula, pois pressupõe a imposição do monólogo, seja do crítico
sobre o autor, seja do autor sobre o crítico, impedindo o diálogo possibilitado
e necessitado pela linguagem.
----
O encontro do pensador com o poeta, o encontro do
pensador que sugere o seu não-dito ao procurar re-velar o não-dito do poeta,
acaba sendo não só o mero encontro ocasional da personalidade de um pensador
com a personalidade de um poeta, mas o encontro mais fundamental e originador
que é a linguagem, e especialmente o não-dito ou não-ouvido da própria
linguagem, a linguagem enquanto inter-pretação do mundo, enquanto relação do
homem com o ser e com os entes. É o encontro dos guardiães - o poeta e o
pensador - na casa do ser: a linguagem. Aqui, pode-se endossar com excelência
as palavras de Mia Couto: “Cada um tem duas margens: uma em cada lado do tempo".
As duas margens que me habitam são o poeta de um lado, o pensador do outro.
----
O diálogo entre o pensador e o poeta é possível
devido à relação fundamental e diversificada de ambos com a linguagem. Todo
pensamento verdadeiramente re-flexivo é poético, e toda poesia é um modo de
pensar. Ambos estão necessariamente juntos, próximos entre si, sem se
confundirem - como duas paralelas que só se encontrarão no infinito. Na tensão
entre ambas há o mover-se. Uma não deve reduzir-se à outra. A aproximação possibilita
o diálogo: este se mantém enquanto não ocorre o encontro redutor. A aproximação
do filósofo com o poeta não é ocasional: pertence à própria natureza do pensar
e do poético, sendo também condição necessária ao desenvolvimento de cada um
deles. O dito "poeticamente" e o dito "pensativamente"
nunca são o mesmo. Ambos podem tentar dizer de modo diverso o mesmo, ambos
podem tentar encontrar-se num in-finito, mas não são o mesmo: querer que o
pensamento se torne poesia, e a poesia, filosofia, é querer anular a diferença
entre ambas, a diferença que possibilite eventualmente o avanço para um
infinito.
----
Retalhos de liberdade elaborando a colcha de
escolhas entre o pret-érito das volúpias da glória nascida de conquistas das
querências de as virtudes serem a luz do ser, o in-fin-itivo dos êxtases da
cor-agem de des-envelar, des-vendar o oculto do que trans-cende das intempéries
da con-ting-ência do bem e do mal, do inaudito e o clarividente, a neblina que
cobre a montanha e os raios de sol que in-cidem nas margens do terreno baldio
da alameda que leva ao pampa de orquídeas e lírios, a gnose do saber a
sabedoria que vela a omnisciência do absurdo, omnipotência do vácuo, é que tudo
acaba onde começou, a contradição do nada que não é o efêmero e o efêmero que não
é o nada, a dialética do não ser o que se é e se ser o que não se é...
----
A poesia é o nomear que instaura o ser e a essência
das coisas, não é um dizer caprichoso, o "eu poético" cria, re-cria,
inventa pers e pectivas da linguagem para revelar do verbo do espírito a
espiritualidade, o poeta e o escrivinhador da poesia e do "eu
poético".
#riodejaneiro#, 17 de outubro de 2019#

Comentários
Postar um comentário