**ÁPODE DO VAZIO PERPÉTUO** - Manoel Ferreira
Escrevem - e não dizem única palavra.
Fazem amor - e não gozam.
Cantam - e não há música, ritmo e melodia.
Falam - e nada expressam.
Olham - e nada enxergam.
Amam - não se entregam, não há sentimentos.
Dizem ser livres - e não decidem coisa alguma.
Sonham - e nada projetam ao futuro.
Filosofam - e não há idéias, ideais, pensamentos.
Poetizam - e não qualquer sensibilidade nos versos, estrofes.
Caminham - e não sabem para onde ir, não sabem o caminho de volta.
Riem - e nada há de engraçado, hilário.
Oram - e em nada acreditam, creem.
Embriagam-se - e não há nada para esquecer, para comemorar.
Drogam-se - e não há qualquer devaneio, não viajam no inaudito.
Olham-se no espelho - e não há qualquer imagem refletida.
Casam - na cama, cada cônjuge vira para o seu canto.
Namoram - e não con-templam as estrelas e a lua.
Fumam - e não tragam com volúpia a fumaça do cigarro.
Morrem - pouco importa o céu ou o inferno, vagar no espaço.
Choram - e não há tristeza, medo, carência, angústia, amor não
correspondido.
Dançam - e não há qualquer performance dos movimentos.
Tomam banho - e não sentem a água deslizar no corpo.
Almoçam e jantam - e o alimento não sacia a fome.
Dormem - com nada sonham.
Con-templam o céu - e não veem as nuvens brancas e azuis.
Mergulham na alma - e de lá não arrancam coisa alguma.
Declamam, recitam verdades - e não discernem a verdade e a in-verdade.
Acendem a lareira, tomam vinho - e nada sentem.
Jogam cartas - e não sabem as tramóias, tripúdios do jogo.
Fantasiam - e não sabem o que é irreal e real.
Tudo o que estou dizendo é: "Sejam autênticos"
Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 08 de novembro de 2016)

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