**QUANDO EU TIVER 80** - Manoel Ferreira
O
intelecto… Sonhos do afluir-de-ser trans-literalizados em vernáculos do
espírito, em litteras da alma na querência do belo, da verdade. O intelecto
usufrui domínio infindo, saboreia o vôo do infinito em direção ao in-finitivo
do eterno. Ele revira a sina, escolta a sua eleição, ele re-versa a saga, ele
in-versa o destino, segue a sua decisão.
Palavras
entrecortadas, perguntas e respostas que se cruzam, suspiros, lágrimas, gritos,
murmúrios, sussurros, o silêncio que esplende sua voz a todos os horizontes.
Quem sabe devesse aspergi-las com águas espirituosas?! Águas cristalinas na
sagrada taça da plen-itudes do verbo divino de intenções do ser.
Um
questionamento simples de início com o desejo de um movimento, um ato de
incentivo para que as idéias e os pensamentos sobrevenham límpidos e nítidos,
sobrevenham plenos de estesias e sin-estesias da verdade e do absoluto.
Significa que a atitude de aspergi-las com águas espirituosas, alguns pingos
finos e suaves de galhofa e escárnio irão de algum modo elucidar e esclarecer a
voz fraca e trêmula, lamúrias de insegurança e medos.
Ao
acatar o elevado, gera-se uma expectativa superior que detona o sistema de
triunfo, de glória, de júbilo, o mundo carece de ser criado, a vida de ser re-criada, re-inventada.
A
chuva caindo sobre as folhas ou o orvalho se derrama e dispersa sobre a grama
verde para torná-la prateada, para torná-la trans-espiritual. Encho a
existência de tranqüilidade, prazer, até a borda, como quem enche o seu copo de
Underberg até a borda, bebe-o num só fôlego, sentindo o amargozinho delicioso
do verbo de ser o responsável único por estar-no-mundo. Encaro a vida sob um
prisma inteiramente novo e muitas vezes torna-se dificílimo para mim até mesmo
imaginar o que fui, quem fui, se penso, logo existo. Se puder produzir uma só
bela obra de arte, terei sido capaz de retirar da malícia o seu veneno, da
angústia a alegria da certeza de viver e arrancar pela raiz a linguagem da dor,
espécie de uma fama eterna para uma infâmia perene.
Ser
exuberante é ser pertinaz, é haver uma crença inconcutível, uma fé con-tingente
inaudita, ininteligível. E uma asseveração sem limites de que tudo passa a
delegar verídico, tudo passa a postular-se real, a vida passa breve. Quem sabe
esteja com bastante vontade, um desejo insano de a vida ser longa, assim teria
muito tempo para viver o dia presente com demasiadas volúpias, ambições,
ex-tases de orgulhos e vaidades, largar mão de recatos, ter sentimentos dum simples mortal, as taças
mergulharem a mim no sono, a vida tranqüila e a sabedoria conservadas ao abrigo
dos desgastes, garantindo esta longanimidade.
Ao
despontar a sensação de júbilo, o cosmo exalta tal expedita e conspira à sua
mercê, hospedando-a a incumbência da humanidade. cada um é quem redige a
biografia de sua existência, manuscreve o pórtico de seu estar-no-mundo entre
as coisas, objetos, homens - ao eleger pelas posturas prolíferas –, o ser
progride, assertório cativo assertório. regozijo invoca regozijo.
Realidade
total do Homo Faber e Homo Sapiens. A palavra exprime e expressa o humano e o
sensível. A letra registra e imprime quem sou. A frase descreve o sentido
correspondente que pode ser exposto no coração puro, na consciência evidente,
na mente que diz a si mesma, na emotividade do homem bom e honesto, do indivíduo
probo e idôneo de utopias. O parágrafo narra a porção de harmonia possui os
homens honestos, sinceros, espontâneos. Disserta o homem que jamais renunciará
e resignará ao sofrimento e à dor, ao caos da História Universal em detrimento
da História da Humanidade. A sentimentalidade do amar apaixonadamente, ao
carinho tenro e tênue, à afeição madura e em plena civilização, civilidade, à
harmonia sonhadora, ao primitivo e à criança. A identidade obviamente
filosófica e psicanalítica de por baixo de feições singelas e agradáveis, puras
e leves.
Ao
originar essa conjuntura exuberante, a perceção empreende potentados
revigorantes que vão labutar na rota dos
alvos.
Há
quando penso que vou sufocar, perder o fôlego, por saber o que me vai no
íntimo, o que está a incomodar-me, o que está ardendo em chamas na querência de
ser manifesto. Digo-me o melhor é silenciar-me, relevar as angústias,
compreender e entender as circunstâncias. Sinto a presença incólume e
definitiva da necessidade de escrever e morrer, dizer e informar esta
experiência de haver acordado com a sensação de que tenho os pés muito no chão,
era necessário sonhar um pouco. Esta experiência está a tornar-me um outro
homem consciente de dons e valores que dentro trago em mim. Alguns, não apenas
os que não são íntimos, inclusive estes, interpretam isto de não sair para
canto algum à noite, de deitar-me por volta das oito horas, fumar um cigarro,
olhar a noite e as luzes da cidade através da janela do quarto, uma necessidade
de ser o centro, mostrar a importância, inteligência – não freqüento bares à
noite, não me encontro com homens de sucesso, não jogo palavras ao léu, não
compartilho palavras profundas com a burrice, a burrice é invencível. Mas em
verdade trata-se de uma estratégia para me esquecer das coisas feias,
horríveis, monstruosas que me tomam neste horário.
Sejamos
infatigavelmente positivistas. Proporciona favoravelmente para o físico, para a
ponderação e para o ser. É humano e comum habitar sofrimentos, só não é
aceitável coabitar com eles por muito tempo, por todos os caminhos da jornada
sem limites, fronteiras. Sucedamos mais plácidos, capacitemos compreender as
limitações. O sonho, nestes instantes em que ouço música, é igual ao da águia
que, do alto de um pico rochoso, abarca com o olhar a imensidão do oceano
semeado de galeras e de barcos que são como pequenas aves, enquanto a costa
quase invisível mal deixa ver suas minúsculas cidades e suas florestas que se
assemelham a campinas verdejantes. Essa
glória de sonhar, enquanto ouço música, enche então a terra inteira e as
gerações futuras. Sem intrepidez não há triunfo. Só que há quem a tenha e
patavina ameniza, Não é triunfador, é sucumbido…é tão belo enunciar e tão
simples…O intelecto nem constantemente granjeia todo o poder, igualmente ele tem
suas limitações.
Temo
o olhar que sonda fundo, tenho medo de dirigir um olhar perscrutador a quem
quer que seja, prefiro deixar os olhos deslizarem pela superfície de tudo, sem
pensar. Poderá objetar-se-me que em tudo isso que venho pensando e sentindo não
há nenhuma idéia, nenhuma novidade. E eu replico que há nisto uma grande massa
de idéias, e novas. Mas, como já esperava, exprimo-as grosseiramente. A minha
exposição é mesquinha, frouxa, superficial e de nível ainda inferior à minha
idade. Com que alegria me enfio à noite entre os lençóis, após fechar a janela
através de que olho as luzes da cidade! O importuno rumor da vida em comum
sofre uma trégua e no silêncio noturno a minha imaginação talha o mundo à minha
vontade...
Manoel
Ferreira Ferreira.
(22
de janeiro de 2016)

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