**NÁUSEA DO NADA** - Manoel Ferreira


"Felizmente que tenho as minhas agendas, pequenos escritos, do passado. Numa delas encontrei este texto, escrito no Restaurante D´Lucas, Edifício Maleta, Belo Horizonte, no dia da aula sobre a Dialética em Hegel, curso de mestrado."



Náusea do nada, sentimentos re-versos da perfeição do absoluto, das verdades, emoções plenas de vazio, in-verdade, inversas de alegrias, felicidade, satisfação, admira-me como se "oide nebtur racuibakuzabdim adnurane", inda mais como se pode viver acumulando conhecimentos para se lisonjear, envaidecer-se conversando com amigos da estirpe em alto nível, desgustando as palavras eivadas de sentidos trans-cendentes,
A vida não tem mais sentidos
Nos idos do sense,
A vida não tem mais sense
No há-de vir das perfeições
Sensórias do nada e do vazio,
passando a língua nos lábios para saborear-lhes as delícias, com um lenço branco de seda enxugando a saliva que desce no queixo, aquele néctar delicioso do inter-dito dos ideais e idéias que escorre inevitavelmente, a plen-itude do saber, sublim-itude da sabedoria. E na madrugada silenciosa, angústias, medos, carências - ridícula a vida de conhecimentos, de palavras tecendo de farrapos pretéritos seculares e milenares o sudário inaudito do ser que há-de vir, sendo simplesmente o "não ser"" estagnado nos átimos de segundos e minutos, estacionados na mauvaise-foi da natureza humana. O hábito do conhecimento é uma segunda natureza.
Quê nojo de mim - pudesse vomitaria as entranhas entupigaitadas de "leitinhos" de metafísicas, dialécticas, estruturas do nada na consciência, que legam prazeres e idílios no delírio da perfeição.
Numa aula hoje sobre a Dialéctica de Hegel, levantei-me da carteira, dizendo em tom altissonante: "A léctica do dia a dia é andar numa estrada de poeiras, tergiversando o olhar para a alma do espírito..."
Alguém de meus colegas respondeu: "Algum dia entenderá que os homens somos perfeitos, buscamos, no entanto, a imperfeição do pretérito e do há de ser. Eis a dialética..."
O professor colocou seus livros dentro da pasta, saiu de sala pisando duro, cri que sentiu bem profundo a sua segunda natureza. Saí também de sala e fui ao banheiro, enfiei o dedo na garganta e vomitei o café da manhã.
Sentado aqui numa mesa do restaurante D´Lucas, Edifício Maleta, avenida Augusto de Lima, Belo Horizonte, tomando um Gim Seager´s, acompanhado de uma cerveja bem geladinha, atravesso mares, deixo cidades para trás e subo rios sem margens, sem pressa, de águas cristalinas, ou então me embrenho em florestas, e sempre me dirijo a outras cidades. Tive namoradas, agora uma paixão sem limites e fronteiras, quem sabe no futuro me casarei, terei filhos; meti-me em brigas de caráter ideológico, o nada brigando com a perfeição absoluta. Nunca pude voltar atrás e dizer que não compactuo com o jovem que sou, defendendo conhecimentos e diálecticas do tempo-do-onça, o sonho é a liberdade em questão, "eu diante de mim na imagem do espelho", não eu diante das tradições do não-ser ciscando o ser no galinheiro das retrógradas culturas.
Minha namorada, ontem, antes da ribalta na aula sobre a Dialética em Hegel, dissera: "O destino que você escolheu é sarapalhar pelas contingências em busca de sua sui-ent-idade..."



Manoel Ferreira Neto.


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