**CUJAS-DITAS LÍNGUAS DA HIPOCRISIA E MENTIRA** - Manoel Ferreira


Ninguém pode-se deitar e rolar nas críticas, rasgar os verbos em todas as conjugações e com todas as regências. Vão-se somando, somando as críticas nestas circunstâncias. Acaba-se adquirindo renome por dizer as verdades na ponta da língua, todos os ristes nela.
Alguém surgem as cujas-ditas línguas dizendo que, em nome do reconhecimento, do renome adquirido, não se deve mais fazer críticas ácidas, o melhor é amenizá-las, usar os eufemismos com engenhosidade e perspicácia, outras devem ser omitidas, nunca ditas, conservadas e preservadas no silêncio a sete chaves. Reconhecimento e renome devem ser considerados com bastante acuidade.
Entra-se de cabeça nas etiquetas dos bons comportamentos, atitudes de excelência. As críticas que poderiam ser húmus, sementes para a conscientização dos valores e virtudes, moral e ética, transformando o mundo e os homens, são esquecidas. Não se abre a boca senão para considerações melosas, adocicadas, eivadas de elogios e encômios os mais esplendorosos, mesmo que não assim seja pensado e sentido.
Não me lembra o título de um tablóide curvelano onde fora publicada uma matéria, dizendo ser Curvelo, a Cidade Luz, a cidade está muitíssimo bem iluminada. Comentei a matéria dizendo ser interessante os curvelanos viverem de hipocrisia, inveja e fofoca, a mentalidade ser menor que o famoso "salário" do Professor Raimundo, e a cidade ser "Cidade Luz". Compreendia e entendia isto, pois que a luz não entra num covil deste.
A pessoa - nada mais e nada menos que íntima - de imediato disse-me que não fizesse tal comentário, deixasse a minha "filosofia" fora.
Não é preciso ser intelectual, filósofo, sensível, escritor, poeta para saber que em Curvelo imperam, reinam, vigoram a hipocrisia, fofoca, inveja.
Por toda a vida rasguei os verbos em todas as conjugações, com todas as regências, agora que adquiri poucochito reconhecimento e renome tenho de deixar a "minha filosofia fora", calar-me, silenciar-me. Sou seguidor incólume de João Ubaldo Ribeiro, quando ele diz: "O ESCRITOR QUE NÃO É POLÊMICO É UM IMBECIL". Não vou deixar minha filosofia fora, não vou me silenciar, não vou me calar. Agora é que vou afiar ainda mais os verbos com outras conjugações, com outras regências.
Simples assim: gostam das minhas críticas, conforme a consciência e sensibilidade ajuízem-lhes percucientes, julgam-lhes excelentes, então me cumprimentem com um aperto de mão, entre-lacemo-las, sigamos juntos. Não gostem das minhas críticas, ajuízem-lhes, julgam-lhes arbitrárias e gratuitas, virem-me as costas. Não me venham dizer para deixar a "minha filosofia fora", convidando-me a silenciar, calar. Nada me cala, nada me silencia. Nem a morte é capaz de fazê-lo, pois a minha obra estará no mundo.



Manoel Ferreira Neto.
(Rio de Janeiro, 03 de agosto de 2016)


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