GRITOS, SUSSURROS E GEMIDOS - Graça Fontis e Manoel Ferreira Neto
Surge
um imenso vazio
Dentre
sombras e dúvidas
E
a profundidade torna-se
Infinita
e assustadora.
Ouço
o eco do grito
Angustiante
e a demência
Bate
à porta em surdina,
Onde
a fome corrói o interior
Deixando-o
sombrio e fraco.
O
pulsar do peito destroçado
Pela
força do destino,
A
massa fosca rela sobre a
Sina,
o fundo negro chama
E
quer resposta.
A
luta cega... num tremer
Agonizante
e a febre de fim
Toma
a alma em resgate.
O
corpo decrépito da árvore cai,
A
queda dura de longe
Escuta-se,
A
carne espatifada no chão
Espalha-se
e um rasgo de sange se fez ver;
A
cara da dor... impossível
Esquecer.
Enfim
a morte e os restos
Jaz
sepulcro,
Uma
resolução pré-concebida,
Alimenta
a tempos;
Hoje
o interior já não dói
E
num sono profundo...
Sorri
um pobre herói.
A
verdade singela, pura, inocente, no entanto, tem sempre a aparência ambígua –
um assobio, um murmúrio de águas vivas, ruído de fonte ou de cascata. Posso
ficar sentado por horas seguidas nesta poltrona, com as pernas para o alto em
cima da outra poltrona, olhando a trajetória da luz do sol nas montanhas.
Quem dera estivesse na Suécia, podendo
contemplar não só as montanhas, mas também os fiordes!...
O
sol faz refletir um desenho artístico no papel envelhecido da parede do quarto.
Há o tic-tac do relógio que marca nove horas e doze minutos. Há uma grande
quietude em todo o quarto, cheio como está de tantas coisas raras e irreais;
num átimo de tempo, pode tudo transformar-se, pode tudo tornar-se coisas absolutamente
novas e reais, suficiente o acreditar nelas, crer na vida que posso dar a elas.
Acho
que seria suficiente se uma pessoa fosse amiga, sincera, fiel para quem vive
com ela. Carinho também faz bem. Bom humor, companheirismo e tolerância –
enfim, é necessário ser consciente de que os homens somos imperfeitos. Ambições
razoáveis a respeito do presente e do desejo de realizações do outro. Se
pudesse servir todos ingredientes assim... então já não teria tanta importância
o amor.
Óbvio
que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que me faz acreditar em
fronteiras. Não existem fronteiras. Não existem, embora algo grite e sussurre
no íntimo, dizendo-me que isto é um desejo de não existirem fronteiras, mas
existem; não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos, nem
para as mais puras intuições e percepções. Quem sabe, desejo sim acreditar
nisto, é a angústia que fixa as fronteiras?!...
Conheço a voluptuosidade do vôo e do pairar da
águia nesse lugar nenhum, macio e claro, para onde a alegria me arremessa antes
de conhecer o êxtase e o logro do êxtase. Para mim, o ser humano é uma criação
indescritível, tal como uma idéia incompreensível, um pensamento ininteligível.
No ser humano tudo existe, do mais alto ao mais baixo, do mais sensível ao absolutamente
insensível, precisamente como na vida. E, seguindo esta idéia que elaboro e
crio, dando-lhe vida, o ser humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe,
tudo, como se fossem forças enormes.
Confesso
saber que esses desejos são tolos.
Relato, embora num espaço muito pequeno, devido às circunstâncias, as
lutas que travo com todos os desejos, a vontade de um ínfimo minuto de daqui a
pouco. Nada omito, nada minto. Sinto-me capaz de dizer tudo, inclusive as dores
mais profundas, aquelas que as palavras não alcançam, mas que existem, e são a
chama ardente de um sonho mais atirado.
Sinto-me
muito mais forte e mais independente. Poderia realmente ser útil a quem está em
dificuldades. Será mesmo que estou convencido de que tenho uma missão que não
inclui nem a dissimulação nem as hipocrisias; é algo que transcende a condição
humana,; se não acredito nisto, poder transcender a condição humana, superando
estas coisas tão cretinas e idiotas, como vou poder continuar vivendo? Tudo é
insípido, inóspito sem um sonho maior que tenha por objetivo encontrar além dos
limites a felicidade.
Consigo confessar quaisquer segredos, mesmo
que muito pouco deles tenho a capacidade de entender, patenteio o que quer que
haja, relevo os medos e angústias que são partes de uma criação. Estou cansado, terrivelmente cansado. Se
tivesse coragem, romperia com tudo e me mudaria para uma choupana nalgum abismo
da montanha ou talvez pedisse a alguém para varrer as ruas da cidade. Exibo as
feridas. Descrevo como atravesso as águas, qual uma criança que sai se
arrastando pelo chão, enquanto a mãe conversa com a amiga, e como o rio zomba
de minha intenção de retornar ao centro da cidade.
Brilham
lâmpadas vermelhas e sinais de “pare” à minha volta. Não acho apenas que assim
deva ser. Não me declaro satisfeito. Sinto uma grande peso, como se fosse uma
tristeza. Se me tivesse permitido pensar, sem ficar com a consciência pesada,
então teria sabido que tudo o que digo e faço está errado. A minha tristeza é,
creio, muito especial. Por isso, venho até ao quarto, sento-me à poltrona.
Enquanto não pronunciar a palavra que intenciono, que desejo, a minha tristeza
é como um sonho irreal. Pronunciando-a, então, terei manifestado a minha
tristeza.
Há
um comportamento típico entre nós, comportamo-nos como rivais, perseguimos
nossos ideais. E, no entanto, tudo isso não passa de uma hipocrisia, um jogo
entre nós, que nos enlaça intimamente, que nos acende a todos. Tudo não passa
de pura fantasia, tudo tem uma dimensão a mais, um sentido mais profundo; tudo
é jogo e símbolo...
Práticas
espirituais e a imagem da morte são uma combinação sobremodo banal. A maioria
dos corpos humanos são mortos, embora esta concordância não esteja correta, mas
necessito de dar uma ênfase, com uma cabeça falante e extremidades
sacolejantes. Algo se passa com os lábios. Percebo que têm uma forma especial.
Continuo olhando-me a todo instante, sem perder de vista um único detalhe.
Vejo-me e formo um sorriso quase imperceptível .
O
pulso de estátua fascina e surpreende, diante do retângulo de azul
resplandecente por onde a morte vai jorrar um segundo depois. Esse azul de
morte, esse azul de neve – o céu desta manhã fica gravado na retina como uma
catarata luminosa. É essa luz, essa chama fixa de uma cegueira, lúcida demais,
que imagino ser o brilho dos olhos.
Em verdade, inda me esqueço de quem está a pensar, sentir, ser,
sou ainda eu, esqueço-me de que estou só, que ninguém pode ser por mim, nem um
deus. Eu só, irredutível, princípio e fim, fechado, único e para sempre. Quê alucinante!...
Mas assim mesmo, como é fascinante imaginar-me em ti, na tua aparição, na tua
fulguração.

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