**AUTOBIOGRAFIA DE UM ESCRITOR** - Manoel Ferreira
Post-Scriptum: Os meus amor, ternura, carinho,
agradecimento à minha amada Mulher e Companheira das Artes, Graça Fontis, o
retrato que ela acaba de pintar para ornamentar esta Autobiografia de um
Escritor.
Beijos, meu Amor gostoso!!!
Sou composto de traços e passos
Ensombrecidos cantos, recantos e auroras.
Sombrios sítios, crepúsculos, cavernas,
Entardecidos recônditos, interstícios angústias,
náuseas.
Anoitecidos desejos, vontades, utopias
Sou lembranças de sonhos perdidos nas curvas do
tempo,
De esperanças esvaecidas nas molduras paisagístias
Que éter-iza horizontes, que perpetualiza as
arribas de confins
Sou recordações do raio de luz, do sibilo de vento,
Sou memórias de instantes de prazer, momentos de dor
Com que apagam
Na noite a luz do abajour que acendo.
Sou obstinação, determinação, insistência,
persistência
Sou medo
Sou circunspecção, introspecção
A lenha que re-colho para colocar na lareira
A chama do fogo que rasga a escuridão.
Sou composto de marcas e cicatrizes;
Uma face e um símbolo, um rosto e um signo,
Um semblante e uma metáfora,
Uma imagem e uma perspectiva,
Uma silhueta
A poeira das ruas de minha terra-natal
Na sola de meu sapato,
Poeira que vou deixando nos pretéritos do tempo
O destino é a cidadania do mundo
Minhas mãos postas ao céu, ao que trans-cende,
Sem rezas, sem orações, sem dogmas e preceitos
Meu punho erguido,
Um murmúrio, um sussurro, um grito
Um berro altissonante,
Uma agonia, um desespero, um desconsolo
Lágrimas que descem a face da contingência
Sorriso enviesado que se esboça frente ao in-audito
Brilho, por vezes frio, por vezes brilhante
Diante da solidão do silêncio.
Amando, nada sou
Intrans-itivo verbos com a pena das desejâncias do
Ser-Amar
Regencio inauditos, silêncio e solidão com a tinta
das querências do Sublime
Amando, amo e amo amando
Inspiro-me de sentimentos que se anunciam
longínquos nos recônditos da inconsciência
Sensibilizo-me com a sensibilidade que reina,
impera e vigora nas alamedas
Tapeadas de silvestres flores de ipês amarelos.
Evangelizo-me com as lâminas espirituais dos
encontros e des-encontros do sublime.
Sou composto de estrume e de solo íngreme;
Sou rumores, sou gemidos, sou suspiros,
Sou ruminante de ouro e riso
Nos caminhos de luz nas trevas
Sou pés trilhando ruas e avenidas,
Sou pernas varando o tempo,
Sol na cabeça, no rosto e cruz suja de terra,
Fardo colorido, destino branco e preto,
Sina, saga, destino sem cores e brilhos,
Sou o aqui-e-agora, o que há-de vir,
A hora que se apresenta e se esvaece
Mas retorna com novas energias, forças.
Sou ouvidos de línguas estrangeiras,
Sou voz de olhares à espreita do ser e tempo,
Ímpeto de lábios, sorrisos à mercê das coisas
hilárias,
Esgares de tristeza e angústia à revelia das
dialéticas
Da vida e morte,
Do bem e do mal,
Pele, pensamentos, poros, pelos...
Sou uma espera, fantasia, ilusão,
Sou um movimento, sonho, utopia,
Um pingo de chuva, um raio de sol,
Orvalho na madrugada, neblina que cobre a montanha
Uma lufada de vento, uma luz de relâmpago,
Brilho da lua bolinando a escuridão da noite,
Cintilância das estrelas seduzindo o universo,
Sou a mão que pinta de cores semi-vivas a tela de
desejos,
Sou a palavra registrando no dito e inter-dito o
espírito da vida,
Sou a nudez de corpo exposto às primeiras luzes da
manhã
Sou tear na madrugada fabricando vida plena.
Sou capim do pasto e as ovelhas.
Sou peixe e água de rios, córregos e lagoas;
Sou espaço e a borboleta, sou horizonte e a águia
A pomba e o condor, sou o in-finito.
Sou a idéia de uma coruja
Pousada sobre uma galha de árvore,
E quando sou a idéia,
Sou a coruja.
Manoel Ferreira Neto
(05 de agosto de 2016)

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