COMENTÁRIO DA AMIGA, ESCRITORA E POETISA ANA JÚLIA MACHADO AO TEXTO /**ADEUS, GRACIAS POR TANTO CARINHO**/


ADEUS, GRACIAS POR TANTO CARINHO
Manoel Ferreira Neto.



Habitar o palpável com a essência do devaneio. Saber-se determinado para requestar o infindo. Observar com a avidez do dianteiro ocasião e a solicitude da derradeira. Amanhar sensibilidades de terror como quem cursa montanha russa. Adquirir doidices no bar. Maravilhar o conjecturável. Trepidar-se consigo próprio. Desamparar antigas crenças como quem sai para conquistar futilidades.
Por isso, despede-se de uma amizade colorida como deve ser. Pois não lhe havia dito tudo. Que era um ser isolado, por ser reconhecido…agora que a febre passou, quer ser livre e fazer o que gosta: voltar à sua cena. Um texto que demonstra algumas fraquezas e que quer seguir a vida com a consciência tranquila.



Ana Júlia Machado



**ADEUS, GRACIAS POR TANTO CARINHO**



Aquando escrevi-lhe, despedindo-me, estava sentado num Kioski, eram três horas da manhã. Dizem que sou louco por sair de casa altas horas da manhã, corro muitos riscos, é perigoso. Adoro andar no meio da rua, pensando com os meus botões sobre os caminhos já trilhados, acabo no restaurante do amigo Robson, tomo cerveja e garatujo algumas coisas. Robson estava fechando o restaurante. Fui para o Kioski.
Outras coisas queria dizer-lhe, mas o papel que pedi ao garçom não dava para registrá-las, concentrei-me no essencial, a caligrafia menor que os olhinhos de uma pulga amestrada.
Havia tempo considerável estava pensando em partir, percorrer outras estradas, viver outras circunstâncias, as mesmidades estavam a incomodar-me, sentia-me como se houvesse morrido e esquecido de cair.
Perguntar-me-á quando a decisão de partir se me a-nunciou. Deve se lembrar aquando fomos assistir a um filme de Costa Gavras, de cujo título não me lembra no momento. Saí do cinema dançando pela calçada de mãos dadas com você. Convidou-me para tomarmos um sorvete de chocolate. Não aprecio nem um pouco sorvetes, picolés. Você tomou o sorvete, tomei uma caipirinha acompanhada de torresmos.
Você disse uma frase por completo diferente do que estávamos conversando. Olhei-a surpreso. "Saiu sem querer..." Dei de ombros como quem diz não fazia a menor importância. A frase ecoava em mim dentro. A frase era: "A verdade brocha que é uma beleza".
Era o que estava sentindo com as mesmidades que estava vivendo. Estava deixando a roda rodar simplesmente, a vida deslizar na superfície das con-tingências. Não havia mais aquilo de não poder dar as caras na rua, fãs pedindo autógrafo, diretores enchendo o saco com as minhas representações, tudo tinha de ser à imagem e semelhança deles, amigos não havia, só interesses. Joguei tudo para os ares, pus a mochila nas costas e isolei-me. A minha verdade era o exílio. Os nossos amigos até me diziam: "Você é louco por estar deixando a roda rodar simplesmente. Solte as frangas..."
Depois de cinco anos, a euforia dos fãs já havia esvaecido. Não sabe o quão é angustiante você ficar trancado em casa porque fãs não lhe dão paz. Por quatro meses refleti bastante. Não éramos casados. Não vivíamos juntos debaixo do mesmo teto. Éramos bons e excelente amigos.
Estou agora re-começando uma peça inspirada em Diário de um Louco, de Gogol. Os cinco anos afastado do teatro não fizeram os fãs esquecer-me, mas pelo menos posso andar livremente pelas ruas da cidade.
Era isto que não lhe dissera quando lhe escrevi a despedida.
Tudo de bom para você. Empreenda-se no seu salão de beleza, sabe que é uma grande profissional.
Beijos! Gracias por tanto carinho nos tempos de nossas relações!



Manoel Ferreira Neto.
(01 de junho de 2016)


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