**ADEUS, GRACIAS POR TANTO CARINHO** - Manoel Ferreira
Aquando escrevi-lhe, despedindo-me, estava sentado num Kioski, eram três
horas da manhã. Dizem que sou louco por sair de casa altas horas da manhã,
corro muitos riscos, é perigoso. Adoro andar no meio da rua, pensando com os
meus botões sobre os caminhos já trilhados, acabo no restaurante do amigo
Robson, tomo cerveja e garatujo algumas coisas. Robson estava fechando o
restaurante. Fui para o Kioski.
Outras coisas queria dizer-lhe, mas o papel que pedi ao garçom não dava
para registrá-las, concentrei-me no essencial, a caligrafia menor que os
olhinhos de uma pulga amestrada.
Havia tempo considerável estava pensando em partir, percorrer outras
estradas, viver outras circunstâncias, as mesmidades estavam a incomodar-me,
sentia-me como se houvesse morrido e esquecido de cair.
Perguntar-me-á quando a decisão de partir se me a-nunciou. Deve se
lembrar aquando fomos assistir a um filme de Costa Gavras, de cujo título não
me lembra no momento. Saí do cinema dançando pela calçada de mãos dadas com
você. Convidou-me para tomarmos um sorvete de chocolate. Não aprecio nem um
pouco sorvetes, picolés. Você tomou o sorvete, tomei uma caipirinha acompanhada
de torresmos.
Você disse uma frase por completo diferente do que estávamos
conversando. Olhei-a surpreso. "Saiu sem querer..." Dei de ombros
como quem diz não fazia a menor importância. A frase ecoava em mim dentro. A
frase era: "A verdade brocha que é uma beleza".
Era o que estava sentindo com as mesmidades que estava vivendo. Estava
deixando a roda rodar simplesmente, a vida deslizar na superfície das
con-tingências. Não havia mais aquilo de não poder dar as caras na rua, fãs
pedindo autógrafo, diretores enchendo o saco com as minhas representações, tudo
tinha de ser à imagem e semelhança deles, amigos não havia, só interesses.
Joguei tudo para os ares, pus a mochila nas costas e isolei-me. A minha verdade
era o exílio. Os nossos amigos até me diziam: "Você é louco por estar
deixando a roda rodar simplesmente. Solte as frangas..."
Depois de cinco anos, a euforia dos fãs já havia esvaecido. Não sabe o
quão é angustiante você ficar trancado em casa porque fãs não lhe dão paz. Por
quatro meses refleti bastante. Não éramos casados. Não vivíamos juntos debaixo
do mesmo teto. Éramos bons e excelente amigos.
Estou agora re-começando uma peça inspirada em Diário de um Louco, de
Gogol. Os cinco anos afastado do teatro não fizeram os fãs esquecer-me, mas
pelo menos posso andar livremente pelas ruas da cidade.
Era isto que não lhe dissera quando lhe escrevi a despedida.
Tudo de bom para você. Empreenda-se no seu salão de beleza, sabe que é
uma grande profissional.
Beijos! Gracias por tanto carinho nos tempos de nossas relações!
Manoel Ferreira Neto.
(01 de junho de 2016)

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