@VEREDAS TRILHADAS, PÉS CALÇADOS DE FÉ@ GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Nascendo, talvez uma das primeiras palavras que
ficam na mente seja Natal, Fé, Amor. Uma das primeiras comemorações da família
reunida que permanecem na memória é a do Natal.
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Aos quatro anos e meio, 1960, era Natal. Todo o dia
24 não se falava noutra coisa senão que iríamos cear na casa de Maria Izabel,
esposa de José Maria de Almeida, Zé Gouveiano(assim conhecido), irmão de minhas
mães, Dinha(Maria das Dores), Amélia, Laurentina, Conceição. Dinha
insistentemente falava da Fé, do Amor, da Esperança, da Solidariedade,
Compaixão, era isto o Natal.
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À noite, por volta das onze horas, lembra-me que
Maria quis chamar um táxi para nos levar à casa de Maria Izabel. Teimei que
não. Queria ir a pé. Não era tão longe assim. Estava com vontade de andar.
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Fomos a pé. Amélia andava muito depressa, estava eu
de mãos dadas com ela, sentia prazer nos pés, Maria ao lado, Laurentina e Dinha
atrás. Chegamos após uns quinze minutos de caminhada. A festança já estava em
andamento. Sentei-me um pouco na poltrona da sala para descansar e comecei de
olhar os pés das pessoas para lá e para cá, não conseguia me desfazer daquilo
de olhar os pés andando, todos muito bem calçados. Ceando na mesa quadrada e
grande, olhava as pessoas andando. Aquilo estava me incomodando. Laurentina
olhava-me, e nada dizia, apenas olhava. E fora assim até o final da ceia, por
volta das três da manhã, já estava dormindo.
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O almoço do dia 25 também seria na casa de Maria
Izabel. No instante de sentar-me à mesa, todos reunidos, Laurentina disse-me:
"Pretinho(era o meu apelido de família), por que você está olhando tanto
para os pés das pessoas, meu filho?" Sem quê nem porquê respondi:
"Tia, não estou vendo ninguém calçado de fé neste Natal". Não houve
quem não me olhasse. Nada disseram. Livrei-me da coisa, contudo jamais me
esqueceu o "Não estou vendo ninguém calçado de fé neste Natal". Não
mais olhei os pés andantes de ninguém.
#riodejaneiro#, 12 de novembro de 2019#

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