**DE COMO A CORUJA NÃO CANTA A ÓPERA DO VAZIO NO MORRO DOS VENTOS UIVANTES** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto
Sarapalhas...
Apesar de surpreso, não pensava, não eram de meus pensamentos e idéias
lembranças, re-cordações se revelassem no vazio como pude conferir na crise
havida - quê crise, putz! achei mesmo que fosse sucumbir nos braços do vazio!
-, nestes três dias após, estou lânguido, o gosto de cabo de guarda-chuva na
boca não se efemeriza, não se dissolve, os nervos do corpo tensos, carne e
ossos, sou assim feito, vivo de carne e ossos, nas coxas das pernas, atrás,
sinto estremecimentos, a carne tremelica independente da vontade...
Tomando banho, passei a toalha na superfície lisa do espelho,
tirando-lhe o vapor da água quente, olhar-me a imagem refletida. Passo atrás,
vi-me desfacelado, a face se movimentava, caranguejo e seus tentáculos frente
ao inimigo a atiçar-lhe, instigar-lhe com vareta de bambu, os bagos dos olhos à
espreita dos movimentos da imagem, nas órbitas, um vácuo, aproximei-me para
olhar dentro dele, talvez visse o cérebro pulsando, nada, um vácuo sem limites,
fronteiras. Sentei-me no sanitário, fora de mim, olhando a água cair no chão.
Pudesse re-tornar, evitaria a crise de algum modo, mas fora
inesperadamente, de supetão, quando percebi, a crise em mim. Bastou a
"palavrita" pronunciada e tudo aconteceu. Não me lembra qual fora
ela, talvez "subterrâneo", estivera a pensar no "subterrâneo da
alma", onde todas as mazelas estão presentes, talvez
"prefundas", ainda talvez "abismo". Não o sei. Não fora
qualquer delas? Não será lembrá-la que me restituirá o senso, resgatarei a
lucidez, algum verbo incógnito de mim.
Lembra-me... Assim que entardecera, estava sentado numa pracinha
pública, olhando de esguelha a uns trinta passos um vira-lata dormindo debaixo
do leque da fonte luminosa, casal de adolescentes se beijava sofregamente,
chamando a atenção dos transeuntes. Tive uma sensação estranha: estava à beira
de abismo, ventava muito, folhas secas de árvores flanavam no ar, pareceu-me
dilúvio de ventos. Saí da beirada do abismo, refugiei-me numa gruta. A sensação
fora tão forte e presente que me levantei do banco, apanhei o chapéu ao lado,
coloquei na cabeça, saí andando de cabeça baixa; em mim, o nada de sorrelfas, o
nada de idílios, até o nada de quimeras e fantasias. Amigo tocou-me o ombro,
dizendo: "Viu alguma alma penada, meu querido? Está com uma cara daquelas!"
Sorri, e respondi: "O calor está demais. Odeio o verão, odeio o
calor." Despedimo-nos. E, andando, dirigindo-me à minha residência,
resquícios, vestígios da sensação, acompanhados de tristeza, tristeza abissal,
a razão não soube explicar.
Isto me lembra antes da crise da madrugada. Crise de vazio não envia
bilhete, informando a sua presença em breve. Enquanto se está projetando os
próximos passos para a realização de um desejo, o vazio acontece, tudo perde as
suas estruturas, tudo se esvaece. Isto nada explica, nada justifica.
Ando sem rumo, sem destino, entrando e saindo de ruas, um calor sem
limites, o suor escorre-me na face, pinga no chão. Tiro o chapéu, enxugo o suor
com uma toalhinha que trago sempre no bolso da calça para enxugar o suor.
O que de mim fora? O que fui em mim? O que fora de mim? O que é de mim
neste absurdo instante-limite? Deixo o mundo para entrar nas trevas. Haverá
alguma saída, solução?
Perdido, entro na rua da casa de Berenice. Somos namorados faz três
meses. Passarei o resto da tarde com ela. É domingo. Talvez me convide para
assistir no Cine Aurora ao filme MORRO DOS VENTOS UIVANTES. Já tentei assistir
a este filme umas três vezes pela Internet, mas não consegui. Muita angústia,
desespero assolam-me. Faz uma semana que está sendo exibido e a fila para
aquisição de ingressos é quilométrica. Não sabe ainda de minha crise, chegou de
viagem de manhã. Fora passar o fim de semana na praia de Popeye.
Toco a campainha. Espero.
(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)
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