#SELO DE QUALIFICAÇÃO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira: SÁTIRA POÉTICA



A inocência
tem necessidade da areia e das pedras.
A maledicência,
é-lhe mister a lama das poeiras das viperinidades,
é-lhe sine qua non a janela aberta no crepúsculo,
aquela troca de dedos de prosa com os transeuntes,
risos, gargalhadas,
os preconceitos rolando à deus-dará,
os párocos abençoando as renitências,
prometendo a ressurreição e redenção
por moléstia psíquica tão divina.
A benevolência
descreve a mais jovem geração dos sábios,
para dis-cursar com prudência.
Em decorrência,
entregaram a cada carroceiro um selo de qualificação,
e a carroça vai ao sabor do jingle-jangle
na estrada jubilosa e orgulhosa.
A condescendência
deve depurar-se de utilitarismos,
ao abrigo das necessidades da existência,
sob a proteção das exigências do caráter e índole,
inda sob o amparo das concupiscências e estirpe,
das ciências do desvario e asnadas,
que imperfeito in perpetuum imperfectível!!!
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Quando a pedra, afligindo a carne
e os flancos sensuais de morna lassidão,
impedir de desejar e arfar meu coração,
e meus pés de seguir a trilha aventurosa,
obstáculos e empecilhos sarapalhados ao léu,
amores e alegrias da conjug-itude dos ideais, sonhos,
a intimidade de entregas e doações,
a sepultura que tem seu confidente em mim
– porque a sepultura sempre há-de
compreender e entender o artífice das palavras,
quem manuscreve na página suas dívidas e os valores
depositados em cofre de lídima confiança –,
dir-me-á sussurrando
"Nas insônias sepulcrais das noites sem fim,
Ah, desespero... Ah, angústia, carcomendo a alma,
nas vigílias noturnas, perquirindo,
na sombria solidão de seu quarto,
condutas, posturas, quimeras,
você res-sonava com a embriaguez das palavras
já minorada ou finda..."
Dir-lhe-ei cochichando:
"Não fora Goethe
Quem com toda sabedoria dissera:
"Ao mesmo tempo que cultivamos nossas virtudes,
Cultivamos também nossos vícios..."?
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E o homem des-aprendeu o convívio com essas coisas.
Pelo menos é nisso que tenho de acreditar,
porquanto me entrincheire neste lugar singular
onde dorme o tédio suave e sereno.
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Que tentação a de identificar-me com as pedras,
unir-me intimamente a esse universo ardente
e impassível que desafia a História e suas agitações,
na areia, sob um ventinho sereno,
sol ameno, cabeça deitada no colo da amada,
a observar o silêncio...
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Além das águas!


#riodejaneiro, 13 de janeiro de 2020#

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