INCONGRUENTE CONTINGÊNCIA CÊNICA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: CÂNTICO



Pense
Nas ondas marítimas umedecendo a areia da orla,
Os mais abismáticos sentimentos, emoções
Florando espontâneos.
Pense
No sono da soma de todas as tristezas,
Da síntese de todas as desolações,
Sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse acorrer em nada para isso.
Pense
No pretérito: sombras a incidirem-se
no crepúsculo do tempo;
Pense
Na imagem das contingências humanas
refletidas no espelho in-congruente
das regências quiméricas;
Pense
Na poeira fina cobrindo a pedra de mármore,
de por baixo cinzas misturadas na terra
A Terra-mãe é o volo supremo;
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Ao redor do uni-verso
Performando o re-nascimento
Do ser-outro-de mim no inter-dito
Da memória refletida no pretérito espelho
Das outroras nostalgias e melancolias,
Ludico o sublime sensualizado de verdade,
- o sublime é sem bordas, sem fronteiras, ilimitado
ou a penas faísca brilhante dos sonhos? -
Sinceridade ao prazer da eternidade.
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Des-vendar
Segredos, mistérios
Des-velar
Desejos, amor, cáritas
Des-cobrir
Esperanças, sonhos
Des-enovelar
Versos re-versos às revezes de in-verdades
Re-vezes in-versas de versos in-certos,
Estrofes enganosas de intenções, volos.
Des-fiar
Linhas, entre-linhas, além-linhas, mentiras do não-ser,
Ser nada, ser vazio, ser
Fantasias, ilusões, quimeras vão-se
O tempo preenche de idílios o verbo de sonhos,
Ser de mim o que inda não sou, entregar-me ao amor,
O que de mim fui ontem
Morrer ao alvorecer de hoje
Sou eu mesmo, a incógnita sincopada
Que ninguém decifra, desnuda, des-entrelaça
Nos serões de campos, sabatinas de auditório.
Nada de ser sozinho.
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Meu Deus!...
Quê dor dilacerante a roer as veias do coração!
Deixei de viver - o que me foi a vida?
A vida me foi a agonia do Teatro
Na travessia para a incongruência da contingência cênica.
Eterna... Interna... Des-eterna...
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As cinzas do eterno.
A vida mente a performance do teatro,
O teatro finge as luzes da esperança
Tudo, nada...
Novos tempos do não-ser...
As minhas cinzas na sarjeta da eternidade!...
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Sou
"Mentira" - o vazio da solidão tripudia a esperança.
Amanhã sentar-me-ei à escrivaninha
Para conquistar o rnundo, agradar os indivíduos
Com só palavras desejadas por eles ouvirem,
Com a poesia conforme imaginariamente vislumbram:
Cem sentidos do vácuo des-enobrecendo a vida;
Mas só conquistarei a terra em longínquos tempos...
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Meu Deus!... A palavra não tem ser.
A morte ou a loucura? - eis a questão.
A morte - nada do não-ser, nem existi
A loucura - nonada do ser, nonsense da liberdade
A plena e absoluta tragédia do homem
Enclausurado no abismo das trevas.
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Au revoir, mes amis!...
#riodejaneiro, 17 de janeiro de 2020#

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