#MENOS QUE SIMPLES PALAVRAS# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Um crepúsculo sempre a olvidar, uma estrela a se
apagar na treva, uma vereda entre duas sepulturas, palmeiras no canteiro
central por toda a Bezerra de Melo — por isso precisamos velar, cuidar, falar
baixo, sussurrar, murmurar, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio,
assistir à madrugada na vigília da solidão, olhar de soslaio o fracasso de uma
pessoa na poesia e o fracasso de uma pessoa na vida. Quando se falha na poesia
erra-se a vida, e quando se falha na vida, nunca se
foi concebido, gerado, nunca se nasceu. Delirante parecer moderno, enquanto se
é o mais tolo já nascido.
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Houvera pretérito de lembranças nítidas e nulas,
re-colhidas e a-colhidas do momento, se se desejar, instante-limite na ponta da
língua as palavras descritas da conversação, ouvindo-as, no cume da Serra do
Cabral, alto-inverno, a neblina e as nuvens, entrelaçadas, quiça me
prospectivasse, dissesse-as ipsis litteris, passaram-se os anos, estava diante
de um abismo, evadi-me, contudo permanecendo no mesmo lugar.
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Como é longo um dia. Quantos passos na avenida, que
trilhei circunspecto. E quantas coisas acumuladas no tempo.
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O ipsis das metáforas da plen-itude que re-versa o
além das contingências com os confins do abismo, quando a re-novação das
esperanças se faz no entre-laçamento nupcial dos volos de verbos cujas
gerências são lumes da dialética do nada e ser, na koinonia simbólica dos
latinos lácios do infinitivo circunvagado de versos e estrofes do perpétuo
nada, poiésis e poiética da linguística pura e prática do vazio, poemática do
absoluto.
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Alvorecer de hoje visto sob os linces de amanhã,
visão do imperfeito subjetivo, do in-finitivo metafísico... De minha cadeira,
analiso com olhar à solapa das contingências, olhar crítico, a terno preto sem
nenhum modelo, suspenso no cabideiro, a mania que tenho de usar terno preto com
gravata de nó, lilás, o que era moda nenhuma. O canto da coruja saudando o
silêncio milenar do genesis, solidão secular do cântico dos cânticos sob a
cintilância da lua nova que perfect-erseja o sublime de miríades do verbo do
infinitivo, hoje simplesmente estivera eu sentado na rampa de meu casebre,
triste, desolado, a-nunciando o alvorecer...
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Houvera felicidade e saltitância por vislumbrarem a
travessia do vazio em direção às forclusiv-itudes da esperança perfeita, dinar
da ribalta do silêncio, picadeiro da solidão.
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Orvalh-itudes de quimeras tocando as páginas
viradas, se amanhã houve de imortalizar os interditos de sonhos e esperanças,
melancolias e nostalgias, pretéritos, cujos estilos de linguagem olvidei,
ad-nominando e ad-verbiando o caos do efêmero, seria hoje, após sono profundo,
nem me lembra se sonhei, a plena saudade de manhãs em que regava os canteiros
de flores, amava tocar o orvalho nas pétalas e folhas, dizendo-me estar orvalhando
as palavras, sorrindo de soslaio, a jornada era longa, sem fim. Mister
criar-me, re-criar-me, inventar-me, a verdade, as verdades me esperavam nalgum
terreno baldio de minh´alma, era engajar-me, arrancar-me de mim, destrinçar-me,
a faca afiadíssima de dois gumes do efêmero e eterno cortava-me em todas as
direções, dilacerava-me, a minha missão era o eu poético, utensílio que
amenizaria as dores da contingência, dialética da náusea e dogmas do
"ser". A força do sonho; haveria de ser quem sou, as letras não
mentiriam, a verdade do "sou" seria registrada pelos dedos das mãos.
Hoje estaria sentindo e pensando estar bem distante ainda do que sonhava
realizar, são apenas garatujas fortuitas, quanto mais eu ando mais vejo
metafísicas e metáforas na poeira das estradas, NO TEMPO DAS ÁGUAS LAMA PURA.
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Houvera de pretéritos éritos de lembrança, inda que
ínfima, do alpendre do interior da casa, a tampa da cisterna arrastada, o balde
d´água sobre, a manivela que re-colhia a água, aproximei-me com todo o cuidado,
deitei no chão, olhei o fundo, o que me viera naquele instante, que um pouco
mais fundo, a visão não alcançava, água, quiçá o cheiro de terra me haja
tocado, o gosto, sabor da água, após filtrada, traz em si a terra, que sabor
inestimável. Olhei a mesma cisterna com a honestidade de quem não se engana com
o que olha, como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e vive, e morre, e
olha. Mudou-se a rua da infância, da juventude, símbolos obscuros se
multiplicam, vem um sopro que cresta-me a face e dissipa, na praia, as
palavras.
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As dificuldades são esquivas, tomando em
consideração estarem fundadas e estabelecidas na obtusidade do nada,
nadificidade do obtuso; equívocas: as dúvidas que se a-nunciam são unicamente
uma fantasia para semente de outras tentativas e esforços. Diante de minha
adoração possessiva poderia retrair-me e jamais voltar a cuidar delas,
transformá-las em facilidades, fazê-las curvarem-se, mostrar-lhes que não é tão
fácil vencer-me, sou osso duro de roer, sou cabeça dura. O silêncio arrogante
refugiou-se no coração, a solidão prepotente se entrelaçou nos liames do
passado e presente, o deserto do ser e não-ser se alinhou nas teias das
esperanças e fracassos. Somente os ouvidos aguçados conseguem de-cifrar o
soluço de vida, o murmúrio de ser, no coração enigmático das palavras.
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Não são grupos submergidos nas geleiras da insônia
e entressono, e que deixam desnovelar-se, menos que simples palavras, menos que
folha no outono, a partícula sonora a vida em si traz.
(**RIO DE JANEIRO**, 13 DE JANEIRO DE 2020#

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