**LILÁS DE VÊNUS** GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: POEMA



Quero um manto tecido com fios de ouro solar
A tecitura re-flita as a-nunciações dos verbos espirituais
Com seu brilho singular e peculiar,
De modo que seja composto um espectro de luzes,
Considerando o homem o construtor de seu próprio destino.
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O sol é a tensão mística do silêncio
E o místico é o silêncio do sol.
Nas minhas viagens aos mistérios, dúvidas, incertezas,
Ao inaudito, inolvidável,
Ouço as vozes carnívoras, os sonhos verbais,
Que lamentam tempos imemoriais:
E tenho pesadelos indecentes, indecorosos, imorais
Sob ventos doentios, ventos que ziguezagueiam no espaço,
Devaneiam nas ermas planícies, solitárias selvas,
Moribundos, que oscilam, tremem e tremelicam,
Que elevam as folhas e pétalas secas,
Fazem-nas pairar no vazio,
Que fazem cair o verde, o viscoso, a vida delas,
Ao longo do deserto seco, sol escaldante.
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Lilás de vênus florando na floração do alvorecer;
Violeta de ganache esplendendo brilhos e perfumes
Por todos os horizontes;
Rosa amarela edênica des-abrochando e respingando
No solo as gotículas de orvalho da madrugada...
Madrugada silenciosa, madrugada de calor intenso
Cigarras cantando a bel-prazer
Iríasis luminísticas do belo e esplendoroso.
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Sinto-me encantado, seduzido,
Arrebatado por vozes furtivas, efêmeras,
Na realidade passageiras,
No imaginário fugaz,
O eufemismo não está sendo chamado à vida,
A verdade sonha o espiritual
As letras quase ininteligíveis,
Os sentidos quase indescritíveis,
O interdito é a rosa mística das utopias
As utopias, luzes da identidade singular
As significações
– por que não digo os significantes também, não o sei –
Falam de como conceber, inspirar e escrever
Sobre o elixir do eterno
Como se alimentasse as luzes de outras querências.
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Atrás do ser – mais atrás ainda do sensível de si –
Está o teto que trans-cendia através das idéias,
Pensamentos e sensações,
E aí conquistei o desejo, entregou-se ele a mim,
Não de mãos beijadas, esperou a autenticidade do verbo
Que eu olhava com olhos de lince,
com intenções de serpente maligna
- ou de espírito malígno? -, de cobra ferina.
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De repente, verto algumas lágrimas
Aprofundei-me em mim e encontrei que eu quero a vida,
E o sentido oculto, resultado e conseqüência
De minhas ausências e limites de escrever a vida,
Tem uma intensidade que tem luz.
É a luz secreta ou as trevas de passado remoto,
Meu rito é purificador de imagens e de espírito,
De forças sensíveis e transcendentes.
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Estou tão amplo, tão pleno.
Sou coerente: meu cântico de vida e verbos é profundo,
É abissal, é abismático.
Há melodia de amor e eu nada posso senão nascer,
Descobrir o que é nascer no alvorecer de outro dia
E estar dis-ponível para a Vida em todas as suas dimensões.
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Tudo atrás do ser,
Tudo atrás do pensamento e idéias,
Tudo atrás das intuições,
Percepções, inspirações.
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Se tudo isso existe, então, eu sou, sou-me.


#riodejaneiro, 17 de janeiro de 2020#
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