ANA JÚLIA MACHADO ESCRITORA POETISA E CRÍTICA LITERÁRIA ANALISA O TEXTO /**FILOSOFIA DO VERBO DE SONHOS**/ SOB A LUZ DO FILÓSOFO INGLÊS HUME - PROJECTO #INTERCÂMBIO CULTURAL E INTELECTUAL#
O fenecimento dissimular enviar-me para bem distante do meu interior,
mas, se me causar apontar repetidamente os dias luminosos da vida, é para
melhor poder enroupar-me de terra e trevas.
Neste aforismo de Manoel Ferreira Neto vou desta vez enveredar por outra
via, já fiz uma análise anteriormente, em que referia o querer da sua mudança
na vida, inclusive da cor da sua choupana, embora tivesse que arranjar um
artista que não fosse descrente à alteração, dado que eles não gostam
muito….mas afirmei que essa parte estava resolvida, pois sua esposa de agora,
facilmente faria a modificação que pretendia, que significava igualmente o
mudar de vida.
Aqui vou referir mais a questão da erudição do verbo, que é o título do
aforismo, baseada em Hume. Uma transformação na escrita possibilitou a Hume
corrigir seu jeito de rebater a essência humana. O efeito pariu um género mais
adequado e mais expressivo nas suas indagações harmoniosas. O preparativo da
retórica abrange nossa análise, por meio de seu complicado enredo e opulento em
formas e meditações tais que apontam a energia realizada pela escrita
bem-falante na sabedoria. Procura-se entender, na conexão entre clássicos e
hodiernos, o que os caracterizava e afastava, a conhecimento, a dissertação.
Segundo Hume, era reconhecido por todos que a expressividade hodierna era
divergente da clássica; os hodiernos acarretavam em ponderação o género
ideológico a partir da dissertação astúcia e da literatura. Um bom modelo que
desvendava a dissemelhança entre a dissertação dos clássicos e o dos hodiernos
era enxergado na apropriada Inglaterra. A resposta humiana era sarcástica,
pois, segundo ele, a maestria de alguns escritores se devia apenas à
dissertação astúcia. O fingido não possuiria uma inquietação de resguardar ou
abrigar o recheio de sua dissertação, elegendo perfilhar a prática e a erudição
a resguardar o talento pela pujança da sua retórica e de como esta poderia
atear encarniçamentos. Para tal feito seriam imprescindíveis talento e
sagacidade de alma, e aqueles que elegiam seguir o curso oposto, segundo Hume,
não possuíam nenhuma relevância sobre os demais, visto que qualquer um com
devoção e dom usual poderia executar dissertação análoga. Os clássicos, para
Hume, eram um modelo a ser ambicionado quando se cuidava do excelso e do verbo.
Como asseverou na seguinte passagem: Mesmo quem não estiver familiarizado com
os nobres vestígios dos antigos oradores pode julgar, a partir de alguns poucos
exemplos, que o estilo de sua eloquência era infinitamente mais sublime que aquele
a que aspiram os oradores modernos. (HUME, 2004, p. 210) Podemos compreender na
menção uma afeição manifesta do verbo clássico por parte de Hume. E o sábio
detinha o verbo dos mais elevados peritos cuja força demonstrativa era
descomunal – Longino, Cícero, Quintiliano, Demóstenes. Estes eram exemplos de
requinte na escrita que espertavam as chamas mais lancinantes da essência
humana, segundo Hume. Eles conseguiram acercar à precisão em suas parémias e
dissertação por meio de uma destreza apurada e de uma sensação incomparável,
cujo remate pariu uma destreza excelsa. O alarido de sua audácia e de seus
desregramentos afogueava a todos os públicos a segui-los. De acordo com o
sábio, era prazeroso escoltar este subterfúgio, mesmo sendo evidentes seus desregramentos.
O que, no entanto, não nos conteria de dispensar ponderação ao género e à
constituição das alegorias e enunciações Hume tinha conhecimento do viço
dissimulado dos discursadores clássicos na edificação de suas meditações,
inspirações e demais alegações. Este reconhecimento, segundo Adam Potkay, levou
o filósofo, astuciosamente, a exibir as artimanhas que estavam sob as figuras
veladas destes oradores. O ponto central que pesava óbice a eloquência
hodierna, na visão de Potkay, era seu recurso desmesurado ao raciocínio e à
alegação. Em decurso disso, o chão expressivo presente ter-se-ia
amplificado sob a esterilidade de uma fala gélida. Para Hume, faltava
aos modernos a sensação e a agilidade dos clássicos, os quais não avistavam
problema algum em suas edificações excessivas, uma vez que elas desempenhavam
uma forma de depurar os erros da alma. Aliás, somente um grande génio poderia,
com a energia de seu linguajar, delinear uma sintaxe tão excelsa quão
bem-falante, e este, o sábio nos narra, será o mesmo em todas as eras. Neste
sentido, transforma-se uma empreitada crítica, segundo Hume, esboçar o
princípio e a queda da genialidade da retórica. É no plano da língua que
achamos sobrevier de forma peculiar sentenças e invenções recentes sobre a
intelecção da essência humana, mediante a indagação das incorrecções dos
sistemas racionais. Suas polémicas e fins convertem-se fatos autenticados pelo
filósofo. Quão à incorrecção de alguns métodos lógicos, Hume afirma: Em meio a
todo esse distúrbio, não é a causa que expugna os triunfos, mas o verbo; e
ninguém carece possuir temor de não achar discípulos para suas suposições, por
mais excêntricas que elas sejam, se for competente o assaz para colori-las em
pigmentações encantadoras.
Muito mais haveria a dizer sobre esta teoria, mas resumo-me simplesmente
a este texto, que para mim tem cabimento no aforismo do Grande filósofo e
escritor, Manoel ferreira neto, que também sabe usar o verbo, para transmitir
suas emoções, aspirações e mutação na sua vida, como expressa tão bem neste
texto.
Ana Júlia Machado
(15 DE JUNHO DE 2018)
#FILOSOFIA DO VERBO DE SONHOS#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
A cena é de uma fazenda situada num vale, a treze quilômetros de
qualquer cidade, seja ela agradável de se viver, seja como a maioria, um
inferninho com todas as suas letras. Não é um vale muito grande, apenas três
quilômetros de extensão e dois quartos de quilômetro de largura. Sua principal
característica é que todas as famílias ali residentes formam uma comunidade
familiar, dessas que todos conhecemos e são mais ou menos interessantes. As
montanhas são montanhas reais, com aproximadamente dois a três mil pés de
altura, e a choupana é uma verdadeira choupana, não (como a de um autor de
imaginação fértil, que deseja ilustrá-la, ornamentá-la de poesia-pensante,
respirando fundo e escutando o velho e orgulhoso som do seu coração. Eu sou, eu
sou, eu sou) uma choupana com garagem para dois carros de passeio.
Deixemos que ela seja uma choupana azul, re-coberta de trepadeiras
floridas, assim escolhidas por ter uma sucessão de flores em suas paredes, que
se incrustam pelas janelas durante todos os meses da primavera, verão e outono
– começando pelas rosas de maio e terminando com jasmins de setembro. Façamos, contudo,
que não seja primavera, nem verão e nem outono – mas inverno, e do mais severo
e radical. Esse é um dos principais pontos na ciência da paz e da
tranquilidade, na filosofia do verbo de sonhos da volúpia e da liberdade. E
fico sobremaneira surpreso – atrás da surpresa não há senão a surpresa a
surpreender-se a si própria – ao ver as pessoas não se aperceberem disso e
considerarem motivo de exaltação e júbilo, de alegria e excitação, de
contentamento e exultação, quando o inverno se vai, ou, quando estiver se
aproximando, esperar que não seja tão severo, apenas um friozinho agradável
para despertar um sono mais tranquilo, eivado de a-nunciações de verdades
outras que ampliam a visão onírica do sonho, a alimentação mais saudável e
gostosa. Eu, ao revés disso, peço todos os anos que caia geada, tempestades que
os céus possam nos oferecer. Certamente, todos conhecem o inusitado prazer e
satisfação de uma lareira no inverno, velas às cinco horas da tarde,
acompanhadas de um chá com pães de queijo, quentes tapetes, uma bela mão para
servi-lo, janelas fechadas, as cortinas caindo em amplos drapeados sobre o
chão, enquanto o vento e a chuva estão enfurecidos lá fora...
A vida passada misturou-se-me com a futura – há uma conversa múltipla e
ambígua, e qualquer coisa indivisível que a atravessa em zigue-zague e é a
minha voz. E houve no meio do salão de fumo, na choupana, um ruído, onde, aos
meus ouvidos, acabara a partida de paciência (e, de repente, a vida fica muito
mais extensa, tão extensa que tudo atrás fica lendário. Lendário?! É um termo
estúpido).
Todos estes detalhes são de uma noite de inverno, numa choupana, numa
fazenda situada no vale, que deve ser familiar a todos quantos nasceram em
regiões altas. É evidente que muitas destas ternuras, delicadezas, como os
sorvetes tomados por uma criança, pedem uma temperatura muito baixa para serem
produzidas: existem frutas que não podem amadurecer sem uma tempestade. Até me
dou muito bem com a chuva, desde que chova a cântaros, pois alguma parte de
minha natureza faz com que eu tenha necessidade disso, do contrário sinto-me
enfastiado, uma ojeriza sem qualquer medida e peso, sinto-me enganado,
tripudiado: já que serei obrigado a gastar dinheiro no inverno, com carvão,
velas e muitos outros artigos que faltam até mesmo a um cavalheiro, quero pelo
menos que seja um bom inverno. Quero um inverno londrino para os meus bolsos,
ou um russo, um carioca, onde cada homem divide com o vento norte a propriedade
de suas orelhas. Em verdade, sou tão epicureu nessa questão que não consigo
saborear plenamente uma noite de inverno se já passou há muito a noite de São
João – a noite de São João é a mais longa do ano – e o tempo começa a degenerar
a caminho das aparências da primavera. Não, o inverno deveria estar separado,
por densas paredes de noites escuras, de toda luz e brilho do sol. Das últimas
semanas de setembro, precisamente a semana de 25 em diante, até o dia de Natal,
assim é a estação da alegria e da satisfação. Pois o chá, seja em que estação
for, apesar de ridicularizado por aqueles cuja sensibilidade é naturalmente
grosseira, ou se tornaram assim por beberem vinho e não serem sensíveis a um
estimulante tão refinado, será sempre a bebida do intelectual.
Não há qualquer necessidade de sentir-me confuso, perder a cabeça,
sentir-me solitário, aliás, sou homem feliz por esquecer as horas todas.
Acalmo-me, bebo um copo d´água, bebo-o lentamente, aprendo a respirar, a
dominar as emoções, a alumbrar as dimensões dos sentimentos. Sento-me por um
segundo, olho, ao redor, a serra das águias através da janela, expulso a
nostalgia, que já não tem direito algum de persistir, desfio as palavras, uma a
uma, semeio música entre elas. Com a terra à sola dos pés, eu, o rebelde que se
recusa a ser reduzido à condição de alienado, resolvo os problemas cotidianos
e, depois de tudo, contemplo, do alto, as serras, que conheço desde o chão até
os menores detalhes. Sento-me perto das estrelas e estendo os braços como se
pudesse tocá-las. Miro o céu, de um lado ao outro, de uma nuvem à outra, com o
olhar repleto de luz, o corpo relaxado, a cabeça leve. Salmodio preces que na
verdade são pedidos precisos, destinados a facilitar o acerto de uma desavença
ou a dispensar um pouco mais de felicidade ou riqueza a algum homem
necessitado. Aqui, ignoro a própria santidade que não evangeliza, sim proscreve
com os dez mandamentos da heresia. Minha felicidade é tão simples. Não sofro
muito com minha condição.
Posso imaginar uma choupana com janelas abertas para um campo a perder
de vista, um jardim florido, para um horizonte acolhedor, para casas onde a
felicidade seja constante, ou pelo menos haja a serenidade dos que sentem
orgulho de si mesmos, os que se ocupam em perseverar no melhor de si.
Paro de sonhar acordado. Jogo as palavras nas dobras de meu diário e
depois fecho. O papel fica impregnado do cheiro de incenso. Morte ao cheiro de
incenso, que queimo tanto nas festividades quanto nos funerais. A morte finge
enviar-me para bem longe dentro de mim mesmo, mas, se me faço vislumbrar
novamente os dias iluminados da vida, é para melhor poder cobrir-me de terra e
trevas.
Mas agora, para afastar-me das descrições longas demais, apresentarei um
pintor e lhe darei instruções para que acabe o quadro que comecei a pintar. Os
pintores não gostam de choupanas azuis, a não ser que estejam sobremaneira
gastas pelo passar do tempo; mas, como o leitor já sabe que estamos numa noite
de inverno, os serviços do pintor serão necessários para o interior da choupana.
Manoel Ferreira Neto
(11 DE JUNHO DE 2016)
(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE JUNHO DE 2018)
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