**O NADA E A ARTE LITERÁRIA - XVI PARTE** - Manoel Ferreira
EPÍGRAFE:
"A poesia se faz entre palavras e silêncios. É belo de doer"
(Chang-Dong Lee)
Mas como é que se caminha pela essência do caminho?
Silva é uma palavra antiga para floresta. Na floresta há caminhos que,
cerrados de vegetação, quase sempre se perdem de chofre no intransitado.
São os caminhos silvestres. Caminhos silvestres são aqueles que, nos
passos ordinários de cada dia, nos abrem silenciosamente passagens
extraordinárias para a selva selvagem do pensamento, por onde o mistério de ser
sempre nos faz passar, quer com passos de filosofia quer com passos de teologia
quer com passos de ciência.
Com as dicotomias das seguranças e certezas, a funcionalidade havia
reduzido tudo às correlações de sujeito e objeto. Todos julgávamos já saber
tudo de tudo: a floresta, o atalho, o chão, o ponto de partida e o ponto de
chegada, o caminho, a caminhada, o caminhar, o caminhante, tudo não passava de
meio para um fim a serviço da atividade de um sujeito visando alcançar um
objetivo.
O esquema funcional, de atividade, meio e fim, escondia-nos a essência
do caminho, que vem do mistério e vai para o mistério da realidade. Agora tudo
mudou. E não só se fez novo, tudo se apresenta cada vez com a novidade da
primeira vez. Todo passo é uma aventura de originalidade; passeando pela
essência do real, nossos passos caminham pela originariedade de caminho,
caminhar e caminhada. A incerteza já não é somente ameaça. É também surpresa. E
é esta ambiguidade que nos faz nascer, com tudo que um verdadeiro nascimento
traz consigo de insegurança, medo, obscuridade, ousadia, surpresa e aventura.
Aparece, então, todo um mundo de coisas que antes nem podíamos ver.
O caminho essencial será mesmo o caminho verdadeiro? É que a trilha
conhecida se perdeu no cerrado da vegetação. Estamos num caminho silvestre. O
esquema de segurança da funcionalidade desapareceu no intransitado da selva selvagem
do pensamento.
Ao tatear em busca de esteio para os pés e arrimo para as mãos, fazemos
uma experiência pretensamente excluída nos esquemas da funcionalidade, a
experiência do nada e do não saber. O desconhecido é um poço sem fundo. Quanto
mais andamos, quanto mais tentamos, tanto mais nos perdemos na perdição do
intransitado.
O mistério silencioso da floresta nos envolve numa paisagem inesperada,
a paisagem do verdor. É a essência da floresta que nos visita com a paixão da
natividade.
Mas quem nos dirá a dimensão temporal da Floresta? Seria preciso saber
como a Floresta vive sua idade avançada, porque não há, no reino da imaginação,
florestas jovens. No vasto mundo do não-eu, o não-eu dos campos não é o mesmo
que o não-eu das florestas. A floresta é um antes-de-mim, um antes-de-nós..
Meus sonhos e minhas lembranças acompanham os campos e as pradarias durante
todo o tempo da lavoura e das colheitas. Quando se abranda a dialética do eu e
do não-eu, sinto as pradarias e os campos comigo, no comigo, o conosco.
No dizer de Chang-Dong Lee "A poesia se faz entre as palavras e o
silêncio..."... Se no abrandamento da dialética do eu e do não eu, sinto
as pradarias e os campos comigo, no comigo, o conosco, a sin-cronia, sin-tonia,
harmonia entre as palavras e o silêncio faz-me re-colher, a-colher a paisagem
na viagem da tragédia do nada ao in-finito, A si mesmo encontra-se o homem
tanto no soar da palavra e na compreensão, que, com a rapidez do vento, tudo
abarca, quanto no silêncio que é a morada da palavra, as palavras têm o
objetivo de revelar o mistério do silêncio do qual elas se originam. A palavra
que não está enraizada no silêncio é palavra fraca e impotente como "um
metal que ressoa, um címbalo retumbante" (1Cor 13,I). Tudo isso só é verdade
quando o silêncio que dá origem à palavra não é o silêncio humano do embaraço,
da vergonha ou da culpa, mas o silêncio divino no qual o amor repousa em
segurança. De seu eterno silêncio, Deus expressou sua Palavra e por meio dela
criou e recriou o mundo. A palavra não rompe o silêncio, e sim revela a a
imensurável riqueza do silêncio divino. Neste sentido, entre a palavra e o
silêncio flora a poesia na sua própria floração.
Na linguagem e pela linguagem podem encontrar-se o poeta e o pensador,
melhor ainda podem encontrar-se o pensador e o poeta que pensa a essência da
poesia. Esta, porém, leva ao encontra do silêncio: não só o silêncio do poeta,
mas do poeta que encontra no próprio vazio e no silêncio a essência negativa da
poesia, a essência que não pode ser dita nem feita.
Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 20 de outubro de 2016)
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