**ARTE DO FEIO BELO** - Manoel Ferreira
É lei que não se pode des-enterrar os mortos antes de cinco anos. Mas
depois de 36 anos, não restam mais nem as cinzas, estão misturadas à terra. Fui
desenterrar os mortos de minha carreira literária, agora estou um pouco
angustiado. Aos coquinhos do nada as minhas bananas bem descascadas.
Des-enterrei, estão des-enterrados.
Cont.Ando para mim foi uma decepção muito grande. Quanto à bebedeira do
lançamento, desde a época assumi. O que mais me decepcionou: os curvelanos
haverem jogado todas as pedras na obra. Professora de Literatura de meus tempos
de estudante de científico haver-me dito que o livro não tinha nenhum valor, o
melhor seria capinar quintais nas residências, mas não insistir em ser
escritor, não tinha dons e nem talentos para isso.
Antônia Cleusa Guimarães tinha ódio mortal de mim. Era tão feia que até
Mefistófeles, se a encontrasse nalguma rua à meia noite, correria léguas dela.
Numa aula sobre o Barroco, a arte do feio belo, enquanto Antônia Cleusa
lecionava, comentei com a amiga Deuscreide: "Descreide, Antônia Cleusa, se
na época do Barroco, seria inspiração para algum pintor, feia do jeito que
é..." Ela ouviu o comentário. Olhou-me de soslaio. Nada disse. Resultado:
no final do ano fui reprovado em Literatura. Estudava na Escola Normal, hoje
Escola Estadual Bolivar de Freitas. Pedi transferência para o Instituto Santo
Antônio, Curso de Magistério, podia fazer o segundo ano, devendo a Literatura
do primeiro ano. Foi a grande decisão: no Instituto Santo Antônio, tive uma
professora, Vilma Simões, casada com meu primo Rodolfo, quem realmente me
ensinou o que é - a Literatura. Mas Antônia Cleusa me odiou o resto da vida
dela por causa de meu comentário.
Na verdade, na verdade, não creio que ela haja entendido os meus contos.
Não sabia Literatura, decorava os manuais para dar aula. Foi professora da
Faculdade de Letras, seus alunos viviam reclamando dela por isto mesmo de
decorar as críticas de autores sobre os períodos literários, sobre as análises
de livros feitas por especialistas, mestres e doutores. Num encontro nosso em
sua residência, quando, em 2000, fui oferecer-lhe a minha novela ÓPERA DO
SILÊNCIO, surpreendendo-me por haver comprado três exemplares, um para ela,
outro para uma amiga e outro para a Faculdade de Letras, perguntei-lhe "Antônia
Cleusa, você ainda continua decorando os manuais de Literatura para lecionar?
Naquela época do científico, você estava começando sua carreira no magistério.
Hoje, professora da Faculdade, já com experiências, não precisa mais disso, não
é mesmo?" "Sim, hoje é diferente. Já adquiri muitas
experiências.".
Desde que me entendo por gente, sempre disse o que pensava e sentia.
Minha mãe sempre me chamou atenção por causa de minha autenticidade, de vez em
quando era chamada na Diretoria da Escola por acinte a professores, rasgar-lhes
os verbos.
No segundo ano de ginásio, reuniam-se o segundo ano A com o segundo ano
B, sala enorme para as aulas de Francês. Num determinado dia, no horário do
intervalo, brincando com um amigo meu numa sala desabitada, só carteiras
velhas, os escombros delas, fui subir no corrimão da escada, escorreguei-me,
rasgando a minha camisa. Peito cabeludo. Na adolescência, tinha vergonha disso.
Fiquei na minha própria sala, não fui assistir aula. A professora foi lá e me
obrigou ir para a sala. Chamou os alunos que chegaram atrasados à frente para
marcar na Caderneta de chamada - as marcações significavam diminuição na nota
no final do mês. Chamou-me. Disse-lhe: "Dona Elisa, veja o meu estado.
Minha camisa está rasgada". Não interessava, tinha de ir à frente. Fui com
os braços no peito, escondendo a camisa rasgada. Os colegas começaram a rir,
olhei-os cinicamente. De imediato a fala de Dona Elisa Lopes: "Vocês
querem saber de uma verdade? Tenho nojo da cara do Manoel". A minha resposta
foi no riste da palavra: "Estamos quites, dona Elisa. Também tenho nojo da
cara da senhora". Levantou-se da mesa, pegou-me pelo braço, levou-me à
diretoria. Minha mãe foi chamada. Suspenso por quinze dias.
É o que sempre disse, digo e direi até o fim de minha vida: "Fico
quieto no meu canto, mas não pisem nos meus calos secos que a resposta é direta
e reta". Nunca fui santo nas escolas, sempre rebelde e revoltado.
Manoel Ferreira Neto
(*RIO DE JANEIRO*, 23 de outubro de 2016)
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