*VORAGEM DE IMAGENS UNIVERSAIS* - Manoel Ferreira


O sino da igreja badala. Meio-dia. Revisto-me, com olhar furtivo. Sentimento de paz invade-me. À noite, recolhida ao leito, deslizo-me por sombras.
Águas entre mortais conhecidas. Somos para elas coisa estagnada, ficamos para aqui exilados. Olho-as fascinada, olho-as sempre e uma interrogação milenar na minha garganta.
Águas entre-cortadas. O milagre está em ti. Tu abristes os olhos num grande susto e deitastes fora a tristeza toda. Diante de ti pensava em fugir. Tu não me vias. Olho-te e sei que está longe.
O que me foi - proximidade com a fluidez universal. Sensações. O que me foi - silêncio dos sons presentes. O que me foi - uni-versalidade do verbo trans-crito de regências de sin-estésicos sentimentos. O que me é - vida.
O desespero enfraquecido. A angústia fracassada. A agonia frustrada. O que me foi - linguagem separada, a língua reunida. A civilização abandonada a esperar o reencontro. O que me foi - ritmo alterável. (Imagem instável e desordenada do nada). Revelando a lucidez sem memória.
Vou esgoelar. Confessar que o silêncio foi um incenso. Um enigma a par. Além das águas, vou criar nome. Asas do condor. Claridade. O que me foi - distanciamento da frieza. Loucura domina quem sou.
Emocionada. O badalar dos sinos. Reveste de lisura o universal. O passado diverte-me. O rio silencia-se, caindo a noite. Espectro, abismo. Retenho as poeiras de ser quem sou. Exausta. De ser banida. De ser expulsa. De ser companheira. De ser cassada. Exausta. De silenciar-me. Calar-me. Emudecer-me.
O que me foi - cenas do amor seguinte. Vou tricotar linhas e desvendar o mar. Desaparece. Liquefaz. Abisma. Desgoverna. Cai o manto da preguiça.
O que me foi - galhos naufragados, espumas abismando águas. O que me foi - folhas conflituosas, veículos desgovernando estradas. O que me foi - baladas entristecidas, pingos de orvalho caindo rechaçados.
O que me foi - sibilos desconstituídos, fumaças liquefazendo maquiagens. Há as ondas, mas há, para além, os passos de quem locomove e traz às vezes o ritmo nas docas, no cais, vozes. Nas margens de uma estranha nuvem, a linha de um eucalipto esfuzia até ao indizível.
O que me foi - ventos insubstanciados, véus desaparecendo desorganizados. Águas entre(mentes) estendidas. Abundantes, imitam as evidências todas. Alguma coisa assusta-se e fico à escuta. Tenho medo de mover-me. Alguém me chama? Respondo. Aguardo uma palavra que ecoe no quarto vazio. Sequer um rumo.



Manoel Ferreira Neto.
(09 de maio de 2016)


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