Sonia Gonçalves ESCRITORA E POETISA COMENTA O AFORISMO 141 /**DÁDIVAS DE ESPÍRITOS LIVRES QUE MORAM NAS MONTANHAS**/
Boa tarde Manu...Texto espetacular! Mais um aforismo delicioso de se
ler, uma viagem às montanhas neblinadas!!! Quem poderá saber, né Manu, se tudo
que vivemos não é um Déjà-vu, muitas vezes nos dá essa impressão, estou tendo
essa agora nesse momento de já ter lido seu texto e ter dito exatamente isso.
Parabenizo-o mais uma vez e o farei ainda centenas, milhares de vezes Manu. Sua
criatividade é um espanto!!!Amei cada detalhe....Bjos Grata.
Sonia Gonçalves
Em verdade, caríssima amiga e escritora/poetisa, Soninha Son, tornou-se
uma viagem, a partir do instante em que representei as "montanhas
neblinadas...", um devaneio, um desvario, mas treze anos morei no Vale do
Jequitinhonha, cidade histórica e patrimônio cultural da humanidade, Diamantina,
construída no abismo, cercada de montanhas, e eu diversas vezes pela manhã,
subia ao topo, tinha os caminhos, da neblina na montanha observando a neblina
da cidade. Criei este Aforismo. Amo as tramóias, trambiques, gatunices do
estilo e linguagem, embrenho-me na criatividade. As sensações, percepções,
intuições são estas mesmas: tudo se assemelhar a Déjà-vu. Todas as vezes que se
sobe à montanha neblinada é como se houvesse sempre vivido. É uma experiência,
vivência mágica esta de olhar a cidade de cima de montanha neblinada. Acredito
que já tenha lido uma versão dele, está é outra. Lembrou-se-me de um
comentário, incluído nele o Dèjá-vu, bem semelhante. Re-finei os dois
parágrafos finais, último retoque na dialéctica do olhar a montanha neblinada
das ruas e alamedas da cidade, olhar a cidade neblinada de cima da montanha.
Muchas graças pelo reconhecimento e amizade.
Abraços nossos.
#AFORISMO 141/DÁDIVAS DE ESPÍRITOS LIVRES QUE MORAM NAS MONTANHAS#
GRAÇA FONTIS: ESCULTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Lá fora, a noite tão longínqua! Sonho e de por trás da minha atenção
sonha comigo alguém... E eu, que pela manhã da distância, da lonjura que vai o
dia quase a esqueço, é ao lembrar-me dela que sinto em mim desejos os mais
excêntricos, os mais inusitados de num recanto afastado da sabedoria o ritmo
íntimo das vozes que ouço a dizer-me próximo à alma do alto silêncio; sinto em
mim o espanto que as horas de desassossego, para além da linha externa das
montanhas são hábitos de estilo, costume de formas, e para além dessa não há
nada...
Os olhos não são escuros, mas claros, e é apenas a sombra das longas
pestanas que os escurece. Penso poderia estar alhures. De mim já se afastou a
última esperança. Acaso a natureza ou nobre alma agora um bálsamo não têm, que
me traga bonança? Por vezes, não sinto limites no corpo. Con-templo ora o
sorriso cínico e irônico, revelando rebeldia e meditação acerca de o
cristianismo com-templar a morte e não a vida, dizendo-me da melancolia e
nostalgia. Ponho em nível de suas sensações as extremidades algo longínquas das
mais nobres emoções. Imagino estar algures.
Hesito, agora, em continuar a idéia que se me revelou na mente. Não há
muito que, encostando-me ao parapeito da janela, após a estiada da chuva,
olhando à distância a neblina, e agora, tudo se me afigura um sonho. O coração
bate descompassado, não estou nem um pouco consciente da emoção que se me
revelou a ponto de o coração bater descompassado, para isto, para o fazer bater
descompassadamente, há-de ser algo emocionante, inusitado. Em princípio, ouço
com um sorriso calmo e paciente, que raras vezes me abandona; mas, pouco a
pouco, uma expressão de espanto e, em seguida, de medo transparecem e se me
fixa no olhar. O sorriso não desaparece de todo; mas, por momentos, parece
vacilar.
Na neblina da montanha, chovera por quase três dias seguidos, pela manhã
de hoje estava toda encoberta, já vislumbro e vejo as musas passarem dançando,
e, em que depois, descansando quieto no equilíbrio da alma matinal de por baixo
de alguma árvore, encostado ao seu tronco, dessas copas e ramagens me sejam
lançadas coisas novas, inusitadas, excêntricas e claras, dádivas de espíritos
livres que moram na montanha, no bosque e na solidão...
Tudo aquilo, das coisas, que pode andar, caminhar, não deve já, uma vez,
ter percorrido esta vereda da montanha? Tudo aquilo das coisas, que pode
suceder, acontecer, não deve já, uma vez, ter acontecido, passado,
trans-corrido, de-corrido?
E se tudo já existiu?
(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE AGOSTO DE 2017)

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