#AFORISMO 217/CORREÇÃO DE LINGUAGEM E ESTILO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Ocorre-me uma re-flexão imoral, que é, ao mesmo
tempo, uma correção de linguagem e estilo. De imediato, lendo este início, o
questionamento vem à superfície, por curiosidade, nenhuma por sabê-la:
"Quê re-flexão imoral é esta?" Querem saber da imoralidade, a criação
dela a critério de cada um, eis por onde suspender a querência de a imoralidade
estar ligada à sexualidade, sensualidade, por que a censura? A correção da
linguagem e estilo deixou tanto a desejar, melhor seria chamá-la de re-flexão
imoral.
O sol estava claro e diáfano: vinhozinho branco. A
luz do sol mal aflorava os corpos, não lhes dava sombras nem relevo. Todos os
homens de sobretudo pareciam flutuar suavemente a algumas polegadas do chão. De
quando em quando, o vento empurrava em direção aos que estavam sentados,
tomando o seu drink na calçada do restaurante sombras que tremulavam como água,
os rostos se apagavam por alguns instantes, ficavam cor de giz.
Era domingo: a multidão na Praça da Liberdade,
entre as algazarras, se des-fazia em pequenas vagas, para se perder nos
caminhos, por entre os jardins. Observava todos os rostos, quase rejubilados no
verdor de uma manhã de domingo. Banhados de sol, exprimiam apenas a calma, o
relaxamento, uma espécie de preguiça e obstinação. Prouvera ao céu não lhes
houvesse doado a diversão, o lugar, os gostos, os interesses, a personalidade e
o modo de vida. Senhora observava absorta o artista pintando o rosto, os gestos
com o lápis.
Não padecia sensação de enfado, pinturas em série,
paisagismos, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumultuavam-se dentro, vinham
umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o
anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos
ganhados. Imagens... cores... e visões. À tarde, no entardecer, sentado no
banquinho de madeira da república, lembranças do passeio na Praça da Liberdade,
pessoas passando, algumas indo à Igreja, três quarteirões depois.
Cada instante só surge para trazer os que se lhe
seguem. Apegava-me a cada instante com todo o meu coração: sabia que era único,
insubstituível. Às pinturas e as esculturas dava maior atenção ao
contemplá-las, no banquinho de madeira, relembrava o que havia observado. Mas
no restaurante, FIM DE TARDE, tomando uma cerveja acompanhada de gim,
garatujava algumas coisas que pensava enquanto comia os quadros com os olhos,
descrevia os sentimentos.
Um deleite matutino, dominical.
(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE SETEMBRO DE 2017)
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