NÁUSEAS DA COR DO VELO QUE ROLA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: POEMA



EPÍGRAFE:


O barco faz o que as águas querem. A infinitude do oceano inscreve nas águas a liberdade dos remos. Puxo a voz acima das origens.(Manoel Ferreira Neto)
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Lucilo em devaneio lumioso
Os instantes pretéritos de reminiscências,
Mágoas, ressentimentos,
Ódios, ofensas, humilhações;
Valores artificiados com esmero e engenho
Declinariam preconceitos, discriminações,
Inocência: re-conhecer as coisas
Prescinde de sensibilidade,
O saber de seu objeto,
O tempo emoldura o retrato das entregas, labutas,
A imagem refletida na tela são o vivido, vivenciado,
O destino fora traçado com o lápis dos desejos,
Presentes, fortes, lúcidos a existência e o destino,
Habitam-me, silenciosos, silêncio sepulcral,
Desejos são estercos metafísicos das intenções,
Utopias, Esperanças todas...
Arre!... Existo,
E-xis-to,
E--xis--to,
Vazio o povo, indivíduos, cidadãos, homens
No meio de quem
Andei nas calçadas, ruas,
Praças públicas...
Renegado... Trilho meu ser plástico,
Pena e águas, tinta e silêncio, solidão,
Amor e luzes,
Liberdade e cores.
Não estou no mundo para jogar
O pôquer da farsa, hipocrisia, falsidade.
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Lucilo vago iluminado,
a rua escassa,
rala e íngreme da humanidade,
e a lucidez, transparência da perplexidade
furam-me a pele, parecendo pua.
Ladeiras insones que galgo aflito,
ansioso, até temeroso,
derramando essa luz mentirosa,
esses raios imaginativos, criados e fantasiados
– não chegam a ser sussurro, cochicho, murmúrio.
A consciência é frágil flor
que agoniza cumprindo o velho rito
sob os rios da aurora pressurosa,
do crepúsculo esplendoroso,
da noite sonhadora.
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Se no caldo escuro, viscoso da insônia,
fluísse a água pura da reminiscência
e eu molhasse a memória e a fronha
com a mádida lembrança da inocência
de meu passado,
ah, limpo, nítido, em clara infância
onde tudo era simples,
tão transparência, tão nítido e nulo,
não debatia ainda em rios de ânsia
nem mergulhava nas águas oceânicas da vivência;
mas em raso córrego carregava o riso,
nadava tranqüilo, o mundo dava pé.
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Lucilo disperso alumiado,
a madrugada leniente,
leniência que en-vela os abismáticos
questionamentos do Ser,
as náuseas da COR do VELO que rolam
nas égides da hipocrisia, falsidade, farsa,
que no baldio de princípios edifica
a ausência de caráter, de personalidade,
dignidade e honra, de quaisquer valores,
virtudes da Vida,
o vazio pleno institui com louvor e glória,
e a angústia, trans-parência da insatisfação,
Fizeram-me sentir perdido,
sem cafundós...
Não sou deste mundo.
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Compondo o glorioso crochet da Liberdade,
Consciência, Saber,
Puxo a voz acima das origens.
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Suave é viver as ondas marítimas...


#riodejaneiro, 04 de março de 2020#

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