#SILÊNCIO DAS TREVAS# GRAÇA FONTIS: PINTURA Fesmone: POEMA NOIR



Silêncio das trevas,
Que vazio preencheria os lapsos de quimeras,
Que nada despertaria, na inteligência, o invisível,
Na razão, a invisibilidade visível?
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Há inúmeras árvores no quintal,
Algumas tem copas frondosas,
Esticam os seus galhos,
Golpeiam o vento, tentam entrar,
Morrem quando anoitece.
Permaneço sentado à mesa da sala de estar,
Ouço o rugido de ondas agitadas na orla marítima
E seguro dentro de minha mão
Grãos de areia dourada,
Re-colhidos na amurada de pedra,
Circundando uma igrejinha,
Fascinou-me o dourado,
Há uma escada em espiral
A ser descida, o porão da residência,
Estaria mais seguro da tempestade
Que se aproxima,
Numa visão ou nada mais
Tudo o que vejo no silêncio das trevas
É nada além de um sonho dentro de um sonho,
Idéia que toda a existência encerra
Em música de sons tão singulares,
Ritmo, melodia, acorde,
e belos, que na selva têm seus lares,
Há uma ou duas estrelas no céu,
Uma de sexta grandeza dupla e mutável,
Encontra-se próxima da grande estrela da Lira,
Sinto-me invadido por ela,
Tomado por ela, fora de mim-mesmo,
Ouvindo certos sons de instrumentos de corda,
Vindos de algum lugar, deve ser do apartamento ao lado,
Dor alguma o inferno agora pode trazer,
Que me faça medo, faça-me estremecer,
Deste instante-limite, aquando falta energia elétrica,
No silêncio das trevas,
E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão longe,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrela da Verdade?
As in-verdades eternas em meu vazio,
Dizendo-me se no Éden de outra vida
Verei essa hoje perdida entre segredos e enigmas,
Entre mistérios e ausência de respostas,
Essa cujo nome sabem as contingências do existir!
As verdades efêmeras deambulando o nada
De seus caracteres,
Nos sons enfeitiçados do pêndulo do relógio
Suspenso na parede...
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando
Que os ninguém sonhou similares.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, e o eco disse aos meus ais:
- Isso só e nada mais.
@@@
O mundo é mangue. A terra nunca mais.
Nada mais que isto são eles!
Na fronte sem abrigo
Esparze a chuva rude,
O vento torna-me desatinado,
Em delírio, delíquio,
Cego, ensurdecido,
Recorda-me haver-me debruçado
Sobre folhas de ciência dos ventos,
Lendas, causos, mitos,
Invisíveis,
Sentidos se perderam em fantasias,
Desejos e intenções do sublime sibilo
Que ascendem aos céus,
Vindo das profundezas abismáticas,
Por fim, em nada,
Enquanto as trevas em sol transformam-se
E metamorfoseiem-me em algo mais...
Sonhado sem pensar, malpensado
Vejo os meus dias nulos decorrerem,
Ouço as horas inúteis passarem lerdas,
Leve correr dos minutos sem ação,
Noctívagos sonhos de vaidade impura,
E as coisas mais sombrias, porque reais
(as sombras... sombras densas,
sombra que desliza através de sombras,
brilho frio, brilha um átimo de segundo
a uma luz fúnebre estranha, estrangeira,
e uma luz bem mais obscura!),
Des-folhado de adereços,
Protegido no espírito,
Sou efígie,
Minha voz cai nas trevas do silêncio,
Até em sonho dentro de um sonho
Entôo os sons das perquirições mais profundas,
Inda não me fora dada a dádiva
De sonhar
Nos outeiros
esparsos, de bosquetes coroados,
rumorejando com seus mil ribeiros...
E a minhalma mais e mais
Libertar-se-á...
A cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
@@@
Tive pouco tempo deste sonho
Para entardecer os sentimentos,
onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Na insônia, tenho a esperança de
Amadurecer a percepção e visão
De um lugar de sombra onde
Imperem as emoções,
A esta noite e este segredo,
A este sonho dentro de um sonho,
A esta casa de ânsia e medo,
dize, oh silêncio das trevas,
a esta alma a quem atrais
se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Ante o poético sentido da palavra,
Produzir a floração e maturação
De todas as forças,
Não consentindo o surgimento de ervas daninhas.


#riodejaneiro, 03 de março de 2020#

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