CRÍTICA LITERÁRIA POETISA E ESCRITORA Ana Júlia Machado ANALISA E INTERPRETA A SÁTIRA #Nadica de Nada#
Nesta sátira/ heterónimo do escritor Manoel
Ferreira Neto “*NADICA DE NADA*onde intitula-se como o Quinzinho de Parafusos a
Menos, é sem dúvida uma crítica à sociedade, quem somos, do que habita por si e
por si…está aqui patente a intenção de refazer uma trajetória do malandro,
personagem-tipo comum em diversas acções de um dramaturgo, com a intenção de
elucidar um pouco mais os comportamentos harmoniosos abrangidos no feito do
autor.
***
A eleição do parasita, ao mesmo tempo que está a
facultar e acrescentar a erudição (pessoal e profissional) nas mais distintas
áreas das ciências humanas. Até a Primeira Guerra, aguçou-se (não sem
padecimento) o raciocínio analítico quanto à aplicação dos cognomes dados, ou
impostos, nas mais distintas forças sociopolíticas e científicas. Afastar o
facto cortês do artístico igualmente se apresentou um repto ao trabalho, assim
como diferenciar as discrepantes revelações harmoniosas de tal personagem, seja
na melodia, no teatro ou no romance, a fim de elaborar a pequena análise e
parâmetros para perceber esta personagem.
***
À medida que vou lendo, analiso que mesmo aqui o
malandro não se deixa ―amarrar, ora
é o miserável, ora o fanfarrão, ora o libertino, e por aí vai. Tão-pouco seu
papel, nos fragmentos eleitos, é exclusividade do grupo masculino, de destinada
categoria social, ou etnia. Homens e mulheres, ricos ou pobres, brancos ou
mulatos combinam a ampla tribuna de Quinzinhos emersos no escrito do autor. E
apesar de, na sociedade, o malandro seja um infortúnio, pois deteriora,
propositadamente ou não, alguém, sua récita artística possibilitará à
coletividade deleitar-se, ainda que por pouco tempo, o sabor da independência,
da infracção, da bravura, do triunfo do ―débil / versus o ―forte, de chacotear dos possantes, de cobiçar à
vontade, sem ter que comprometer-se. ―O auditor detém-se do lado do falacioso não porque
o povo aplauda o engodo, mas porque o defraudado é bobo, medíocre, pouco
espevito e coloca-se a jeito para ser ser burlado visto que o essencial
resultado da malandragem é ―subir seja a
que custo for alguém, o teatrólogo não desvendará complicações em criar pessoas
susceptíveis de serem atraiçoadas, a sociedade e os valores atuais tudo
possibilita Aliás a conclusão que tirarmos do dia-a-dia, quanto mais a plebe
sente-se abandonada, marginalizada, degredada dos planos ministeriais e
maltratado nos seus direitos ínfimos, mais essencial é a aparência do Quinzinho
dos Parafusos. Sempre habilitado a executar o ofício de, pelo rir, acalmar,
suspender, a circulação do ―engenho de
ruminar sensualidade em que muitas ocasiões se alteram no mundo real.
***
Será papel do escritor nesse caso, graças a sua
fina competência de análise e sensação (acedida por Hermes, criador do
intercurso, quiçá), reproduzir essa figura e pô-la em circulação, o Quinzinho é
um grande pensador que entoa, baila, habita o instante e regozija-se. Deambula
e vai do Rejo da imaginação ao mais modesto pardieiro, encontra-se acompanhado
ou acossado por mulheres, arremessa-se. Nem sempre se dá bem, mas, enquanto
resistir a encenação, interpreta, e bem, o seu papel.
***
E seu fecho não deixa de ser o quão bem representa
este papel- remição, na eventualidade mesma residirei saboreando o paladar das
sensualidades da independência e do discernimento.
***
Como sempre deixo para o escritor a liberdade de
fazer com o comentário o que bem entender. Pois fico com a sensação que algo
falta ou não condiz com o que o escritor redigiu e sua ideia.
Ana Júlia Machado
@@@
De excelência a sua análise e interpretação, Aninha
Júlia. Condizente com a obra, com o seu interdito, Ópera do Malandro, de Chico
Buarque de Hollanda, a minha inspiração. E Quinzinho de Parafusos a Menos é o
malandro pensador da quotidianidade das coisas e do mundo. Um malandro na minha
obra tinha de haver, pois que sátiro de condutas e posturas morais e éticas
satirizando o mundo e a sociedade sugere um pequeno burguês, tirando o corpo
fora de suas traquinices pequeno burguesas, mas um malandro, aí sim, vira o
mundo de cabeça para baixo, toca a alma dos homens e da sociedade, donde já se
viu um "malandro" criticar a normalidade das coisas humanas. Com este
texto, descobri que a sátira dos marginais adentra tanto na alma dos homens, da
sociedade que a corrói ipsis litteris. E são eles que tem a chave para a consciência
da viperinidade da humanidade. Seria mesmo que Quinzinho tenha parafusos a
menos? Não. Tem parafusos muito a mais.
***
Parabéns pela análise percuciente, aliás de sua
maestria como crítica literária. Beijos nossos a você e à nossa netinha Aninha
Ricardo.
@@@
**NADICA DE NADA**
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Quinzinho de Parafusos a Menos: SÁTIRA
@@@
Engolir o nada inteiro, mesmo mastigando bem, é
difícil: pode ficar atravessado na garganta e levar a egregíssima pessoa à
morte, pode ser indigesto, causando indesejável diarréia, daquelas que é melhor
ficar sentado no vaso o dia inteiro, gritando alguém: "Traz um gole de
café para mim!" ou "Traz o meu suquinho de jenipapo". Então,
como o nada é delicioso, só de falar nele a boca fica saturada, o aconselhável
é comê-lo às nadicas, pedacitos pequeninos, sente-se-lhe o gostinho, um primor.
Nadica de nada à passarinho com um aperitivo faz-se necessária a moderação.
@@@
Não é só comestível o nada, a nadica de nada, serve
a outros propósitos sutis e são mais que recomendáveis para a vida fresca e
saudável.
@@@
Nadica de palavras para dizer o que se pensa e
sente, não um resumo, não uma economia, não uma síntese, mas a essência, mais
ou menos o "dizer na lata" dos paulistas e paulistanos.
@@@
Palavras à nadica de nada frontalmente é pior que o
sacratíssimo sapo seco na garganta por sempre, jamais se terá resposta, a
nadica obstrui os neurônios, necrosa os miolos e o cidadão por toda a
eternidade ficará con-templando ao léu do vazio a imbeciloidia. Deus me livre
de palavras à nadica.
@@@
Nadica de preconceitos, discriminações... Conforme
forem eles a Lei bate com o martelo, ver-se-á o sol nascer quadrado, as
estrelas convexas e côncavas. Mas preconceitos e discriminações à nadica, dose
a dose, côdea a côdea, soma o absoluto da verdade, e nem Deus vai negar: de
bago em bago enche-se o papo.
@@@
Nadica de preceitos morais e éticos: o bem não
vence o mal, o mal não é vencido pelo bem, o eterno é a redenção das
contingências, o efêmero é a ressurreição das náuseas e vazios, nossa, a vida
no mundo e no além é a plenitude do tempo, de trigo em trigo, de joio em joio,
a bestialidade dos conceitos e definições se fazem presentes, presentificam-se
nas frestas do vazio das nadicas do nada, do nada de nadicas.
@@@
Nadica de valores eternos, do absoluto das verdades
imortais, temperada com sal grosso, pimenta malagueta, se se quiser, pimenta do
capeta, limão galego, desperta e alimenta os instintos do coice afiado para as
hipocrisias e simulações, só a sombra delas, ainda que furtiva, já leva um tão,
tão bem dado que atravessa todas as fronteiras do inferno, indo parar nas
terras serenas do "PQP". Aconselha-se o temperado moderado porque as
orelhas da pessoa podem ficar em pé, tempestade de vento não as abana mais.
@@@
Nadica de poemas de amor endereçados à amada, sem
revelar o nome do remetente, acelera-lhe o coração, faz-lhe sentir aquele
frenesi na libido, só lhe restando ler as obras de Apuleio ou as do satírico
Manoel Ferreira, para o clímax perpétuo.
@@@
Nadica de solidariedade, com tempero à moda gaúcha
de churrasco, de maledicências, farsas, dissimulações, é asseverar com garantia
e segurança, depois do Juízo Final, frente ao eminentíssimo São Pedro,
refestelar na sombra da Árvore Proibida, antes de ir para as prefundas do
inferno, o paraíso celestial é apenas baldeação.
@@@
Nadica de taradice, temperada a molho pardo de
frango ou galo velho, canela de perdiz de preferência, faz a vítima do estupro
gozar de paixão e êxtase, a violência é fissura do capeta por estar no lugar do
tarado. Aconselha-se ao tarado colocar meia xícara de açúcar no molho pardo ou
na canela de perdiz, caso contrário jamais, em tempo algum, sua
"coisinha" se erejerá... De tarado a viado o limite é ínfimo, num
átimo de segundo a ruela gira.
@@@
Nadica de analfabetismo, daquela que conjuga o
verbo Ser sempre no "era" deixa de ser imperfeita, torna-se perfeita,
se o analfabeto entrega-se de corpo e alma a comer e degustar as salsinhas da
estupidez, aquela que sintetiza o desejo incólume, insofismável da essência do
nada da inteligência e sensibilidade e o absoluto das verdades.
@@@
Nadica de nada - leitura não assídua, pois que o
risco de nadicar pilhérias, mangofas, sátiras, sarcasmos, ironias, cinismos,
assim isentando-se por completo da consciência de que o mundo e as coisas são risíveis,
dizem haver sido castigo de Zeus por o considerarmos o deus dos despautérios, e
nadica de nada é o manifesto da humanidade em prol da liberdade e da fissura
por criar o mundo - existe e sempre existirá, mesmo que o Tempo seja abolido, o
futuro é para a frente e para trás e para os lados.
@@@
Nadica de quem sou, de quem vive de mim e por mim,
só no nada do efêmero; vazio, náusea do ser e não-ser satisfazem o meu apetite
do eterno, ressurreição, redenção, na contingência mesma estarei degustando o
sabor das concupiscências da liberdade e do livre-arbítrio.
#RIODEJANEIRO, 06 DE MARÇO DE 2020#
Comentários
Postar um comentário