**NADICA DE NADA** GRAÇA FONTIS: PINTURA Quinzinho de Parafusos a Menos: SÁTIRA



Engolir o nada inteiro, mesmo mastigando bem, é difícil: pode ficar atravessado na garganta e levar a egregíssima pessoa à morte, pode ser indigesto, causando indesejável diarréia, daquelas que é melhor ficar sentado no vaso o dia inteiro, gritando alguém: "Traz um gole de café para mim!" ou "Traz o meu suquinho de jenipapo".  Então, como o nada é delicioso, só de falar nele a boca fica saturada, o aconselhável é comê-lo às nadicas, pedacitos pequeninos, sente-se-lhe o gostinho, um primor. Nadica de nada à passarinho com um aperitivo faz-se necessária a moderação.
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Não é só comestível o nada, a nadica de nada, serve a outros propósitos sutis e são mais que recomendáveis para a vida fresca e saudável.
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Nadica de palavras para dizer o que se pensa e sente, não um resumo, não uma economia, não uma síntese, mas a essência, mais ou menos o "dizer na lata" dos paulistas e paulistanos.
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Palavras à nadica de nada frontalmente é pior que o sacratíssimo sapo seco na garganta por sempre, jamais se terá resposta, a nadica obstrui os neurônios, necrosa os miolos e o cidadão por toda a eternidade ficará con-templando ao léu do vazio a imbeciloidia. Deus me livre de palavras à nadica.
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Nadica de preconceitos, discriminações... Conforme forem eles a Lei bate com o martelo, ver-se-á o sol nascer quadrado, as estrelas convexas e côncavas. Mas preconceitos e discriminações à nadica, dose a dose, côdea a côdea, soma o absoluto da verdade, e nem Deus vai negar: de bago em bago enche-se o papo.
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Nadica de preceitos morais e éticos: o bem não vence o mal, o mal não é vencido pelo bem, o eterno é a redenção das contingências, o efêmero é a ressurreição das náuseas e vazios, nossa, a vida no mundo e no além é a plenitude do tempo, de trigo em trigo, de joio em joio, a bestialidade dos conceitos e definições se fazem presentes, presentificam-se nas frestas do vazio das nadicas do nada, do nada de nadicas.
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Nadica de valores eternos, do absoluto das verdades imortais, temperada com sal grosso, pimenta malagueta, se se quiser, pimenta do capeta, limão galego, desperta e alimenta os instintos do coice afiado para as hipocrisias e simulações, só a sombra delas, ainda que furtiva, já leva um tão, tão bem dado que atravessa todas as fronteiras do inferno, indo parar nas terras serenas do "PQP". Aconselha-se o temperado moderado porque as orelhas da pessoa podem ficar em pé, tempestade de vento não as abana mais.
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Nadica de poemas de amor endereçados à amada, sem revelar o nome do remetente, acelera-lhe o coração, faz-lhe sentir aquele frenesi na libido, só lhe restando ler as obras de Apuleio ou as do satírico Manoel Ferreira, para o clímax perpétuo.
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Nadica de solidariedade, com tempero à moda gaúcha de churrasco, de maledicências, farsas, dissimulações, é asseverar com garantia e segurança, depois do Juízo Final, frente ao eminentíssimo São Pedro, refestelar na sombra da Árvore Proibida, antes de ir para as prefundas do inferno, o paraíso celestial é apenas baldeação.
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Nadica de taradice, temperada a molho pardo de frango ou galo velho, canela de perdiz de preferência, faz a vítima do estupro gozar de paixão e êxtase, a violência é fissura do capeta por estar no lugar do tarado. Aconselha-se ao tarado colocar meia xícara de açúcar no molho pardo ou na canela de perdiz, caso contrário jamais, em tempo algum, sua "coisinha" se erejerá... De tarado a viado o limite é ínfimo, num átimo de segundo a ruela gira.
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Nadica de analfabetismo, daquela que conjuga o verbo Ser sempre no "era" deixa de ser imperfeita, torna-se perfeita, se o analfabeto entrega-se de corpo e alma a comer e degustar as salsinhas da estupidez, aquela que sintetiza o desejo incólume, insofismável da essência do nada da inteligência e sensibilidade e o absoluto das verdades.
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Nadica de nada - leitura não assídua, pois que o risco de nadicar pilhérias, mangofas, sátiras, sarcasmos, ironias, cinismos, assim isentando-se por completo da consciência de que o mundo e as coisas são risíveis, dizem haver sido castigo de Zeus por o considerarmos o deus dos despautérios, e nadica de nada é o manifesto da humanidade em prol da liberdade e da fissura por criar o mundo - existe e sempre existirá, mesmo que o Tempo seja abolido, o futuro é para a frente e para trás e para os lados. 
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Nadica de quem sou, de quem vive de mim e por mim, só no nada do efêmero; vazio, náusea do ser e não-ser satisfazem o meu apetite do eterno, ressurreição, redenção, na contingência mesma estarei degustando o sabor das concupiscências da liberdade e do livre-arbítrio.

#RIODEJANEIRO, 06 DE MARÇO DE 2020#

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