CRÍTICA LITERÁRIA POETISA E ESCRITORA Sonia Gonçalves COMENTA O AFORISMO /**QUANDO O MORTO FALA POR SI**
Muito lindo seu texto Manoel Ferreira Neto, abriu o
coração expôs o seu modo literal de pensar. Acho que, sei lá, tá tudo meio
esquisito mesmo, meu amigo poeta, penso cá na minha ingenuidade poética que
quem gosta de te ler vai sempre gostar e não enjoa; eu leio e releio textos que
gosto muitas vezes. A linguagem já está mais do que batida esse tema. Aliás
falando em tema, pode parar viu? Por que falando tanto em morte, lápide,
epígrafe e tal? Ainda tem muito o que viver Manu...Vamos alegrar Beijos querido...Bjos
pra Graça... <3
Sonia Gonçalves
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QUANDO O MORTO FALA POR SI#
GRAÇA FONTIS: TÍTULO/ESCULTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
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EPÍGRAFE:
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"Raras são as pessoas portadores de um
pensamento consciente, vivo."(Manoel Ferreira Neto)
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Dizendo que raras são as pessoas portadoras de um
pensamento consciente, vivo, pensa-se, com efeito, o desejo é de achincalhar os
valores de nossa contemporaneidade, de nosso quotidiano, mas nunca que se tem
outros objetivos bem mais sérios que apenas uma afirmação neste nível, embora
seja bem explícito que assim o penso, seja uma incólume verdade.
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Raras são as pessoas portadoras de um pensamento
consciente, vivo.
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Não tê-lo não é solo, leitmotif para sentir-se
inferior, negligenciado, subestimado, achincalhado, vexar-se, sentir vergonha:
o aconselhável e a atitude ipsis verbis suprema e divina são silenciar-se, nada
dizer do que pensa e sente. Alguns diante do que pensam e sentem, viram as
costas, res-ponder seria o mesmo que assumirem o mesmo nível; quanto a mim, em
certas circunstâncias, não descendo em nível delas, mas dizendo-lhes de modo
que jamais terão a contra-resposta: levar-me-á ou levará o sapo seco para a
sepultura. Ai, isto me dá um prazer que a eternidade jamais sentirá o nível
deste prazer que sinto.
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Poder-se-á replicar que em tudo isto não existe
idéia, nenhuma novidade. Tenho muito poucas mesmo, idéia e novidade, e creio
que isto é o pecado original mais puro, o pecado, que alguns supõem terem se
anunciado no pretérito das pulgas, antes do rio assim se chamar, na sua fonte
mesma. Disse-o antes que não tenho uma novidade, a minha é feita de caminhar.
Replico, pela última vez, não me lembra de haver tido a primeira; não irei
repetir, é algo de que sinto sérias ojerizas.
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Contudo, que há nisto uma grande massa de idéias, e
nova, isto é, existem nestas palavras escritas no túmulo inúmeras idéias novas,
muitos desejos e vontade de mais vida ainda, há sim, pois que sou eu quem o
faz, não houve outro senão eu próprio. Mas, como já era esperado, exprimo-as
com grosseria. Não há motivos de agressividade, mas me exprimo deste modo e
estilo, e ainda me rejubilo de prazer e contentamento. Disseram-me que escrever
só coisas lindas e doces acaba por enjoar os ouvintes, leitores, o que concordei.
Havia coerência. Não sou um pequeno sujo que come chocolates de modo
compulsivo. Aí, então, sendo autêntico, assumi a agressão. Comigo não há outro
caminho senão os extremos, os paradoxos. Encontrei agora o meio-termo que tanto
as pessoas e íntimos reclamavam de mim.
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A exposição é mesquinha, frouxa, superficial e de
nível ainda inferior à minha idade. Faz vinte anos cometi o disparate de
aumentá-la dois anos. Os amigos descobriram a mentira, censurando-me por
atitude tão medíocre. Por que aumentar a idade?! Sem sentido. Talvez não
tivesse. Acredito. Pensava comigo que, aumentando a idade, iria mostrar maior
experiência e sabedoria. E, agora, esta exposição dos primeiros dias de
falecido é de nível inferior à minha idade. Adquiri muitas experiências com as
situações e circunstâncias da vida.
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É por um destes impulsos a que se procura em vão
resistir, que se entrega fácil a hesitações tantas, que me ponho a escrever
estas poucas linhas, quem quiser que compreenda e entenda mesmo que à moda das
orelhas pontiagudas, tenho pouco tempo, antes que o primeiro verme venha roer
as frias carnes do meu cadáver. É tudo, em mim e à volta de mim, tão estranho e
obscuro!... No entanto, mesmo que vivesse ainda por uns quarenta anos, juro que
não assumiria de novo tal encargo em relação a qualquer outro período da
existência. Deixo a liberdade de um posicionamento próprio, mas é necessário
estar ignobilmente enamorado de si mesmo para que seja possível a alguém
escrever a autobiografia pós mortem, em poucas palavras, sem me envergonhar.
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Se é que me envergonharia de algo escrito, com
certeza tenho uma idéia de quando: com uma linguagem bem vulgar e chinfrim, já
que posso espremer os miolos, criando coisas de alto nível, com uma linguagem
de causar inveja a muitos. Sentir-me-ia escrevendo um diário muito peculiar a
adolescentes, a adolescentes que descobriram a primeira paixão.
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Vale a verdade que não tenho em mira o aplauso dos
vivos, dos que estão ainda sensibilizados com a minha morte. A questão é tão
antiga que nenhum ouvido é capaz de captar com clareza e senso de julgamento.
Ouviu-se ser falado em todas as rodas isto e aquilo, em todos os lugares, aí
são os tratamentos mais delicados possíveis. Almejam com certeza algum
comentário dos futuros biógrafos, especialistas. O biógrafo e o especialista
esquecem-se de dizer com todas as letras e estilos possíveis que seu empreendimento
não teve outro sentido senão figurar no pretérito das pulgas. Mas com certeza
estes homens não vão figurar junto comigo. Não cito os nomes, mas denuncio as
falcatruas e interesses mesquinhos.
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Considero uma vilania expor no mercado literário os
sentimentos íntimos de um morto...
#riodejaneiro, 08 de dezembro de 2019#

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