ENTRE RE-VERSOS E VICE-VERSOS PILARES DE HORIZONTES - Manoel Ferrera
É mais fácil ser feliz do que
escrever;
Não troco a felicidade pela escrita,
É escrevendo que artificio
a felicidade que desejo,
com ela abrir espaços e vazios,
vácuos e abismos,
para a a-nunciação do
SER E DOS VERBOS,
que lhe tecem a VIDA,
que lhe compõem
o itinerário de campos
e
florestas
silvestres.
É mais fácil tecer palavras
Que re-presentem a verdade
Que habita o sonho do verbo
Que assistir de camarote
Às realizações de todos os desejos,
A concretização da VIDA em sua
Essência de pureza, inocência,
Acima de tudo,
Da ingenuidade do tempo,
Suas circunstâncias e situações.
É mais fácil alçar vôos profundos
Nas asas de letras e palavras
Que encontrar no quotidiano das ações
e atitudes,
Dos desejos e vontades outras
Que preenchem a vida de alegrias e
prazeres,
Asas para sobrevoar campos e
florestas,
Abismos e descampados;
É criando letras, artificiando
palavras,
Transcendendo com elas os caminhos
percorridos,
Que a vida se mostra plena,
E os sonhos de estendê-la a todas as
distâncias
Se tornam reais,
São perspectivas da beleza e do belo.
Vacilo entre querer e não querer,
entre ficar e arrumar as trouxas para escafeder-me sem deixar vestígios, sinais
de minha presença, fantasias e quimeras de minha ausência, saudades de minha
falta, ec-sistência, sem deixar os passos nas pedras das ruas, re-colhendo as
palavras todas que pronunciei, as idéias que, inocente e ingenuamente,
divulguei, as idéias que se me anunciaram, esperei amadurecer para id-ent-ificá-las,
como dissera um de meus maiores e melhores amigos no instante de nossa
despedida, “você está no seu mundo mesmo”, os sentimentos de amor que armazenei
em mim dentro para viver no meu espaço singular e particular, os olhares com
que observei as coisas, os rostos e os objetos, jogando-lhes na mochila, bem
mais tarde, comentários e opiniões, pontos de vista que ouvi altissonantes,
cretinices e mesquinharias, nos litteris de todos os ipsis re-fazer-lhes e
re-contruir-lhes nas instâncias e estâncias do in-verno e seu aspecto
ensimesmado nas auroras e crepúsculos do sertão, imagem do presente, do verão e
seus raios numinosos incidindo nas cabeças de transeuntes e nas ruas sem
sombras, não há árvores por todas elas, um convite ao mergulho na divinidade do
desejo e o adeus insofismável na algibeira, imagem do passado, “hasta la
muerte” no alforje, no dia do apocalipse faria uma viagem rápida com o objetivo
exclusivíssimo de soltar os fogos de artifício, comemorando a alegria de
assistir ao sepultamento da absoluta súcia, quem há que dela não seja
integrante, participante, nascido e criado nela?, ande ao seu lado como ovelha
do rebanho, ao fim de toda uma civilização e cultura, o espaço vazio no mapa,
jamais em todas as dimensões da alma; quem dera pudesse isso concretizar, não
veria re-fletido no espelho a tristeza e a desolação na minha imagem, a boca
fechada, em silêncio irrestrito e irreversível, há as suas vantagens, observo
com mais percuciência as mazelas e hipocrisias individuais e da história, entre
o que se foi e o que haverá de ser – na verdade, na verdade, não sei se foi
mesmo, parece confundido com o que está sendo, o que haveria de ser é o que se
foi, o que está sendo é uma ilusão do sonho que se anunciou instantes atrás,
tudo parece entrelaçado com certas inconsciências, concebidas e nascidas dos
instintos voltados para as justificativas e explicações fundadas e
fundamentadas nos interesses espúrios, súcias ideologias, pergunto-me como o
que há-de ser será possível, se o presente está amasiado, suciado ao passado,
entrelaçado com ele feito vermes, não tendo qualquer resposta, inda que
inviável; pergunto-me ainda se haveria possibilidade de silenciar onze anos de
minha vida, amanhã poderão ser trinta, três me foram bem fáceis, mas era garoto
de oito anos, apesar de aquando em vez alguma perspectiva se me a-nuncia, cuido
logo de devolvê-la ao catre com alguns comprimidos de Paracetamol, mais um para
somar ao coquetel que ingiro todos os dias, algumas massagens nas costas, lugar
onde tudo ficou mais que inscrito; jamais poderão figurar em qualquer espaço,
levo-lhes comigo para os sete palmos de terra, não havendo quem possa tecê-los
de modo a representá-los, quem conhece esses três anos de minha vida não irá
dar com a língua nos dentes, respeita-me o último pedido de não fazê-lo, não
que tema algo inconsciente seja exposto a todos os ventos, denegrindo-me a
imagem, sim porque não quero carregar canalha nas costas pela eternidade, tudo
o que disserem serão criações, invenções, frutos da imaginação fértil, mesmo
dos interesses de importância, pois que contribui com leituras mais
percucientes, esclarecedoras da psique e suas contribuições à personalidade e
caráter insolentes, prepotentes – não acredito que a psique seja a responsável
pela insolência e prepotência, em verdade são elas frutos da consciência da
inteligência e dos valores sensíveis e intelectuais que me habitam, foram
sempre objetos de encômio - à luz do que é exterior, mas no interior a busca de
verdades que me indiquem os caminhos do ser e dos verbos - o passado, seja o
que ele?, passado e promessa de outro presente, outro futuro; é na carne mesma
que trago esses anos, nela ninguém poderá mergulhar, arrancar dela as verdades
angustiantes que viveu por toda a vida, mesmo com a presença de todas as
mimeses para tripudiar com as mágoas, ressentimentos e ódios -, o que penso e
os sentimentos que me vão no íntimo, entre a verdade e a in-verdade –
insegurança e medo, suponho, - que me diz: “O indivíduo, sob qualquer
perspectiva e ângulo que se considerar e analisar, está sujeito a todas as
mudanças, é uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo o que está por
vir”.
Mas não é da esperança grande e
imensa que nesta terra houvera, limpa e pura a alegria, como têm costume,
hábito e orgulho de assim dizerem dela, sim da condição pesada e dura, cárcere
de correntes e algemas, de trabucos e carne viva e sensível, a culpa terá
firmeza, a responsabilidade, solidez, o mal logo mudará a natureza, os ossos
para sempre sepultados – quão fáceis são ao corpo o caixão, a sepultura! Quão
esplendidas são a hipocrisia e mesquinharia na construção de um patrimônio
histórico, de um museu cultural.
Manoel Ferreira Neto.
(05 de julho de 2016)

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