*CHUVA POR TODA A MADRUGADA* - Manoel Ferreira


Busco na solidão com que me deparo nesta manhã de após chuva noite inteira, no silêncio que se me a-nunciou desde que abri os olhos, meus sentimentos distantes, emoções à soleira da eternidade, pensamentos e idéias perdidos em não sei que sendas, intuições e percepções em estado de expectativa, alma e espírito dispersos na imensidão dos infinitos horizontes do mundo, mas tão perto que posso senti-los vivos e presentes, posso senti-los pujantes, posso sentir-lhes os êxtases e volúpias, vagam nas linhas curvas de letras e frases curtas que não tenho qualquer pejo ou medo de mostrar, id-“ent”-ificar, a-nunciar e re-velar, e mesmo que houvesse relutâncias não saberia como evitar a presença – como existir pejo ou medo em incertas palavras, inquietas letras, se antes não existissem em mim, se antes não fossem re-presentações do que em mim habita profundamente, não fossem símbolos de desejos e vontades, não fossem signos de esperanças e fé, não fossem metáforas dos sonhos e querências, não fossem estilo e linguagem do outro atrás do meu eu? Isto é perfeitamente impossível, isto é totalmente irrealizável. O peito procura abrigo com o coração dilacerado num só pulsar que troveja e me transpassa os nervos.
Sim, sei bem, embora isto me deixe mesmo angustiado e entristecido, desesperado e desconsolado, deixe-me com o peito confrangido, nada posso fazer que modifique ou trans-forme, que tergi-verse as perspectivas e ângulos, que nunca serei alguém, todos os sonhos e fantasias que tive em nada resultaram, esforços e lutas empreendidos em nada deram, a nada me levaram, para nada contribuíram no amadurecimento através das experiências e vivências, esvaeci-me no tempo e espaço, vaguei entre as nuvens brancas e azuis, perambulei por entre as estrelas distantes da lua, divaguei pelos infinitos espaços, dancei no ritmo e melodia do silêncio e solidão, re-criando “blues” e “jazz”, rebolei de ansiedade no deserto de minhas frustrações e fracassos. Sei de sobra que nunca escreverei uma obra cujos valores transcendam os tempos, seja objeto de inspiração e reflexão para a vida, e nada é capaz de explicar-me o porquê de minha insistência, de ainda ter esperança de a inspiração se revelar viva e presente, podendo, assim, concretizar esse desejo – não é que a esperança seja a última que morre? não é que antes tarde do que jamais? É continuar trilhando as veredas em busca das palavras incisivas e das letras definitivas, nalgum tempo alhures será re-velada, hora e vez são reais, hora e vez são na verdade do tempo, hora e vez são no espírito dos verbos feitos carne, hora e vez são nas mãos de estilo e linguagem feitos concha. Embora não deseje ou não tenha vontade de fazê-lo, não há mais como evitar, não há como esconder a cabeça de por baixo da terra ou no fundo do mais abismático poço, não há como desaparecer com o corpo na curva sinuosa, não há como fugir para além do mundo e da terra, não há como negligenciar o para além do bem e do mal, não há como não ser. Intelectualmente, as coisas se fizeram precoces, mas na vida mesma, no quotidiano das coisas, objetos, dos homens, ou demoraram muito ou chegaram tarde, e eu tive oportunidade de usufruir-lhes as graças ou não. Sei, alfim, que jamais saberei de mim, qual é o outro que me habita atrás do eu, quem sou nas palavras incertas, o que sou nas letras inquietas, que sou nos parágrafos e exclamações, qual é a verdade que mui profundo se encontra em mim, qual a mentira que em mim vive nas atitudes, ações, comportamentos, nas visões do mundo e da vida. Penso que a insistência em escrever obra que transcenda os tempos seja isto de querer, custando o que custar, até a própria vida, a verdade. Haveria quem não a buscasse, não tivesse qualquer necessidade dela, fosse uma coisa efetivamente inútil? A vida é nada sem o desejo da verdade. Houvesse quem não a buscasse, fosse a vida algo sem ela, não me sentiria sem ela, não me sentiria sem o desejo dela, ser-me-ia insensível a vida, ser-me-ia insensível o espírito dela.
Sim, mas agora, enquanto dura esta manhã, este tempo de após chuva por toda a madrugada, esta neblina que cobre a montanha, esse friozinho adstringente, as flores, as folhas respingadas, essa paz que sinto no mais profundo de mim, embora seja inacreditável, seja-me con-sentido crer o que jamais poderei ser, seja-me permitido nada saber do que já sei, do que desejava saber.
Ergo-me para uma nova manhã, manhã docemente viva, manhã efetivamente presente em todas as coisas, especialmente nas minhas retinas – quem dera pudesse con-templar as imagens que perpassam as minhas pupilas! quiçá as volúpias e êxtases fossem mais pujantes! A minha felicidade é pura, é o reflexo do sol na água, é a imagem da sombra no chão que é de giz. Cada acontecimento vibra em meu corpo como pontas finas de estalactites que se espedaçassem, que se tornassem simplesmente pó ou areia. Depois dos momentos curtos e profundos, mínimos e abismáticos, vivo com serenidade e calmaria durante longo tempo, quase impossível conceber a sua extensão, diria em termos dos confins às arribas, com-preendendo, recebendo, resignando-me a tudo, sendo-lhe indiferente de todo. Parece-me fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente haver-me distanciado dos homens, haver-lhes desconhecido, ser indiferente a eles, se existem, se são frutos de imaginação fértil, isso muito pouco diz-me respeito, isto muito pouco me desperta para outras jornadas em busca da verdade. Embora neste instante consiga estender-lhes a mão com uma fraternidade e solidariedade de que eles sentem a fonte viva. Falo-lhes das próprias dores, falo-lhes dos desejos e esperanças, falo-lhes dos sonhos e da fé, e eles, embora não ouçam, não pensem, não falem, têm um olhar bom, um olhar compassivo.
Distante da margem do rio de águas turvas, o impenetrável bosque de fetos verdeja ainda; é um bosque de folhas ondulantes, no qual o gado, pisando, traça permanentes veredas. Como nos dias da meninice, abria passagem violentamente, através da espessura, fundindo-me entre as plantas altas, nadando com as mãos, e procurando, às apalpadelas, onde pôr o pé. Inseto e répteis assustavam-se à minha aproximação.
Pergunto-me, às vezes, que é o amor, se é alguma coisa mais do que simples viração que murmura entre as rosas, samambaias, que sussurra entre as begônias e damas-da-noite. que esmorece e que morre. Se, ás vezes, não se assemelha a um sinete indelével que dura a vida inteira, que dura até a morte. Deus o fez multiforme e assim o viu perdurar às vezes, às vezes perecer. E continuará por sempre a fazê-lo multiforme, é assim que ele é e será, multiforme.
Sim, que é o amor? Um vento que murmura entre as rosas... Oh! não, uma luminescência amarela que incendeia o sangue, que pulsa o coração, que abre as veias para a liberdade da passagem do sangue. O amor é uma música ardente, um “blue” endiabrado, com lírica de contestação cristã e política, com versos de rebeldia e revolta, com estrofes de insatisfação e ódio, que faz pulsar até o coração dos jovens; é como a margarida que se abre inteiramente à chegada da noite; é a anêmona, que a um leve sopro se fecha, e a um simples contato fenece.
Na imensa escuridão de minha alcova, na obscuridade do temporal que descia do céu – não me lembra de no mês de março chover tanto como agora, “águas de março fechando o verão”, assim o definiu o “poetinha” Vinícius de Morais; não existem somente as águas de março, existem as do início de setembro para as flores da primavera abrirem e extasiarem a alma, instigar a busca da beleza eterna ou o eterno dos sentimentos e sensações da beleza, do puro, do belo, alfim do divino; a primavera e o amor é que me inflamam, o sublime e a amizade é que me enternecem, a verdade e a ternura que me sensibilizam. Que a um abismo irei ter, em vão percebo, e me rio aos toques e retoques. Em vão atraco, e em vão ponho brida a esta selvagem paixão -, meu coração se entristecia na solidão, sentimentos de ausência, carência, falta perpassavam o íntimo, no esquecimento da felicidade que já ia embora, no olvidamento da alegria que já partia e acenava o incólume adeus. Meu ser vivia na escuridão da noite, meu ser vivia na obscuridade do temporal, meu ser vivia no desejo, minha alma era uma lembrança que existia em mim, eu não era qualquer recordação, eu era nada e nada con-templava a manhã que se re-velava aos poucos, lenta e serenamente. Quando abri a cortina e semicerrei a janela, o vento frio tocou no meu pálido rosto, respirei amor, respirei carinho, respirei ternura, respirei o sublime carinho e a eterna amizade, suspirei de prazer e alegria, suspirei de tantas volúpias que me habitaram o íntimo, as pré-fundas de meu ser, o abismático não-ser de mim, criei poesia a des-vendar o céu, as estrelas, o espaço sideral, a des-velar as meiguices insolentes do inferno, a percorrer as florestas silvestres, a sobrevoar os abismos, procurando intensamente a loucura de trazer a sublimidade para junto de mim. Senti-me feliz, e a tristeza é que ficou no esquecimento dentro da obscuridade, derretendo-se em chuvas, caindo pelas estradas, sendo levada pela enxurrada, e esquecendo-se de mim, que não lhe dei qualquer guarida, não compreendi os seus valores naquele instante.
Do supremo repouso a hora nefasta soou, os sinos de todos os domos de igrejas simples e humildes redobraram. A treva impenetrável, densa, cresce em torno; e enche a noite da descrença, da desesperança, do ceticismo a amplidão do deserto adusta e vasta. Que inquietação profunda, que desejo de outras realidades, outros sonhos dentro de outros sonhos, de outros versos e uni-versos, de outras coisas, de outros modos de estados de alma, de outros estilos e sensibilidade!



Manoel Ferreira Neto.
(06 de julho de 2016)


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