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terça-feira, 4 de abril de 2017

**SERPENTE SERVIDA A CRITÉRIO E DESATINO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Epígrafe:


"... como uma coisa tão contraditória quanto a política, uma coisa que se anula a si própria, homens que se corrompem a si mesmos, poderia ser digna de júbilos e glórias" (Manoel Ferreira Neto)


Era véspera de eleição de um vereador para preencher a vaga do finado Saulo Junqueira, que morrera caindo aos pedaços, não me refiro à hanseníase, é que estava velho demais, senil, sejamos diretos e retos, apenas ocupava a cadeira na Câmara Municipal, se antes jamais fizera coisa alguma para o povo, na senilidade é que não iria fazer, os miolos já estavam mais que fracos, recebia o salário. Dois candidatos e dois partidos disputavam a palma com alma. Rimei! Tratar de política e ser poeta, ainda rimar, são duas coisas bem ad-versas, é misturar o amargo com o doce, e estar correndo o risco de mofas dos leitores, amigos, conhecidos, íntimos, é fazer a festa dos inimigos, acreditavam piamente que estava ensandecido, era um desvairado, aí está a prova, tratou de política e rimou, não enxergou as coisas tais como elas são. Sempre é melhor que disputá-la a trancos e barrancos, a cacete, cabeça ou navalha, como se usava antigamente. Antigamente, era até aceitável não apenas os termos, mas a realidade destes termos, quem mandava eram os coronéis, eram a ação e a atitude que conheciam e bem, mas hoje os tempos são outros, há coronéis, mas andam de calças curtas, não atacam nem mosca, e os termos são outros, palma com alma é de minha autoria, para evitar o ramerrão que andam pelas bocas e línguas afiadas. A garrucha era usada no interior, especialmente em nosso município, aqui começa o sertão bravo das Minas Gerais.
Oh! ainda agora, garatujando estas linhas, manhã tranqüila e serena, parece que mais tarde irá chover, anúncio de chuva deixa meu espírito sobremodo sensível, me não esqueceram os discursos que ouvi, nem os artigos que li por esses tempos atrás, no final do século passado, pedindo a eleição direta. A eleição direta era a salvação pública.
Eu, apesar de não ser tão jovem, passando dos trinta, metido a intelectual, ficava embasbacado, sério mesmo, quando ouvia dizer que todo o mal das eleições estava no método; mas, não tendo condições de isto entender, não havendo quem me explicasse a critério o que era isto de método nas eleições, acreditava piamente que estava no método, esperava alguma lei que modificasse o método.
A eleição direta se tornou realidade. Voltei para o interior. Dediquei-me ao magistério, era ensinar as noções básicas de nossa última flor do Lácio, coloquei a política de lado, não queria me envolver com falcatruas e tramóias. Não me lembra mais a razão de haver ido até o prédio da prefeitura, quando, sentado a uma das poltronas na sala de recepção, iria ser atendido pelo prefeito, era época de eleições, eleitor me dirigiu a palavra, fazendo-me compreender que estava entusiasmado e sobremodo eufórico com a diferença, "aquele sossego e os tumultos do outro método do passado", a política sofrera mesmo modificações, ainda bem.
Achei que tinha razão, e contei-lhe não em detalhes minuciosos algumas eleições antigas. Não achei conveniente, em nível de esclarecimento e trans-parência, identificar o método à luz de que estava elencando como eram as eleições antigas; como uma coisa tão contraditória quanto a política, uma coisa que se anula a si própria, homens que se corrompem a si mesmos, poderia ser digna de veneração. Se dera a mim por entendido, não o sei, mas sou quem não se limita ao que é estabelecido, ao que é permitido.
A serpente estava na sua mão: cabia-lhe saber o que fazer dela.


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE ABRIL DE 2017)


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