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terça-feira, 4 de abril de 2017

*MIRABLE DICTU** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Senhores e senhoras,


O assunto é por demais bicudo para se lhe analisar com as percuciências da razão e do intelecto, isto de partido político. Deveriam todos em uníssono comungarem as mesmas idéias, e serem ad-versos nos propósitos e projectos, deveriam ser disciplinados, seguissem piamente o Credo, de traz para frente, em nome do pai com a mão tocando o peito, do lado esquerdo fica o Pai, do lado direito fica o Filho, do Espirito Santo, na testa, antes de rezar com toda a alma presente. Há quem intencione (mirable dictu) - desculpai-me vós pelo latinorum, mas tenho a intenção de mostrar em que nível estou inter-pretando o verbo "intencionar" - que esse modo de ver e enxergar as coisas não pode ir ao ponto de recusar, refutar, dar as costas às vantagens que desembocam, caem das mãos dos adversários. A quem é dada a atitude de proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes e os ossos, um certo estremelique muito parecido com contorcimento?
Contudo e todavia, sem esquecer do mas, ulucubremos que assim seja, assim iniciando, dando começo ao que sinto e penso, que os adversários possam, tenham capacidades racionais, vez ou outra, de quando em vez, vis-à-vis, vice-versa, fechar os olhos aos interesses do governo e do povo, às ideologias da burguesia, à postergação das leis, à protelação das emendas, deveriam incluir as rasuras, aos excessos de autoridade, à per-versidade, aos sofismas, às premissas.
Tais casos, aliás, muitíssimo raros, não se lhes encontram tão facilmente, só poderiam ser con-sentidos, quando privilegiassem, reverenciassem, os elementos bons e não os maus. "Cada partido tem seus discolos e sicofantas", como numa reunião de todos os partidos num plenário na Câmara dos Vereadores dissera o Vereador Teotônio Cristóvão. Não sei explicar-vos se explicitando o que pretendia dizer com a sua frase, o que era "díscolos e sicofantas", talvez tais palavras nem existam no dicionário, estava claro que sativara as inspirações para a oratória, mas é fato que dissera é interesse dos ad-versários que afrouxemos as rédeas, a troco da animação dada à parte corrupta do partido.
"As idéias não morrem - continuava o seu discurso,após a frase de efeito, que emprestara de seu correligionário, "Cada partido tem seus díscolos e sicofantas" -, são o "lábaro da justiça".
Não houve quem neste instante que não haja esbugalhado os olhos com mais aquela frase, mais o termo "lábaro", a sativada nas inspirações estava dando resultados esplendorosos, magníficos, qual seria a fonte de sua inspiração, o que tudo aquilo queria dizer, quais as suas intenções e interesses. Não havia motivo assim para o susto com o termo, suficiente ser lembrado do verso do Hino Nacional "... o lábaro que ostentas estrelado"; haverá alguém quem se lembre do Hino Nacional no momento de discurso no plenário?
Depois de se fundamentar com as frases do companheiro de partido, terminara com uma estrofe quint-ética:


"Do templo serão expulsos os vendilhões
Crentes e puros atravessarão os séculos e milênios
Interesses mesquinhos postos abaixo
Victória indefectível dos princípios.
Tudo que não for isto ter-nos-á contra si"


Silêncio total na reunião, políticos se entre-olhando, mostrando os esgares faciais, olhares de dúvidas, o que mesmo tinha interesse em dizer, a quem dirigia tais palavras tão empoladas. E ainda termina com uma poesia.
No fritar dos ovos, todos os presentes se despediram, indo embora para casa com aquele discurso de Joaquim Rabelo, verdadeiras pulgas atrás das orelhas.


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE MARÇO DE 2017)


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