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domingo, 2 de abril de 2017

**ESPLENDOR VAZIO** - PINTURA: Graça Fontis/CONTO: Manoel Ferreira Neto


Se me contassem como se dera o encontro com Beócio Pimenta, não acreditaria a começar por seu nome, Beócio – se isto é nome de uma pessoa. O pai era um admirador do filósofo e Estadista romano, Boécio, mas todas as vezes que pronunciava o nome cometia o ato falho de dizer Beócio. Na hora de registrar o primeiro filho, não conseguiu pronunciar o nome certo, registrando-o Beócio Pimenta. De inteligência curta, não sabia o significado do adjetivo que usara para identificação de seu único filho.
De uma autocrítica sem limites e fronteiras, conseqüência das ironias e galhofas recebidas de todos do pequeno lugarejo de Pedras, devido ao seu nome significar tão simplesmente “curto de inteligência; ignorante, boçal”, o que, em hipótese alguma, era verdade, escrevera um pequeno conto intitulado “Severino, o Filósofo”.
Recebera das mãos de Teodorico da Pasta o exemplar do tablóide. Aliás, duas coisas explicam o sobrenome: família e o fato de estar sempre carregando uma pasta de couro muitíssimo surrada. Era uma das muitas leituras durante toda a semana. Ao invés de estudar com os discípulos os autores clássicos de nossas letras brasileiras, achava interessante estudar com eles os escritores de Pedras, não deixando de expressar críticas contundentes ao estilo. Aos sábados, pela manhã, após as dez, quando já tinha lido, passava eu em sua loja de fogões, apanhando. Sentado à pracinha, num dos bancos ao seu longo, fazia a primeira leitura sem qualquer compromisso de compreensão e entendimento. Observava os estilos chinfrins dos colaboradores, os erros crassos de nossa Língua Portuguesa, o que estava em perfeito acordo e sintonia com a função que exerço na sociedade, professor desta disciplina.
Irritei-me sobremodo com o conto, logo nas primeiras linhas escrevera Beócio Pimenta “E não pense que é desses filosofozinhos comuns nas mesas e balcões dos botecos”. Parece incrível dar atenção para um detalhe deste, mas me irritei.
Sefino Cruz Alta, editor-chefe do tablóide, e eu jamais trocamos uma única palavra, desde o primeiro encontro, ódio mútuo. Sendo convidado para os eventos sociais mais importantes da comunidade, escrevendo textos de uma crítica verdadeiramente contundente aos princípios e moral retrógrados, sem dó nem piedade, atingindo a todos, necessitando apenas de a carapuça servir, e não havia para quem não servisse; inclusive aos editoriais do tablóide, de péssimo mau gosto, superficiais, mostrando apenas seus interesses mais falsos e mesquinhos.
Sefino Cruz Alta, como se diz em Pedras, trabalhava a todo momento contra mim. Dissera a alguém de minhas relações pessoais e íntimas que era sim um homem erudito, clássico, conhecia e muito a Língua Portuguesa, mas não conseguia dizer coisa com coisa, um festival de mediocridades as idéias e pensamentos. Célio Mofino respondera com toda a categoria: “É... Para entender Amparo Gomes é preciso ter lido o que ele leu”. Não me importava com os seus chiliques. Deveria, ao invés, de trabalhar contra mim, procurar conhecer a Língua Portuguesa, tiraria lucros inestimáveis.
Se me irritei com as palavras de Beócio Pimenta, é que me pareceu ser uma seta indicada para mim quem tem o costume de, ao final da tarde, sentar-me a um botequim, tomar algumas cachacinhas, sem ficar embriagado, trocando as pernas pelas ruas da cidade, de pedras, machucando-me. Sento-me, leio algum jornal, livro, corrijo redações dos discípulos. Estaria Beócio Pimenta a chamar-me de filosofozinho. Irritei-me. Ademais, pareceu-me que Sefino Cruz Alta mandara Beócio Pimenta escrever a matéria por ele próprio não ter coragem e brio de o fazer por si mesmo. Era um de seus costumes: mandar que outros escrevessem o que ele próprio não tinha peito.
Nunca ouvira falar em Beócio Pimenta. Quem sabe alguém que retornara à cidade após haver completado os seus estudos na capital, o que é sobremodo comum. Quem era ele, afinal? Podia até ser que me conhecesse. O que lhe daria o direito de, não o conhecendo eu, escrever sobre mim, atacando-me, denegrindo a minha imagem? Não tinha direito disso.
Levantei-me do banco, indo à loja dos fogões de Teodorico da Pasta, saber de quem se tratava. Precisava saber quem era Beócio Pimenta. Disse-me que era proprietário de uma loja de confecções no Bairro Maria Amália, homem extremamente religioso, de conduta muitíssimo correta, alguém de uma bondade sem limites.
- Por que quer saber de Beócio Pimenta?
- Veja isto! – mostrei-lhe o tablóide.
- Não é nada disso que está pensando.
- Não mesmo, Teodorico?
- Não faria isto.
Terminando a conversa, dirigi-me de imediato à secretaria da Grupo Escolar Aires Rocha, onde trabalha o amigo Célio Mofino, diretor desta Instituição de Ensino, quem, provavelmente, poderia conhecer Beócio Pimenta. O que ele dissesse, com certeza, acreditaria piamente. Repetira as palavras de Teodorico da Pasta. Aliás, iria em oportunidade própria apresentar-me a Beócio Pimenta, tinha certeza de que nos tornaríamos bons amigos. Ficaria admirado com a sua inteligência aguçada, homem que sabia da História dos Santos, especialista nisto.
- Contudo, Amparo Gomes, acredito que Sefino Cruz Alta tenha se servido do conto de Beócio Pimenta para atingir você. Conhece-o bem. Sabe de seu caráter, personalidade. Homem sem qualquer moral e ética.
- Como pode alguém assim, Célio? Joga os outros na fogueira sem qualquer escrúpulo. Não fosse homem de senso, sei o que são as letras, o que elas podem causar, iria “catá-lo” no inferninho que estivesse, plantando-lhe um tabefe pelas fuças. Quis saber quem era primeiro. Sério isto!
- Muito sério.
- Realmente achei sobremodo criativo de Beócio Pimenta o conto, explorando o filósofo e Estadista romano. O conto, muitíssimo gostoso de se ler. O que me irritou foram as palavras de início. Sabe muito bem que adoro sentar-me à mesa de botequins, tomar as minhas cachacinhas. E, também, sei que Sefino Cruz Alta manda os seus colaboradores escreverem o que ele não o faz. Está sempre escondendo o seu rabinho entre as pernas.
Dirigi-me à minha residência, de onde iria dar um telefonema para Beócio Pimenta. Teodoro escrevera num pedaço de papel. Ligasse para ele em seu nome. Atender-me-ia com muito apreço, sendo amigo de seu.
- Béócio Pimenta.
- Beócio, aqui quem fala é Amparo Gomes. Sou amigo pessoal e íntimo de Célino Mofino.
- Ah, sim. Ele está bem? O que deseja, Amparo Gomes.
- Sobre a sua matéria no tablóide, aliás, o seu conto “Severino, o Filósofo”.
- Ah...
- Beócio, em princípio, irritei-me com o seu conto, as suas quase primeiras palavras: “E não pense que é desses filosofozinhos comuns nas mesas e balcões dos botecos”. Não nos conhecemos, não sabe que aprecio, adoro sentar-me à mesa de botequins, tomar algumas branquinhas. Sefino Cruz Alta e eu não temos quaisquer relações, nem mesmo aquelas diplomatas e formais. Não o conheço. Imaginei que ele houvesse mandado Beócio Pimenta escrevê-la, atacando-me por correspondência, o que foi desmentido por Célio Mofino e Teodorico da Pasta.
- Não faria isto de modo algum. Quanto mais em se tratando de alguém a quem não conheço.
- Acredito. Verdade, sim. Se Célio Mofino diz que alguém é de conduta sem manchas, é porque é verdade incontestável. Agora, você precisa tomar cuidado com as publicações de seus trabalhos, cuidar dos acontecimentos de nossa Pedras. Escrever é um risco sem limites e fronteiras. De repente, pode-se envolver numa situação delicada devido às atitudes de má-fé de Sefino Cruz Alta.
- Você o que é? Refiro-me à sua função social.
- Sou professor de Língua Portuguesa, Literatura no Instituto São Francisco de Assis. Acaso, não estivera no evento de lançamento de um livro de Mendes Gusmão, livro explorando a história de nossa pequena comunidade de Pedras. Fora eu o Mestre de Cerimônia.
- Não, não estive. Aliás, teria gostado muito de ir, mas aconteceu que necessitei fazer uma viagem às pressas, devido a meu filho haver sido acidentado na Capital. Apenas enviei um cartão para o amigo, parabenizando-o pelo seu trabalho.
- Desculpe-me haver ligado para você. A intenção é apenas desfazer o mal-entendido havido com a sua obra.
- Tudo bem... Entendo. Mas, Amparo Gomes, não diria, hoje pois tenho de ir visitar a minha filha que dera luz agora à tarde. Amanhã, à noite, terei imenso prazer de recebê-lo em minha residência para alguns dedos de prosa, acompanhados de uma cachacinha muito boa, da roça.
- Até amanhã...
Cri precisar de tomar uma atitude quanto à atitude espúria de Sefino Cruz Alta. Não tendo de lecionar à tarde, decidi ir até ao Grupo em que Célio Mofino leciona, a fim de conversarmos acerca de o que fazer a respeito. Elaboramos um pequeníssimo texto para enviar à redação do tablóide. Não poderia ter nomes, decidindo eu que assinaria com o pseudônimo Medusa, significando: “Olhe-me de frente. Petrifico você”, como é o mito da Medusa. Entre aspas, estas são as palavras que redigimos juntos:


“A nossa sociedade judaico-cristã ocidental cristalou sua crença na dicotomia existente entre o bem e o mal. As bem-aventuranças divinas e as chagas do mal demoníacas. Entre o bem que é belo e entre o escárnio do mal. Entre a clareza, transparência do bem e entre as trevas, escuridão, sombras do mal. Entre a verdade do bem e a mentira, farsa, falsidade do mal. O bem é o que deve ser; é, de acordo com a moral de uma época, de um tempo”.


Mandaria por e-mail. Dirigi-me à casa de Lúcifer Dionísio a fim de pedir-lhe que enviasse o e-mail. Tenho eu Internet, mas está desativada. Expliquei o que realmente estava acontecendo. Não era homem que jogasse as pessoas na fogueira, assistindo à cena de camarote. Se houvesse algum problema em enviar, era só dizer, compreenderia eu. Não apenas não se opôs a servir-me, sugeriu que enviássemos em seu nome, assim Sefino Cruz Alta não desconfiaria ter sido eu o autor. Publicado – acredita Lúcifer Dionísio que será -, será ele quem dirá que não fora escrito por ele e sim por Amparo Gomes.


Aérton Gonçalves Lacerda


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE ABRIL DE 2017)


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