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domingo, 2 de abril de 2017

**ENTREMEIOS DE UMA IMAGEM NO ESPELHO** - PINTURA: Graça Fontis/CONTO: Manoel Ferreira Neto


Vejo o Mundo como um purgatório de espíritos angélicos, coberto por nuvens de pensamentos pecaminosos.


Admoestam-me os entremeios de uma emoção infantil, e re-ver no des-enrolar do pensamento, para explicar o desejo do sentimento... Que dizer do silêncio, diante de mim, tenho a imagem que faz a liberdade chorar por rejeição e discriminação?!; que dizer do silêncio, atrás, porque é bom o som do inconsciente feliz, o barulho nostálgico de alguma coisa que não faz gemer!; des-conexa viagem nos ares perdidos da escultura reta e grave, que dizer do silêncio que habita o recôndito do ser, hein, que dizer dele? Aí, sim, digo em que dimensão estou buscando realizar com essa obra sobre os primeiros passos na vida, a contemplação do silêncio. Posso, então, contemplar também os frutos que advirão dela.
Os olhos, inda pequenos, antes de sentir, no espírito, a presença de um pensamento: “... os homens todos vão morrer, vou ficar sozinho no mundo, casar, ter filhos, vou começar a habitar o mundo, outra humanidade que vou fazer”. Coloco entre aspas - o pensamento não é construído com estas palavras. Tais palavras são de uma idade infantil? Dizendo-me respeito, creio que não. A questão é o desejo de sentimento do que pensava.
Nestas palavras, mesmo na idéia, há a presença do último homem, em verdade o mito do último homem. Qualquer coisa de um vazio abafado, despido de sensações. Sentia-me no mundo, cercado de tudo, desde valores emocionais, carinho, amor, até um pouco além das necessidades materiais. Clamava pela solidão, quando fosse o último minuto, seria o último, até à eternidade. Também ficava perplexo diante da pergunta: “Se só eu vou continuar no mundo, com quem vou me casar? Casar com o nada é impossível. Não existirá mulher”. Em pensando, creio e acredito sim que re-criava no pensamento os primórdios da humanidade, o mito de Adão e Eva. Sim, isto é hoje que com-preendo e entendo. Onde estão o desejo, sentimento, dimensão sensível presente e manifesta?
Perplexo diante do impasse, quem sabe surpreso com a solidão ainda mais presente, a ausência de uma mulher com quem procriar e fazer outra humanidade, sentia-me inteiro leal à imagem que se refletia em algum vidro atrás de mim que a câmara fotografou. Não mais necessitava do gênio maligno para acreditar que nem tudo é sonho, é já a presença de dentro, um sem-número de minhas dimensões: a in-trospecção e a in-troversão. O sibilo de um vento de entre a vigília e o sono surgia no espírito, dormia sereno e calmo.
Não sei se os amargos pensamentos, dolorosos sentimentos de perdição cessarão algum dia. Só uma condição é dada ao homem como destino: o universo da alma do homem é a união do celestial e do terreno. Que filho ilegítimo é o homem; a legalidade da natureza espiritual foi quebrada. Vejo o Mundo como um purgatório de espíritos angélicos, coberto por nuvens de pensamentos pecaminosos. Vejo o Mundo entregue a desígnios negativos e o sublime e a espiritualidade pura transmudados em sátira. Se não aceitar esta idéia ou os efeitos em relação ao todo e nos perdemos nesse turbilhão, o que acontecerá? O turbilhão des-aparecerá, não poderá continuar a existir. Mas ver o pesado fardo a que sucumbe o Universo, saber que é suficiente impulso da vontade para romper ou unir a ligação com o eterno – como isto é terrível, meu Deus!... E como o homem é covarde!...
Sem dúvida, mamãe contava suas histórias, que eu apreciava pelas inúmeras vozes que buscava usar para caracterizar bem os personagens, havia em sua fisionomia a presença de ruga entre as sobrancelhas. Talvez seja a infância, que não me faça vencido, posso expressá-la e re-criá-la, sem perdê-la em divagações. Havia em sua fisionomia a pergunta da vida, o caminho a seguir para re-encontrar o sentido de viver, a esperança da lucidez que prepara a morte, se ela existir.
Contudo, o que expressar do sonho, o que re-criar, se não me lembra? Posso pesquisar, conversar com mães a respeito dos sonhos de seus “pestinhas” queridos, re-criá-los, buscando uma expressão, delinear uma imagem de como deviam ser os meus sonhos. Isto de criar e buscar o que se esconde por detrás me soa perfeita submissão do olvidamento de mim. Há, sim, a vida e a possibilidade de tentar na estrada de quase tudo, nos caminhos do campo que levam à eternidade e mais um dia. Não posso ignorar que só saberei da roupinha que vestia, noutros tempos, quando buscar por mim, sem escutar o riso do sibilo do vento que a-nuncia a imensidão. Não é preciso que a História marque o meu registro.
Lembrou-me de na infância, ainda tenra, mamãe levou-me a Belo Horizonte para um passeio. Vestira-me ao modo e estilo para tirar fotografia, montado numa zebra, no Parque Municipal. Estava de “blazer”, gravata borboleta. A fotografia fora observada por todos, observação esta resultante de minha imponência e prepotência, o que a mamãe sempre respondera: “Mas este é o meu intelectualzinho!... Quem é já nasce. Resta apenas des-envolver”.
É triste viver sem esperança. Fico aterrado quando ante-vejo o futuro. Parece que vago numa espécie de gélida atmosfera polar, onde jamais algum raio de sol penetrou. Há muito que venho sentindo qualquer impulso da inspiração, enquanto permaneço neste estado deprimente, semelhante ao que sofreu o prisioneiro de Chillon depois da morte dos irmãos na masmorra. A celestial poesia não voa ao meu encontro, nem me aquece o coração imerso em gelo. Há quem diga sou bisonho, mas a verdade é que me abandonaram os sonhos do passado e todos os maravilhosos castelos no ar que construíra perderam o tom dourado. Os pensamentos, cujos raios me incendiaram o coração e a alma, perderam o fulgor, ou o meu coração mumificou-se, ou... tenho medo de prosseguir. Aterroriza-me ter de dizer que todo o passado foi quimera, cintilantes devaneios...
O corpo existe? ou não existe? Isto aqui é o meu “eu”? ou não é o meu “eu”? Pensando profundamente sobre essas coisas, muito tempo meditei, sentado na cama, apoiando o queixo com ambas as mãos espalmadas. Como dentro da casa não há nada nem ninguém, não há receio de que venham incomodar-me o silêncio. A lua está no céu azulado. Agora estou garatujando palavras, enchendo e pre-enchendo o que não mais há.
Sou palhaço autêntico, nato: a mesma coisa que idiota; não nego que espírito mau more talvez em mim, bem modesto e humilde, talvez os olhos res-plandeçam em in-solências do in-ferno, em todo caso: se fosse mais importante, ter-se-ia alojado em outra parte. Em compensação, sou não-crente.
Não brinco absolutamente, é verdade. Segundo toda aparência, não creio na imortalidade da alma. Esta idéia nunca esteve resolvida no meu coração e tortura-me. Mas o mártir, por vezes, também gosta de divertir-se com seu des-espero, igualmente como para esquecê-lo. No momento, é por des-espero que me divirto com artigos de jornais e revistas e com discussões mundanas, sem acreditar na minha dialética e zombando dela calorosamente a sós comigo.
Agora, é por diversão que me sento à secretária, passando a escrever a respeito de minha vida particular e íntima, buscando unir todas as dimensões que foram se perdendo no tempo, esquecendo-me muitas vezes que não posso dobrar os céus, mas posso sem qualquer dúvida agitar o in-ferno. Esta questão não está ainda resolvida, e é isso que causa meu tormento, porque re-clama imperiosamente seu lugar.
Sei que o fato de ignorar uma língua torna o ouvido muito mais sensível a sua harmonia – assim me explico, não tenho conhecimentos profundos da Língua Portuguesa, mas acredito que determinados estilos são mesmo devido a essa sensibilidade. Do mesmo modo, ninguém está mais apto a saborear paisagem do que aquele que a con-templa pela primeira vez. A natureza então se me apresenta em toda estranheza, porque não foi des-botada ainda por olhar demasiado freqüente.
Ouvira dizer que há em todos os homens gramática interior, espiritual, que muito embora esteja ainda ligada à gramática propriamente dita, distancia-se dela por sua constituição estar re-lacionada ao íntimo, através das emoções, sentimentos, traumas, desejos, vontades, conflitos. Acreditei piamente nesta interpretação da pessoa, e acho mesmo que é verdade, pois que em muito a estrutura de meu pensamento distancia-se da Gramática.
Creio não ser apenas difícil re-tratar-me, traçar quem sou, isto exige esforço e dedicação, e estou disponível a realizar, sigo a estrada, mas é impossível às vezes a percepção do caráter e personalidade: difícil con-vivência, só mesmo amizades especiais, [ e por que não espirituais?!], são capazes de entender, quando quero sou homem das mais reles baixarias, a bomba do tempo explode na cara de quem quer inverter a ampulheta, antes de toda a areia ser despejada. Assim, acredito que o hipotético leitor tenha mais segurança em delinear, traçar o retrato.
Não é novidade isso de “hipotético-leitor”? O narrador se dirige ao leitor mesmo, o indivíduo, homem, pessoa, cidadão quem lê a sua história, e aqui estou a dirigir-me ao hipotético – não tanto assim quanto se possa imaginar, pois que o leitor da obra está sendo eu quem a escreve.


Aérton Gonçalves Lacerda


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE MARÇO DE 2017)


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